Democracia e autoritarismo

Democracia e autoritarismo

Marcia Tiburi

O fato de que as pessoas que vivem em um regime democrático não saibam o que é democracia é uma questão por si só muito grave. O saber sobre o que seja qualquer coisa – e neste, caso, sobre o que seja a democracia – se dá em diversos níveis e interfere em nossas ações. Agimos em nome do que pensamos. Mas muitas vezes não entendemos muito bem nossos próprios pensamentos, pois somos vítimas de pensamentos prontos.

Creio que, neste momento brasileiro, poucas pessoas que agem em nome da democracia estejam se questionando sobre o que ela realmente seja. É provável que poucos pratiquem o ato de humildade do conhecimento que é o questionamento honesto. O questionamento é uma prática, mas é também qualidade do conhecimento. É a virtude do conhecimento. É essa virtude que nos faz perguntar sobre o que pensamos e assim nos permite sair de um nível dogmático para um nível reflexivo de pensamento. Essa passagem da ideia pronta que recebemos da religião, do senso comum, dos meios de comunicação para o questionamento é o segredo da inteligência humana seja ela cognitiva, moral ou política.

Eu falo isso do jeito mais simples que posso, porque tenho um interesse profundo, como professora de filosofia, em poder falar com todas as pessoas. Mas eu também sei que a minha forma de falar é extremamente limitada pela minha própria história, por tudo o que estudei e por tudo o que não estudei. Esse saber e esse não saber, quando levados a sério, podem nos ajudar a pensar melhor sobre o que somos e o que fazemos. Acredito que o conhecimento que importa socialmente é aquele que surge como resultado do diálogo que temos que travar não só com os outros, mas com a gente mesmo, ali, dentro da nossa consciência. O conhecimento que surge do encontro das diferenças é o conhecimento verdadeiro. Ele não combina com ideias prontas, com discursos de qualquer tipo. Mas cada um de nós pode cair nesse tipo de coisa, pois somos seres afetivos, o nosso conhecimento é todo forjado a partir de uma posição afetiva, ou seja, relativa ao que sentimos. E nossos sentimentos são manipulados. E é isso justamente o que não devemos saber para que eles possam continuar sendo manipulados.

Perguntar sinceramente sobre o que é democracia se constitui em um ato de humildade cognitiva, um ato que, a meu ver, inspira as práticas democráticas. Mas é difícil praticar esse ato quando estamos sendo movidos por sentimentos tais como o ódio. Quando o ressentimento comanda o nosso modo de pensar. Não temos condições de ter consciência quanto ao ódio e o ressentimento que está em sua base, por que o ódio é justamente o que acaba com a chance do pensamento e do discernimento.

Mas se pudermos nos colocar esta pergunta sobre o que é a democracia, talvez tenhamos um filtro para melhorar as nossas ações. Essa pergunta, que é conceitual e que pede por uma definição, pode ajudar a quebrar o bloqueio dos nossos afetos maltratados. Ao mesmo tempo, se eu me pergunto sobre o meu próprio ressentimento e o meu próprio ódio dou uma passo importante na direção do conhecimento.  As coisas estão entrelaçadas. Talvez a pergunta pela democracia nos leve a respeitar as regras do jogo democrático, mas talvez ela nos leve a pensar o que estamos fazendo uns com os outros e com a gente mesmo.Talvez ela até nos ajude a sentir de um jeito melhor.

Flerte antidemocrático

Não podemos construir a democracia sem nos perguntarmos sobre o que ela significa entre nós. Penso isso, vendo o que tantas pessoas fizeram no domingo passado nas cidades do Brasil confundindo a democracia como forma de governo, como jogo social, com a mera expressão autoritária. A verdade que apareceu concretamente na passeata de domingo é a de que a democracia flerta facilmente com o autoritarismo quando não se pensa no que ela é e se age por impulso ou por leviandade. Eu não sou uma pessoa democrática quando vou à rua protestar em nome dos meus fins privados, dos meus interesses pessoais, quando protesto em nome de interesses que em nada contribuem para a construção da esfera pública. Eu sou autoritária quando, sem pensar, imponho violentamente os meus desejos e pensamentos sem me preocupar com o que os outros estão vivendo e pensando, quando penso que meu modo de ver o mundo está pronto e acabado, quando esqueço que a vida social é a vida da convivência e da proteção aos direitos de todos os que vivem no mesmo mundo que eu. Não sou democrática quando minhas ações não contribuem para a manutenção da democracia como forma de governo do povo para o povo, quando esqueço que o povo precisa ser capaz de respeitar as regras do próprio jogo ao qual ele aderiu e que é o único capaz de garantir seus direitos fundamentais: o jogo da democracia.

