Sobre Nazismo: descendentes de oficias nazistas – Himmler – Göring e Höss

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ARQUIVOS EXPRESSO

O nome do pai

25.12.2016 às 15h00

UNIVERSAL HISTORY ARCHIVE/UIG/GETTY

Como é chamar-se Himmler, Göring ou Höss? O que se faz quando um pai, um tio ou um avô foi um assassino nazi? Relato de cinco descendentes que carregam o fardo da sua linhagem Neste fim de semana em que celebramos a família e nos preparamos para o ano que há de vir, o Expresso republica histórias, reportagens, conversas, narrativas, dúvidas, considerações, certezas e revelações que fizeram de 2016 um ano preenchido. Todos estes artigos são publicados tal como saíram inicialmente

Os morangos não escolhem onde nascem. Se escolhessem, talvez a história de Rainer tivesse perdido alguma da sua ironia. E o jardim com piscina dos seus avós, tratado com zelo por 30 jardineiros, perdesse para os que ali passaram a infância parte do seu encanto. Os morangos cresciam livremente junto à sebe e eram arrancados e devorados pelos cinco irmãos da casa, num ritual diário em que a mãe lhes dirigia sempre o mesmo aviso: que lavassem os frutos com cuidado para remover qualquer vestígio de cinzas. Nenhum deles parecia importar-se com a enorme chaminé do forno crematório que, a escassos 200 metros, emoldurava o lado direito do jardim. Ou com a pacatez do cenário bucólico no qual acordavam todos os dias — conhecido por Auschwitz, a maior fábrica de morte da Alemanha nazi.

“Auschwitz é para mim o equivalente à casa dos meus avós”, diz Rainer Höss. Já lá esteve 28 vezes, com estudantes e amigos ou para participar nas comemorações do campo. E sente sempre a mesma coisa, o mesmo arrepio inconsolável. Desenvolveu comportamentos repetitivos, como começar a visita pelo mesmo sítio — a forca, onde o brutal comandante Rudolf Höss, seu avô, morreu em 1947 após o julgamento em Nuremberga. Ou como não tocar em absolutamente nada, nem sequer para abrir uma porta. “Se estiver frente a um dos blocos, espero que alguém saia para entrar. Não quero ter nenhuma ligação com o meu avô. Os seus crimes estão inscritos em todas as paredes.”

Como os morangos, Rainer não escolheu a família onde nasceu. Nem Rainer nem outros descendentes da elite nazi. Portadores de apelidos que de imediato relacionamos com o horror, a deles é a história de uma herança sinistra e silenciada. Sobreviveram ao seu nome sabendo que tal não é comparável a sobreviver a um campo de extermínio. E essa diferença radical determinou com frequência os seus percursos. Não é por acaso que Katrin Himmler estudou ciência política e se casou com um judeu, que Niklas Frank leva no casaco a fotografia do pai morto, que Bettina Göring decidiu esterilizar-se, que Rainer Höss se tornou ativista a tempo inteiro contra a extrema-direita, e que Horst von Wächter definiu como missão de vida limpar o nome do pai. O Expresso falou com eles, reconstruindo as suas histórias.

Rainer Höss cresceu a pensar no avô Rudolf como herói de guerra e soldado exemplar. Quem primeiro lhe passou esta imagem foi a avó Hedwig, para quem o marido se limitou a obedecer a ordens — ainda que comandasse a vida dentro do campo e fosse responsável pela construção de Birkenau, que decidisse o ritmo dos gaseamentos, que selecionasse quem viveria e quem não, e quem passaria a ser um dos 50 construtores judeus da sua própria villa com piscina. “Ela perdeu o paraíso em Auschwitz, e a pergunta assustadora é: se aos olhos da minha avó aquilo era o paraíso, como seria o inferno para ela?” A infância de Rainer foi dominada por esta mulher “fria e agressiva”, que em nada fazia lembrar uma avó. Que era incapaz de cozinhar — “tudo o que cozinhava era hediondo” — e que em 1984, na última vez que se viram, disse ao único neto que teria sido melhor se a mãe o tivesse abortado.

Até se suicidar em 1989, Hedwig negou que Auschwitz fosse um campo de extermínio, embora o forno crematório fosse visível do seu jardim. Teve cinco filhos e o quarto, Hans-Jurgen, pai de Rainer, tornou-se um pai abusivo. Batia no filho e na mulher, que tentou acabar com a vida numa dezena de ocasiões e só soube a origem familiar do marido três anos depois de se casarem. Quanto a Rainer, percebeu cedo qual era o seu lugar. Aos dez anos, pediu autorização ao pai para participar num jantar de Pesaj [Páscoa judia] a convite do melhor amigo. “Fiz o ritual de sempre: pus-me à frente dele, com as mãos atrás das costas, à espera de poder falar. Quando o fiz, ele saltou da cadeira, partiu-me o nariz e trancou-me no quarto. Eu não fazia ideia do que tinha acontecido, mas era normal e não pensei no assunto. À noite ele apareceu ainda furioso e disse-me: ‘não tens permissão para falar com lixo judeu’.”

 EM cima, Rainer Höss, neto de Rudolf Höss, comandante de Auschwitz. Em baixo, o casal Höss com os filhos (o rapaz mais novo junto a Rudolf Höss é o pai de Rainer); e a villa da família em pleno campo de concentração, de onde se vê o forno crematório

EM cima, Rainer Höss, neto de Rudolf Höss, comandante de Auschwitz. Em baixo, o casal Höss com os filhos (o rapaz mais novo junto a Rudolf Höss é o pai de Rainer); e a villa da família em pleno campo de concentração, de onde se vê o forno crematório

D.R.

ARQUIVO RAINER HÖSS

Dois anos depois, já a viver num colégio interno, um professor apercebeu-se da cegueira na qual estava a ser criado e levou-o a Dachau, onde o avô tinha trabalhado antes da guerra. Era a primeira vez que tomava contacto com um campo de concentração — “na minha juventude não era comum falar-se da II Guerra Mundial”. Ficou surpreendido ao encontrar uma placa com o seu apelido, o que o levou a questionar o pai sobre o assunto. A explicação que recebeu foi um amontoado de mentiras: onde se lia Höss devia ler-se Hess, tratava-se de um engano lamentável, ele até escrevera uma carta a reclamar. Passado algum tempo, viu na estante um livro sobre o comandante Höss que continha o mesmo ‘erro’. “As crianças acreditam no que os pais dizem. Pensei: meu Deus, escreveram de novo mal o nome! Tirei-o para verificar isso e o meu pai saiu disparado do escritório, agarrou-me na mão e proibiu-me de o ler.”

