Sobre Revisionismo Histórico

Extremistas disseminam revisionismo do Holocausto

Internet dá novo palco a ‘ativistas da negação’ que, movidos pelo antissemitismo, duvidam da História

POR CLAUDIA SARMENTO / ESPECIAL PARA O GLOBO

Sobreviventes do Holocausto perfilam-se numa cerca de arame farpado em Auschwitz logo após a liberação do campo por tropas soviéticas em 1945 – AP/1945

LONDRES – O historiador britânico David Irving, um biógrafo de Hitler, já comparou Auschwitz à Disneylândia, ao afirmar que o lugar que abrigou o campo de concentração nazista é uma atração para turistas. Irving faz parte de uma minoria que, movida por antissemitismo, alega que o Holocausto não aconteceu como ficou registrado na História. Para ele, os relatos sobre o mais documentado genocídio de todos os tempos são uma farsa para favorecer os judeus. O filme “Negação” conta como Irving perdeu um processo contra a historiadora americana Deborah Lipstadt.

Na ação judicial, movida há 16 anos, Irving exigiu que Deborah provasse que o extermínio de seis milhões de inocentes realmente ocorreu. Foi derrotado, classificado pela Justiça britânica como racista e teve sua carreira acadêmica destruída. O caso foi encerrado, virou filme, mas não calou gente que pensa como ele.

Nas redes sociais, uma nova geração de negacionistas – termo usado para definir os que dizem que o Holocausto não existiu – vem ganhando força. Entre eles, há indivíduos ou grupos de extrema-direita que se aproveitam da facilidade que a internet proporciona para a disseminação de mentiras e teorias conspiratórias. Sua principal alegação é de que as câmaras de gás, onde foram assassinados de idosos a bebês, são uma invenção das potências ocidentais para promover os interesses de Israel, uma “mitologia” amparada por um sentimento de culpa do mundo cristão. No YouTube, extremistas como o videomaker americano Eric Hunt encontram terreno fértil para proclamar que a matança comandada por Hitler é um embuste. Os discursos de Irving também são populares na rede.

 

Os ativistas da negação reconhecem que a Alemanha nazista perseguiu os judeus, mas comparam os campos de concentração a outros campos de prisioneiros mantidos em tempos de guerra. Para eles, as vítimas não chegaram aos milhões e morreram principalmente de doenças. Os comentários postados no vídeo do trailer de “Negação” são exemplo de como fatos históricos são desprezados. O filme, baseado no livro de Lipstadt sobre a batalha legal contra Irving, retrata o britânico como um historiador especializado em distorcer os acontecimentos. Nos posts, no entanto, muitos defendem a tese de que as câmaras de Auschwitz foram “construídas depois da guerra para os turistas verem” ou de que tudo não passou de “propaganda sionista”.

Para o historiador Nicholas Terry, da Universidade de Exeter, na Inglaterra, que pesquisa o comportamento online dos que não acreditam no Holocausto, a atitude não é nova. Desde os anos 1980, nomes como Irving, ou como o escritor italiano Carlo Mattogno, outro notório negacionista, usam seu pseudoconhecimento acadêmico para desmentir as provas e os sobreviventes, acusando a mídia ocidental de ser parte da “conspiração”. Mas, na era da pós-verdade, em que fatos pouco importam diante de crenças pessoais e apelo à emoção, essa fantasia ganha outra dimensão.

– A negação na era da web 2.0 usa as novas plataformas para armar uma onda de propaganda: videodocumentários, vlogs, spams, otimização de mecanismos de busca, sites-espelho, que replicam conteúdo, digitalização de livros antigos de negacionistas, provocações em comentários e fóruns. Pode ser extremamente difícil evitar a negação. O Google foi recentemente forçado a mudar seus algoritmos porque a pesquisa em inglês por “o Holocausto aconteceu?” levava diretamente a sites nacionalistas brancos e que negam o Holocausto. A maior parte dessa propaganda é ineficaz, mas convence algumas pessoas, e torna bastante fácil para alguém que já está inclinado ao antissemitismo cair na teia – explica Terry.

O acadêmico encaixa as interpretações distorcidas como parte de uma “tuiterificação”, ou seja, disseminação de posts que não negam apenas o Holocausto, mas também os primeiros passos do homem na Lua em 1969 (tudo não teria passado de uma farsa da Nasa) e as razões do 11 de Setembro (o governo americano sabia do ataque, mas precisava justificar a invasão do Afeganistão e do Iraque), entre outras teorias conspiratórias.

– Como verdadeiros crentes de teorias da conspiração, quem nega o Holocausto acredita fervorosamente que está em posse dos fatos corretos. Eles se consideram “buscadores da verdade”. Mas compartilham o mesmo desprezo e desconfiança pela mídia e pelo meio acadêmico que se pode encontrar entre os céticos da mudança climática, os teóricos da conspiração do 11 de Setembro, os que acreditam em alienígenas da Antiguidade. Todos eles rejeitam o conhecimento porque isso é inconveniente para suas crenças e fantasias – diz Terry.

 

Os negacionistas não estão necessariamente ligados a partidos ou movimentos neonazistas, como explica o pesquisador. Políticos populistas da extrema-direita na Europa, por exemplo, rejeitam essa tese por achar que é uma distração que atrapalha suas metas, como o combate à imigração. A revista digital “The Occidental Observer”, publicação nacionalista americana, proíbe posts que negam o Holocausto. Mas a discriminação a judeus é inerente à expansão das vozes extremistas.

– A negação do Holocausto e o revisionismo são um meio para legitimar o antissemitismo e outras formas de racismo. Pela teoria pervertida, se a história do Holocausto for enfraquecida, as pessoas não precisarão ter simpatia por judeus ou outros grupos que enfrentam abuso e violência agora. É por isso que temos de enfrentar e derrotar os negacionistas – diz Marie van der Zyl, vice-presidente do Conselho de Representantes dos Judeus Britânicos, que explora o potencial educativo da internet para combater a rejeição da verdade sobre o genocídio.

Em países como Alemanha, Áustria e Hungria, negar o horror nazista é crime. Nos EUA e no Reino Unido, prevalece a liberdade de expressão. No entanto, é cada vez maior a pressão para que gigantes da era digital, como Google, Twitter e Facebook, barrem as ofensas racistas e notícias falsas.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/mundo/extremistas-disseminam-revisionismo-do-holocausto-20875693#ixzz4YVn2p4AX

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