Esse jogo implica o voto, por exemplo. O voto e a eleição na base do voto precisa ser respeitada.

Por isso, para quem tem esse entendimento da democracia, é tão chocante ver tantas pessoas capazes de lutar contra ela. Como se elas mesmas não se beneficiassem da democracia. Aqueles que, no jogo democrático, pensam e agem a partir de dois pesos e duas medidas, caem na antidemocracia. É chocante ver pessoas que lutam contra os direitos dos outros e que, por não terem se preocupado em questionar o que fazem, lutam contra os seus próprios direitos sem perceber que o fazem.

Esse é o cidadão autoritário. Ele é praticamente um anticidadão.

É fácil ser autoritário. Basta parar de pensar e começar a gritar verdades prontas que nos são vendidas todos os dias.Verdade que o grito pode ter o seu sentido ético-estético-político, mas nem sempre. Quando ele é emitido pelos próprios cidadãos contra eles mesmos, quando serve para ferir direitos fundamentais de uma sociedade da qual esses cidadãos fazem parte, a contradição se torna estarrecedora. Que tenhamos políticos autoritários e uma longa tradição de poder colonial, de dominação e escravização, pode explicar o estado mental e afetivo de muitos cidadãos brasileiros que ainda não se esforçaram para pensar a democracia não apenas como um valor social e político, mas como o único modo de ser politicamente razoável para todos, porque também responsabiliza a todos pelas decisões políticas em jogo. Quem prefere o autoritarismo não sabe o que faz. Pensa que age em nome próprio, quando, na verdade, age contra si mesmo.

As verdades que muitos compram hoje em dia parecem baratas. A médio e longo prazo o preço pode ficar muito caro. Juros sociais e políticos não cessam de ser cobrados historicamente. O autoritarismo finge não existir o tempo histórico e prega em nome de interesses imediatos. O que vimos no dia 15 de março é a herança da ditadura militar que já era a herança imperial e colonial e da guerra fria e da história de engodos que é sempre sustentada pela inconsciência e pela ignorância.

Mantendo nossa ignorância sobre a importância de uma Sociedade e de um Estado democrático podemos estragar tudo que fizemos até aqui.

O autoritarismo não é o outro lado da democracia, ele é a sua destruição. Por mais que na passeata de domingo muitas pessoas pensassem que estavam fazendo democracia, elas acabaram contribuindo com o autoritarismo.

Histeria de massas

Não é necessário conhecer teorias políticas sofisticadas ou compreender os discursos complicados de intelectuais para poder ser um cidadão que se expressa com coerência em termos de política. Digo isso pensando em como pessoas de um modo geral tem se expressado muito mal sobre questões muito sérias. Não creio que as pessoas possam ser tão fascistas quando estão sozinhas comparado ao modo como se expressam quando estão em massa. O que autoriza cidadãos comuns a expressarem um ódio que, a meu ver, não é realmente e profundamente seu? Me pergunto sobre a criação da histeria de massas que levou a uma marcha como a do dia 15 de março passado. Evidentemente as pessoas foram capturadas pelos meios de comunicação de massa, sobretudo a televisão. Foram capturadas no que elas mesmas conhecem de ódio e ressentimento. É fácil capturar o ressentimento, assim como é fácil capturar o desejo de felicidade, de amor, de sucesso. A publicidade sabe disso. A televisão, como aparelho que age na lógica publicitária, usa o ressentimento e o ódio como estratégia de movimentação das massas.

É fácil se deixar levar por oportunistas e embusteiros políticos que com palavras fáceis ganham a adesão do povo colocando-os em estado de histeria coletiva.

Por isso, mais uma vez, é preciso afirmar que o problema do conhecimento é sério porque há vários tipos de conhecimento e um deles é o conhecimento paranoico. Esse que se viu nas ruas, que se vê expresso e fomentado pelos meios de comunicação de massa. Nos líderes perversos que transitam entre nós, a paranoia como verdade total é a regra.  Por isso, é preciso saber que a falta de conhecimento do que seja democracia não diz respeito a um problema apenas cognitivo. Trata-se certamente de um problema relativo à falta de uma educação para política e para a sociedade, mas não só. Trata-se também de um problema moral sobre o qual precisamos conversar mais.

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