Mas Rainer leu o livro — intitulado “Eu, Comandante de Auschwitz”, nada menos do que a autobiografia escrita por Rudolf Höss na cadeia. Devorou-o em poucos dias aproveitando uma viagem de negócios do pai. No final, soube com uma certeza irrevogável que devia sair de casa. “Era a única hipótese para mim, a única possibilidade. Sei que neste contexto é horrível de se dizer, mas eu sobrevivi a esta família”, desabafa Rainer, de 51 anos. Mudou-se para o colégio onde já começara o treino como cozinheiro, andou ano e meio revoltado e submerso em drogas e álcool, até outro professor lhe estender a mão. O seu “mentor”, como gosta de lhe chamar — também produto da loucura nazi, nascido num Lebensborn, casas onde se promovia a fecundação de bebés de perfil ‘ariano’ —, que o ajudou “a sair desse ciclo” e a começar a consultar arquivos para perceber melhor o significado do seu nome.

DO ÓDIO À COMPAIXÃO

Fugir foi também o caminho que Bettina Göring escolheu aos 13 anos. A sobrinha-neta de Hermann Göring não suportou as consequências de viver na família do fundador da Gestapo, a quem Hitler nomeou seu sucessor. O homem que, após a morte prematura do irmão mais velho, tomou conta do pai de Bettina e era por ele adorado e admirado. “Hermann tornou-se um pai para o meu pai e um padrinho que tomava conta de todos, os enchia de presentes, os convidava para o seu castelo e lhes resolvia todos os problemas”, afiança. Mas o pior, o que desencadeou a rebelião sem retorno foi o facto de a avó paterna se mudar lá para casa e de insistir em negar o Holocausto. Um dia, a televisão emitiu um documentário sobre o tema e a avó, ex-dirigente da Cruz Vermelha que participara no embelezamento do campo de Theresiendstadt para estrangeiro ver, apressou-se a afirmar que era tudo mentira. Bettina e o irmão ficaram chocados, ingressando num longo túnel de perguntas até então não respondidas.

Reparação. Bettina Göring (em cima) forçou-se a deixar de odiar. Em baixo, pormenor de um álbum com a fotografia dos três sobrinhos de Hermann Göring. O rapaz à esquerda na foto é Heinz, pai de Bettina, que “adorava” o tio Hermann

Reparação. Bettina Göring (em cima) forçou-se a deixar de odiar. Em baixo, pormenor de um álbum com a fotografia dos três sobrinhos de Hermann Göring. O rapaz à esquerda na foto é Heinz, pai de Bettina, que “adorava” o tio Hermann

D.R.

ARQUIVO DE BETTINA GÖRING

Aos 13 anos, Bettina não estava em condições de perceber o que hoje lhe parece evidente: que sendo Göring, o pai Heinz e o avô Karl “não tiveram grande escolha” a não ser aceitar um destino militar. “Tive uma grande discussão com o meu pai, em que o acusei de pertencer a esta família e de nunca ter feito nada certo. Ele ficou mesmo zangado e, se nunca antes me tinha batido, fê-lo pela primeira vez. E eu devolvi o gesto. Havia tanta coisa não dita, tanta coisa explosiva, que não consegui aguentar.” Saiu de casa, foi viver para a comunidade de Osho, na Índia, e depois passou vinte anos anos em Santa Fé, no Novo México — sempre a lutar contra o seu apelido, “um fardo que gostava de não ter de carregar”. A dada altura, decidiu que o lugar do ódio tinha de ser ocupado por “alguma compaixão” e forçou-se a olhar para a família de outro modo. Deixou de acusar o pai de perpetrador: “Ele era demasiado jovem para isso.” Quanto a Hermann, mantém que era “um psicopata obcecado pelo poder e a riqueza”. E ficou estarrecida ao saber que o tio-avô tinha apoiado sem reservas a “Solução Final”.

Teve essa revelação em 2008, enquanto participava no documentário “Bloodlines”. Nele, fala-se da sua amizade com Ruth Rich, uma judia alemã cujos pais polacos sobreviveram à guerra, e da forma como cada uma embateu contra a herança da outra. Foi também durante esse processo que Bettina compreendeu melhor a opção por se esterilizar, que fizera aos 30 anos. Percebeu que a falta de vontade de ter filhos afinal não estava desligada da pertença a uma linhagem que “quis cortar”. Ela, que pratica a medicina alternativa, que recentemente trocou Santa Fé pela Tailândia, e que se parece fisicamente com o seu tio-avô Göring, é hoje uma mulher apaziguada. Uma mulher de quase 60 anos para quem a sua missão é “falar”, contar a sua história, contá-la para que o mundo não esqueça.

CONTRARIAR A HERANÇA

Para Katrin Himmler, o mais difícil foi contar a sua história ao próprio filho. Fruto do casamento — entretanto acabado — com um judeu cuja família escapou da Polónia nos anos 30 refugiando-se no que hoje é Israel, o rapaz teria sido exterminado sem escrúpulo pelo tio-avô da mãe, Heinrich Himmler. O Reichführer das SS de 1929 até ao fim da guerra, ideólogo dos Einsatzgruppen [esquadrões de morte] e o homem por trás dos campos de extermínio era um profundo antissemita e a sua afinidade com Hitler muito mais do que política ou de cariz oportunista. Katrin não contou ao filho de 16 anos tudo de uma vez, mas nunca fez segredo acerca do passado. “Não foi tão duro como imaginara. Eu estava a fazer o ‘trabalho sujo’, a pesquisar os segredos familiares. E agora que estão escritos já não há lugar para a especulação. Por outras palavras, aquele era um problema meu, que resolvi, nunca foi um problema dele. E ele pode ir atrás dos seus próprios interesses.”

Investigar. Este foi o destino de Katrin Himmler, sobrinha-neta de Heinrich Himmler, que se casou com um judeu e hoje vive em Berlim

Investigar. Este foi o destino de Katrin Himmler, sobrinha-neta de Heinrich Himmler, que se casou com um judeu e hoje vive em Berlim

D.R.

Investigar foi sempre o caminho de Katrin Himmler, de 49 anos, que na juventude temia que as pessoas reconhecessem o seu nome — o que raras vezes aconteceu. Após um curso de fisioterapia, alterou o rumo doutorando-se em ciência política na Universidade Livre de Berlim. Porque se a família nunca escondeu quem era o tio Heinrich, outros eram os dados enterrados. Por exemplo, a filiação do seu próprio avô Ernst no partido nacional-socialista e nas SS, e com ele a de outros membros do clã Himmler, que descobriu ao indagar nos arquivos federais a pedido do pai. Tais revelações levaram-na a escrever, em 2005, o livro “The Himmler Brothers”, primeiro resultado de uma pesquisa que se prolonga até hoje. Mas a surpresa de ter um avô abertamente nazi não se compara ao embaraço que lhe provocou desvendar a afinidade da avó com aquele ideário. Katrin amava essa avó, que morreu ainda ela era adolescente. “Temos a imagem de que as mulheres não tinham poder dentro do partido e que só os homens eram passíveis de culpa. E este foi o argumento delas depois de 1945: sempre disseram, e toda a gente acreditou, que eram donas de casa a tomar conta dos filhos. Mas isto não é verdade. A minha avó não era membro do partido mas votou a favor e lucrou imenso com isso. E no pós-guerra manteve contacto com ex-criminosos nazis.”

Os Himmler nunca perdoaram a Katrin por estender a sua investigação além da figura de Heinrich, em quem depositavam toda a responsabilidade. Queriam manter a ilusão, diz ela, de que o resto da família estava “limpa” de nazismo. Por razões diferentes, Gudrun, a própria filha de Himmler, ativista de extrema-direita que em 1952 ajudou a erguer a Wiking-Jugend [sucedânea da Juventude Hitleriana], deixou de lhe falar. E não o fará tão cedo. Há dois anos, Katrin publicou “Correspondência de Heinrich Himmler” (acabado de traduzir pela Bertrand), com as cartas que o nazi escreveu à mulher desde 1927. Nas entrelinhas de assuntos quotidianos e banais, como a descrição de uma paisagem com uma “vista magnífica” ou a preocupação pela saúde intestinal de Madga, estas vão dando conta de uma guerra com “vitórias admiráveis”. Deixam entrever que ele era muito mais próximo de Hitler do que se pensava e que empreenderam longas e produtivas viagens juntos.

O contrário aconteceu a Hans Frank. Chegou a ser advogado pessoal de Hitler e mais tarde governador-geral da Polónia ocupada, mas nunca fez parte do seu círculo íntimo. “Hitler colocou-o nessa posição porque conhecia a sua lealdade canina e sabia que jamais seria um obstáculo aos seus planos na Polónia. Na verdade, Hitler desprezava-o”, diz Niklas Frank, de 77 anos,filho mais novo do dirigente nazi e o único dos entrevistados com quem o Expresso falou pessoalmente, em Lisboa, no passado mês de março, no âmbito do Festival Judaica. Niklas nasceu em 1939, o ano em que o pai foi destacado para a Polónia, e cresceu com os cinco irmãos entre o Castelo de Wawel, em Cracóvia, e a residência familiar na Baviera. “Desde cedo soube que era filho de um homem muito poderoso e que podia fazer o que quisesse. Com o meu pequeno cat car, acelerava e batia nas pernas dos crescidos. E eles não podiam apanhar-me porque eu era o príncipe do castelo.”

UMA PALAVRA QUE NÃO EXISTE

Das suas memórias faz parte uma ida ao gueto de Cracóvia, onde a mãe costumava comprar artigos como algodão, sedas “e coisas caras”. Ela própria fixava os preços e os judeus aceitavam por acharem que podiam ser salvos. Niklas observava a cena da janela do carro, e a dado momento deitou a língua de fora a um rapaz. “Era mais velho do que eu e foi-se embora tristemente, e eu senti-me triunfante. Dei uma grande gargalhada mas a minha ama, Ilde, mandou-me calar.” Noutra ocasião, lembra-se de ser por ela levado a um campo de concentração e de aí haver um burro a saltar desgovernado. E de se rir muito com a cena, enquanto Ilde se divertia junto a um dos guardas, malgrado a multidão em condições degradantes que se divisava ao longe. Recordações como esta ainda lhe doem, mas ‘dor’ talvez não seja o sentimento que acompanhou Niklas ao longo da vida. O termo exato nem sequer existe, é algo que está “no meio de duas palavras: vergonha e culpa”. “Não há um dia em que não pense nas vítimas. Toda a minha vida tem sido assim.”

O grau de submissão do pai ao Führer ainda o assombra. Em 1942, Hans Frank apaixonou-se por uma amiga de infância e pediu à mãe de Niklas o divórcio, que não só lho negou como escreveu uma carta a Hitler solicitando sua intervenção. Hitler assim fez, proibindo-o de se divorciar até ao fim da guerra. “E o meu pai obedeceu. Podia ter dito que não ou tentado explicar a sua posição, mas era um cobarde.” Era igualmente um “mentiroso compulsivo” e o filho jamais perdoaria que ainda o fosse na última tarde em que se encontraram. “Eu tinha sete anos, sabia o que estava a acontecer em Nuremberga. A minha mãe tinha o rádio sempre ligado e o próprio advogado do pai tinha vindo a casa dizer que seria executado, que as provas eram avassaladoras. A ultima vez que o vi, eu estava sentado ao colo da minha mãe e ele atrás da janela da prisão, com soldados a rodeá-lo. E em vez de se despedir de mim disse: ‘Nikki, daqui a pouco vamos festejar o Natal em casa.’ Foi a minha última desilusão.”

Silência. Niklas Frank, em cima, contrariou-o sempre e escreveu três livros, todos sobre a herança do pai. Em baixo (à esquerda), em criança com os pais. Em baixo (à direita), Hans Frank a participar numa reunião com Hitler

Silência. Niklas Frank, em cima, contrariou-o sempre e escreveu três livros, todos sobre a herança do pai. Em baixo (à esquerda), em criança com os pais. Em baixo (à direita), Hans Frank a participar numa reunião com Hitler

ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

ARQUIVO DE NIKLAS FRANK

Niklas estudou direito, literatura alemã, sociologia, mas acabou por ser jornalista. Trabalhou 22 anos para a revista “Stern” e foi repórter de guerra durante mais dez. “Tive uma vida feliz e divertida, nunca deixei que o meu pai a estragasse. E sou o avô mais ridículo que se possa imaginar”, diz. Porém, no bolso de um dos casacos guarda sempre a foto do pai recém-enforcado, deitado sobre um lençol. Pormenor que pode parecer macabro a quem desconhece a sua ironia agreste e a tendência para o humor negro. Leva essa foto para se lembrar de que está mesmo morto e porque o pai, que só superficialmente confessou arrependimento em Nuremberga, parece estar a sorrir. “Agora deve estar a sorrir imenso com a subida da direita na Alemanha”, remata.

No extremo oposto de todos os exemplos aqui descritos está o de Horst von Wächter. Niklas conhece-o bem — filmaram juntos o documentário “What Our Fathers Did: A Nazi Legacy”, realizado por David Evans em 2015, onde também participa o advogado de direitos humanos Philippe Sands. Quarto dos seis filhos de Otto Wächter, Horst quase não teve contacto com o pai, em 1939 nomeado governador do distrito de Cracóvia e em 1942 da Galícia ucraniana, sob a alçada de Hans Frank. No filme, vemos Niklas repudiar a herança paterna enquanto Horst a engrandece, vendo no pai um herói, um ‘bom nazi’ que não era antissemita nem teve nada que ver com a expulsão de 68 mil judeus de Cracóvia ou com o assassínio de milhares de judeus ucranianos na floresta próxima de Lwiw.

Conseguir o depoimento de Horst, hoje com 77 anos, foi tarefa de meses. Finalmente, aceitou receber uma lista de perguntas do Expresso, cujas respostas mostraram em pleno as suas contradições. Admitiu ter sido criado como uma criança nazi “que enfrentou a derrota”. Contou que passou a maior parte da guerra numa casa da Áustria rural, junto ao lago Zell, onde dava “caminhadas pacíficas” a despeito das bombas dos aliados. Que o fim da guerra significou para ele a perda do lar. Para defender o pai, Horst faz questão de distinguir os dois sistemas de governo estabelecidos por Hitler, o civil e o policial, afirmando que Otto só fazia parte do primeiro — não obstante pertencer às SS. Era sobretudo responsável “pelas áreas da habitação e do trabalho, e não pelo extermínio dos judeus”. Himmler convidou-o a trocar a Ucrânia por Viena mas não aceitou “porque jamais teria abandonado esse povo para salvar a própria pele”. Simon Wiesenthal, que atestou tê-lo visto na estação de comboios de Lwiw a prender judeus, “na realidade confundiu-o com Fritz Kratzmann, que usava o mesmo uniforme”. Se não tivesse fugido para o Vaticano — onde morreu em 1949 — Otto nunca teria tido um julgamento justo. “Teria sido entregue a Estaline à espera, no melhor dos casos, de um julgamento-espetáculo em Lwiw ou mesmo em Moscovo”.

Horst define-se como inseguro e instável, e diz que só encontrou sossego ao trabalhar como assistente do artista austríaco — e judeu — Hundertwasser. Depois, fez da limpeza do nome do pai um objetivo de vida, para o qual afirma ter coligido vários documentos que provam a sua inocência, os mais cabais encontrados recentemente nos arquivos do Vaticano, em Roma, pela historiadora polaca Magdalena Ogórek: “Como filho, tenho o dever de retificar as coisas.” A isto somou a “obsessão” pelo estudo das Sagradas Escrituras hebraicas e a escolha de uma existência isolada no castelo que habita junto da mulher — “cuja estrutura reproduz os princípios do Templo de Salomão em Jerusalém”. O devaneio do seu discurso ancora-se, porém, num raciocínio de forte substrato ideológico: “Tudo o que diz respeito à II Guerra Mundial se tornou cada vez mais abusivo e afinal parece que cada austríaco vivo tem pelo menos um antepassado criminoso. Isto tem vindo a ser rejeitado como falso pela maioria da população.”

A CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO

A questão da herança nazi está longe de ser pacífica ou linear. É um chão escorregadio que nem todos querem pisar, com medo de derrapar para sempre no poço sem fundo onde Rainer, Niklas, Bettina e Katrin aprenderam a viver. É uma “conspiração do silêncio”, como a jornalista Alexandra Senfft, ela própria neta do nazi Hanns Ludin, explicou ao Expresso. A escrever sobre esta temática há mais de uma década, para ela a atenção nos descendentes da elite nazi “concentra a responsabilidade nos decisores em vez de analisar a atitude geral das pessoas comuns e perceber porque se tornaram fanáticas ou assassinas”. Muitos líderes nazis, sublinha, voltaram aos seus empregos, calando o seu envolvimento no Holocausto. “A sociedade tolerou-os porque a maioria tinha alguma coisa a esconder e da qual se sentir envergonhada ou culpada. Não houve qualquer conversa sobre o passado e, se houve, a guerra foi descrita de forma a que os alemães fossem vistos como vítimas — que também foram — e não como perpetradores.” Nos anos 60, as tentativas de os jovens quebrarem o silêncio não produziram efeito, “porque de novo os pais se sentiram acusados, defendendo-se com o silêncio ou a negação”.

Vir a público com a própria história é, para Alexandra, “um ato político”. Um ato que, nos anos 80, o psicólogo israelita Dan Bar-On teve de forçar na sua procura de testemunhos para o livro “Legacy of Silence”, pioneiro no assunto. Na introdução à edição de 2003, Bar-On relatou a sua chegada à Alemanha e a sensação de “não haver léxico para nomear esse passado”, tratado como um segredo temido e temível que mais valia não perturbar. Katrin Himmler acrescenta ainda a diferença abissal entre a atitude coletiva e a privada do povo alemão no que toca à II Guerra: “A Alemanha lidou com o seu passado furiosamente. Temos memoriais por toda a parte — eu vivo em Berlim e não posso avançar dois passos sem tropeçar num. As pessoas sabem muito sobre a época nazi mas não fazem ideia de como lidar com ela dentro das suas casas.” Mesmo quando o tema deixa de ser tabu, “ouvem-se as histórias dos bombardeamentos, em que as pessoas perderam tudo ou tiveram de fugir. Não se ouve falar de quem lucrou com o nazismo, de quem teve privilégios, ou se calou ou colaborou.”

Horst von Wächter quer limpar o nome do pai, Otto Wächter, que considera um ‘bom nazi’ e alvo de difamação histórica

Horst von Wächter quer limpar o nome do pai, Otto Wächter, que considera um ‘bom nazi’ e alvo de difamação histórica

FOTO SNIEZKA

“Este é um dos grandes erros do povo alemão”, concorda Niklas. “A grande maioria dos alemães não teve pessoalmente nada que ver com as mortes, mas como alemães deveriam saber, ou querer saber, o que os pais, avós e bisavós fizeram.” Ele, que em 1987 escreveu “In the Shadow of the Reich” para quebrar esse ciclo, contou desde cedo à filha quem foi e o que fez o seu avô Hans Frank. Também Rainer Höss seguiu a mesma via. Os quatro filhos adultos tiveram acesso à pesquisa que ele iniciara aos 20 anos, e que nos últimos 15 se tornou o centro da sua atividade. Ser ativista antinazi e contra o extremismo a tempo inteiro foi uma decisão tomada a quente, no rescaldo de um ataque cardíaco, da qual não se arrependeu. “Senti que era um sinal para eu mudar alguma coisa e fazer algo que realmente me importasse”. Vendeu o seu negócio e hoje organiza atividades e debates em 60 a 80 escolas por ano.

Porquê? “Porque o meu nome é um legado cruel mas pode ser uma arma contra aquilo que um dia representou. Porque hoje há pessoas a serem discriminadas pela religião, pela cor da pele ou pela sexualidade, e uma extrema-direita em ascensão, e isso não podemos permitir. E por uma questão de respeito: tenho de fazer isto pelas pessoas que sofreram às mãos da minha família. É a única coisa que posso fazer enquanto neto do meu avô.” Por isso começou a contactar sobreviventes e se envolveu há um ano no julgamento de Oskar Groening, o contabilista de Auschwitz que acabou condenado a quatro anos de prisão. Rainer juntou-se aos advogados em busca de testemunhas e no caminho encontrou Eva Kor, uma judia romena deportada para Auschwitz que, com a sua irmã gémea, fora alvo das experiências médicas de Josef Mengele. Rainer escreveu-lhe e ela marcou um encontro na cafetaria do campo principal. Só acedeu a começar a conversa depois de o olhar demoradamente e de avaliar as suas intenções. Era apenas o preâmbulo da forte amizade que levou Eva a referir-se a Rainer Höss como o “neto adotivo” e a dizer: “Fiz o que o seu avô nunca pôde fazer, pu-lo do meu lado.” Pela sua parte, Rainer tatuou no peito o número de prisioneiro de Eva, para que ela viva até ao fim dos dias dele, e para nunca esquecer a sua tarefa de “espalhar todas estas histórias”. Provar que nenhum homem, como os morangos, escolhe onde nasce. Mas alguns podem escolher onde, porquê e como querem morrer.

Fonte: Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 13 agosto 2016

http://expresso.sapo.pt/arquivos-expresso/2016-12-25-O-nome-do-pai

 

Nós Transatlânticos – Biblioteca audiovisual com foco voltado para o processo de construção social da cultura afrodescendente no Brasil.

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João Reis – Nossa História Começa na África – 20 min 35https://www.youtube.com/watch?v=PF6mXS9QWpo&spfreload=5


Makota Valdina – Negra, Candomblé e Cidadania – 17 minhttps://www.youtube.com/watch?v=4lkY6IIsmb4


Zulu Araújo – Construções da História Transatlântica – 15 minhttps://www.youtube.com/watch?v=VLuukPQD9fk


Renato Silveira – O Candomblé e Outras Expressões Culturais Afrobrasileiras – 16 minhttps://www.youtube.com/watch?v=3BwvDNFvFvo


Negra Jhô – Cabelo e Cultura Transatlântica – 17 minhttps://www.youtube.com/watch?v=63Jaibx0CVM


Yeda Castro – Povos, Línguas e Culturas Africanas no Brasil – 17 minhttps://www.youtube.com/watch?v=kuHpwsoSelE


Luislinda Vallois – A Primeira Desembargadora Negra do Brasil – 17 minhttps://www.youtube.com/watch?v=BosLEjfcfY4


Mãe Stella – O Camdomblé e a Identidade Cultural Brasileira – 15 minhttps://www.youtube.com/watch?v=aSNn4s9RhAM


Nadir Nobrega – Por uma Dança Afro-Brasileira – 12 minhttps://www.youtube.com/watch?v=yBlH5jX7q2k


Muniz Sodré – O Espaço da África no Brasil – 17 minhttps://www.youtube.com/watch?v=tbQ0J2zmHdg


Letieres Leite – Tradições em Contemporaneidade Musical – 15 minhttps://www.youtube.com/watch?v=bV2pHKGWYDs


Margareth Menezes – Profissionalismo na cena musical brasileira – 17 minhttps://www.youtube.com/watch?v=F4wL4x-VY2o


Pai Laercio – Candomblé e Contemporaneidade – 26 minhttps://www.youtube.com/watch?v=F5EWa5y1-70


João Jorge – Olodum: música, cultura e politicas afirmativas – 15 minhttps://www.youtube.com/watch?v=Y9Ag4K19DR4


Clarindo Silva – Uma Cantina da Lua – 16 minhttps://www.youtube.com/watch?v=B1_flUPnhi0
Gerônimo Santana – Música contemporânea com levadas tradicionais – 14 minhttps://www.youtube.com/watch?v=7ZZ3LXNB6ok


Clyde Morgan – A Contribuição Africana para a Dança Brasileira – 19 minhttps://www.youtube.com/watch?v=pMcOCZWVK4g


Ligia Margarida – Associações, Irmandades e Desvalidos – 16 minhttps://www.youtube.com/watch?v=9JGlQWCPxjA


Bule Bule – Um Grande Mestre das Tradições da Música e da Cultura – 14 minhttps://www.youtube.com/watch?v=E3wbp63E3Bg


Marcio Victor – O Carnaval e a Cultura Musical no Brasil – 14 minhttps://www.youtube.com/watch?v=7tnt-tFEYxo


Vovô Ilê – Tudo Começa na Liberdade – 15 minhttps://www.youtube.com/watch?v=jsk49gseKn8

ABDIAS NASCIMENTO – Cidadania e Negritude

A Guerra na Síria: texto e vídeos

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Exército sírio diz que retomou Aleppo: 8 perguntas para entender a guerra no país

Implicações dos últimos desdobramentos no principal campo de batalha do conflito, que já matou mais de 400 mil pessoas, podem definir futuro do país.

Rebeldes sírios chegam nesta quinta-feira (22) em área controlada pelo regime após serem retirados de Aleppo (Foto: Omar haj kadour / AFP)Rebeldes sírios chegam nesta quinta-feira (22) em área controlada pelo regime após serem retirados de Aleppo (Foto: Omar haj kadour / AFP)

Rebeldes sírios chegam nesta quinta-feira (22) em área controlada pelo regime após serem retirados de Aleppo (Foto: Omar haj kadour / AFP)

O exército sírio declarou ter retomado o controle da cidade de Aleppo após a evacuação do último grupo de civis e rebeldes.

Um funcionário da ONU havia dito anteriormente que mais de 34 mil pessoas foram removidas das áreas controladas pelos opositores desde a última quinta-feira – elas foram levadas para território rebelde a oeste da cidade e na província de Idlib.

Trata-se de uma grande vitória para o presidente Bashar al-Assad, cuja campanha foi ajudada por ataques aéreos russos.

Mas quais as implicações desses últimos desdobramentos? Entenda esse e outros pontos da guerra na Síria, que, segundo a ONU, já matou mais de 400 mil pessoas e obrigou mais de 4,5 milhões a fugirem.

1. O que está acontecendo em Aleppo – e por que isso é determinante?

A cidade tem sido um dos principais campos de batalha entre forças do governo e os rebeldes que querem tirar Assad do poder. Em novembro, as tropas governamentais lançaram um novo ataque e rapidamente retomaram o poder de quase toda a cidade. Nas últimas semanas, elas conseguiram confinar os rebeldes em poucos bairros.

Dezenas de milhares de civis conseguiram escapar, mas a ONU afirma que centenas desapareceram ao tentarem controlar áreas controladas pelo governo e que rebeldes estão impedindo que civis fujam.

As forças beligerantes acordaram um cessar-fogo no qual os rebeldes e suas famílias poderiam ser levados para outras partes do país controladas por eles. Outro ponto acordado é o de que os feridos seriam levados a hospitais.

Aleppo já foi a maior cidade da Síria, com uma população de 2,3 milhões de habitantes. Também era o centro financeiro e industrial do país.

Em 2011, quando explodiram os protestos contra Assad, a cidade não foi palco de grandes manifestações ou da onda de violência que atingiu outras localidades. Mas no ano seguinte, ela se tornou um campo de batalhas importante após uma iniciativa dos rebeldes para expulsar as forças governamentais.

Aleppo acabou sendo dividida em dois e, nos quatro anos seguintes, se tornou um microcosmo do conflito, simbolizando as fraquezas dos dois lados da guerra e também o fracasso da comunidade internacional para proteger os civis e obter um acordo de paz.

Se Assad de fato tiver retomado totalmente a cidade, isso significa que ele passará a deter o controle das quatro maiores cidades do país. Ele pode esperar que a vitória em Aleppo seja uma bola de neve que desemboque no fim da guerra.

Mas com as forças rebeldes, grupos jihadistas e curdos ainda controlando grandes partes da Síria, pode ser que a guerra continue por muito tempo. Então, há a possibilidade de o conflito se tornar um outro tipo de guerra – em que os rebeldes não estão tentando assegurar territórios, mas sim praticando um tipo de insurgência que ataca e recua rapidamente.

2. Qual era a situação na Síria antes da guerra?

Antes do início do conflito, muitos sírios se queixavam de um alto nível de desemprego, corrupção em larga escala, falta de liberdade política e repressão pelo governo Bashar al-Assad – que havia sucedido seu pai, Hafez, em 2000.

Um março de 2011, adolescentes que haviam pintado mensagens revolucionárias no muro de uma escola na cidade de Deraa, no sul do país, foram presos e torturados pelas forças de segurança.

O fato provocou protestos por mais liberdades no país, inspirados na Primavera Árabe – manifestações populares que naquele momento se estendiam pelos países da região.

Quando as forças de segurança sírias abriram fogo contra os ativistas – matando vários deles -, as tensões se elevaram e mais gente saiu às ruas. Os manifestantes pediam a saída de Assad.

A resposta do governo foi sufocar as divergências, o que reforçou a determinação dos manifestantes. No fim de julho de 2011, centenas de milhares saíram às ruas em todo o país exigindo a saída de Assad.

3. Como começou a guerra civil?

À medida que os levantes da oposição aumentavam, a resposta violenta do governo se intensificava.

Simpatizantes do grupo antigoverno começaram a pegar em armas – primeiro para se defender e depois para expulsar as forças de segurança de suas regiões.

Assad prometeu “esmagar” o que chamou de “terrorismo apoiado por estrangeiros” e restaurar o controle do Estado.

A violência rapidamente aumentou no país: grupos rebeldes se reuniram em centenas de brigadas para combater as forças oficiais e retomar o controle de cidades e vilarejos.

Em 2012, os enfrentamentos chegaram à capital, Damasco, e à segunda cidade do país, Aleppo.

O conflito já havia, então, se transformado em mais que uma batalha entre aqueles que apoiavam Assad e os que se opunham a ele – adquiriu contornos de guerra sectária entre a maioria sunita do país e xiitas alauítas, o braço do Islamismo a que pertence o presidente.

Isto arrastou as potências regionais e internacionais para o conflito, conferindo-lhe outra dimensão.

Em junho de 2013, as Nações Unidas informaram que o saldo de mortos já chegava a 90 mil pessoas.

4. Quem está lutando contra quem?

A rebelião armada da oposição evoluiu significativamente desde suas origens.

O número de membros da oposição moderada secular foi superado pelo de radicais e jihadistas – partidários da “guerra santa” islâmica. Entre eles estão o autointitulado Estado Islâmico e a Frente Nusra, afiliada à Al-Qaeda.

Os combatentes do EI – cujas táticas brutais chocaram o mundo – criaram uma “guerra dentro da guerra”, enfrentando tanto os rebeldes da oposição moderada síria quanto os jihadistas da Frente Nusra.

Também combatem o Exército curdo, um dos grupos que os Estados Unidos estão apoiando no norte da Síria.

Desde 2014, os EUA, junto com o Reino Unido e a França, realizam bombardeios aéreos no país, mas procuram evitar atacar as forças do governo sírio.

Já a Rússia lançou em 2015 uma campanha aérea com o fim de “estabilizar” o governo após uma série de derrotas para a oposição. Essa intervenção possibilitou vitórias significativas das forças aéreas sírias.

Os rebeldes moderados têm requisitado armas antiaéreas ao Ocidente para responder ao poderio do governo sírio. Mas Washington e seus aliados têm procurado controlar o fluxo de armas por medo de que acabem indo parar nas mãos de grupos jihadistas.

5. Qual é o envolvimento das potências internacionais?

Os Estados Unidos culpam Assad pela maior parte das atrocidades cometidas no conflito e exigem que ele deixe o poder como pré-condição para a paz.

Já a Rússia apoia a permanência de Assad no poder, o que é crucial para defender os interesses de Moscou no país.

O Irã, de maioria xiita, é o aliado mais próximo de Bashar al-Assad. A Síria é o principal ponto de trânsito de armamentos que Teerã envia para o movimento Hezbollah no Líbano – a milícia também enviou milhares de combatentes para apoiar as forças sírias.

Estima-se que os iranianos já tenham desembolsado bilhões de dólares para fortalecer as forças sírias, provendo assessores militares, armas, crédito e petróleo.

Contrapondo-se à influência do Irã, a Arábia Saudita, principal rival de Teerã na região, tem enviado importante ajuda militar para os rebeldes, inclusive para grupos radicais.

Outro aliado importante dos rebeldes sírios, a Turquia tem buscado limitar o apoio dos EUA às forças curdas, que acusam de apoiar rebeldes do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão).

Os rebeldes da oposição síria ainda têm atraído apoio em várias medidas de outras potências regionais, como Catar e Jordânia.

6. Por que a guerra está durando tanto?

Um fator chave é a intervenção de potências regionais e internacionais.

Seu apoio militar, financeiro e político tanto para o governo quanto para a oposição tem contribuído diretamente para a continuidade e intensificação dos enfrentamentos, e transformado a Síria em campo para uma guerra indireta.

A intervenção externa também é responsabilizada por fomentar o sectarismo no que costumava ser um Estado até então secular (imparcial em relação às questões religiosas).

As divisões entre a maioria sunita e a minoria alauita no poder alimentou atrocidades de ambas as partes, não apenas causando a perda de vidas, mas a destruição de comunidades, afastando a esperança de uma solução pacífica.

A escalada de terror causada por grupos jihadistas como o EI – que aproveitou a fragilidade do país para tomar o controle de vastas partes de território no norte e leste – acrescentou outra dimensão ao conflito.

7. Qual é o impacto da guerra?

Segundo a ONU, a guerra já matou mais de 400 mil pessoas e obrigou mais de 4,8 milhões de pessoas a fugir de suas casas – a maioria mulheres e crianças.

O êxodo de refugiados, um dos maiores da história recente, colocou sob pressão os países vizinhos – Líbano, Jordânia e Turquia.

Cerca de 10% deles buscam asilo na Europa, provocando divisões entre os países do bloco europeu sobre como dividir essas responsabilidades.

E as estatísticas terríveis não param por aí.

A ONU disse que são necessários US$ 3,2 bilhões para prover ajuda humanitária a 13,5 milhões de pessoas – incluindo seis milhões de crianças – no país.

Além disso, 70% da população não tem acesso a água potável, uma em cada três pessoas não consegue suprir as necessidades alimentares básicas, mais de 2 milhões de crianças não vão à escola e uma em cada cinco indivíduos vive na pobreza.

8. O que a comunidade internacional faz para pôr fim ao conflito?

Como nenhuma das partes é capaz de impor uma derrota decisiva à outra, a comunidade internacional há muito concluiu que a única forma de pôr fim à guerra é por meio de uma solução política.

O Conselho de Segurança da ONU pediu a implementação do Comunicado de Genebra, adotado em 2012 na cidade suíça, que contempla um governo de transição com amplos poderes executivos “baseado no consentimento mútuo”.

Porém, as negociações de paz de 2014, conhecidas como Genebra 2, foram interrompidas. A ONU responsabilizou o governo sírio por se recusar a discutir as demandas da oposição.

Um ano depois, a ascensão do grupo autodenominado Estado Islâmico deu novo ímpeto à busca por uma solução pacífica.

Em janeiro deste ano, Estados Unidos e Rússia conseguiram convencer as partes em conflito a participar de “conversas de aproximação” em Genebra para implementar o plano da ONU.

Mas as negociações foram suspensas ainda na fase preparatória, depois que as forças de segurança sírias lançaram uma ofensiva contra a cidade de Aleppo, no norte do país.

Este ano, as duas superpotências mundiais conseguiram negociar uma interrupção das hostilidades, com a qual os enfrentamentos foram suspensos.

A última trégua parcial, em meados de setembro, fracassou dias depois de entrar em vigor, após um ataque letal contra um comboio de ajuda humanitária, no qual morreram 20 civis. Os EUA culparam a Rússia pelo bombardeio – Moscou negou as acusações.

Na última semana, o chanceler britânico, Boris Johnson, convocou os embaixadores da Rússia e do Irã no Reino Unido para discutir sua “preocupação” sobre a ação dos dois países na Síria.

Ele disse que esses países falharam ao não ajudar no envio de ajuda humanitária a Aleppo e disse que ambos precisariam garantir que as tropas da ONU supervisionem o processo de retirada dos civis e dos rebeldes.

O Ministério de Defesa da Rússia disse que as autoridades sírias garantiram a segurança dos grupos armados que decidiram deixar a cidade.

  • SÍRIA
  • Fonte: http://g1.globo.com/mundo/noticia/exercito-sirio-diz-que-retomou-aleppo-8-perguntas-para-entender-a-guerra-no-pais.ghtml
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Vídeos:
Entenda a guerra na Síria – 9 m 20
 
O que há em Aleppo, na Síria – 6min 30
 
A Crise da Síria contada em 10 minutos e com 15 mapas – 10 min 30
 
Compreender a situação na Síria em 5 minutos (Le Monde) – 6 min
 
o que está acontecendo na Síria ? – 5 min
 
OLHA O QUE ESTÁ ACONTECENDO NA SÍRIA – 5 min 30
 
Guerra na Síria – Batalhas de 7 de junho de 2016 – 14 min 36
 
Guerra na síria Imagens Tristes – 4 min 24
 
El Conflicto Sirio, en Cinco Minutos – 6 min
 
Primavera Árabe: atualidades (Síria, Egito, Tunísia e Líbia) Vídeo Aula – 25 min

COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE

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Foram necessárias décadas de luta incansável dos familiares de mortos e desaparecidos, exigindo o esclarecimento dos crimes ocorridos durante os governos totalitários da ditadura militar, para que a Comissão Nacional da Verdade (CNV) fosse finalmente criada, em 2011. No ano seguinte, a CNV iniciou os seus trabalhos, igualmente impulsionados pelas pressões de setores da sociedade civil organizada. Apesar de tardia, pois instituída praticamente 50 anos depois do golpe militar, ela foi um marco importante para passar a limpo esse período nefasto e violento da história do país. Também foi importante porque, além de construir uma narrativa de memória e verdade sobre as violências e práticas repressivas do Estado durante a ditadura, a CNV formulou 29 recomendações para que o Estado possa promover justiça com relação aos crimes ocorridos no período, reparar simbólica, financeira e psicologicamente às vítimas e reformar suas instituições aperfeiçoando a democracia e visando a não repetição das violações de direitos humanos que ocorreram no período. A efetivação desses eixos daJustiça de Transição, bem como o acatamento das recomendações da CNV, são fundamentais para que o Estado e a sociedade possam se reconciliar com seu passado autoritário, impedindo que a impunidade, as violações de direitos humanos e as práticas violentas e repressivas persistam no presente.

O que são Comissões da Verdade

A Comissão Nacional da Verdade no Brasil

 

Experiências Internacionais que antecederam a CNV

O nome “Nunca más”, escolhido pela CONADEP como título de seu relatório, transformou-se em um dos lemas mais populares da não repetição dos crimes e violações de direitos humanos praticados pelo Estado durante ditaduras ou situações de conflito. O relatório “Brasil: Nunca Mais” – realizado pelo Conselho Mundial de Igrejas e pela Arquidiocese de São Paulo – inspirou-se no nome do relatório argentino.

Desmond Tutu (1931-) é um arcebispo ganhador do Nobel do Paz (1984) que ficou conhecido por sua luta contra o Apartheid e também por sua defesa complexa do perdão como forma de resolução dos conflitos entre vítimas e criminosos para a reconciliação em países que passaram por conflitos internos.

As Recomendações da CNV

Fonte: http://memoriasdaditadura.org.br/comissao-nacional-da-verdade-2/

República e Democracia no Brasil

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“Nem a democracia nem a República estão consolidadas”, diz Lilia Schwarcz

Thiago Araújo

Colaboração para o UOL, em São Paulo

15/11/201606h00

  • Ueslei Marcelino – 13.dez.2015/Reuters

    Manifestante carrega bandeira durante protesto pelo impeachment de Dilma

    Manifestante carrega bandeira durante protesto pelo impeachment de Dilma

A polarização social e política não é exclusividade deste ano de 2016 no Brasil. Há 127 anos, em um 15 de novembro, a divergência entre monarquistas e republicanos levou à adoção do regime republicano, em substituição à enfraquecida monarquia de Dom Pedro 2º. Tratou-se de um golpe, como alguns vários vividos na história da República brasileira.

Em um ano marcado por um novo impeachment, o balanço do regime republicano apresenta um resultado ruim e digno de preocupação, de acordo com a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz. Em entrevista ao UOL, a especialista avalia que “a República vai mal no Brasil”, sobretudo pela manutenção de preconceitos e pela “ingerência perversa” do privado sobre o público.

“Estamos vivendo um momento particular no qual nem a democracia, nem a República, estão consolidadas. Longe disso”, disse Lilia em entrevista por telefone dos Estados Unidos, onde ela atua como professora visitante na Universidade de Princeton.

Zanone Fraissat/Folhapress

A antropóloga Lilia Moritz Schwarcz avalia que “a República vai mal no Brasil”

Ela é cautelosa também ao analisar não só o passado republicano, mas também o presente que vê a “República de Curitiba” como defensora do combate à corrupção por meio da Operação Lava Jato.

“Devemos tomar muito cuidado. A Lava Jato tem cumprido um papel importante, mas cabe a nós vigiar também. Eu discordo quando se pensa que República é delegar. A gente não pode delegar a Curitiba esse poder.”

A seguir, os principais trechos da entrevista:

UOL – O regime republicano no Brasil está completando 127 anos. Qual é a avaliação que a senhora faz deste período no país?

Lilia Moritz Schwarcz – Eu penso que não estamos nada bem na República. Agora vivenciamos um problema muito sério com a relação do equilíbrio dos nossos Poderes, estou me referindo às nossas agências do Executivo, Legislativo e Judiciário, com o Executivo mais fragilizado, um Legislativo mais desmoralizado pela corrupção, o Judiciário tem assumido uma força muito grande.

O problema é o Judiciário achar que tem essa capacidade missionária e isso acontece, porque os outros Poderes estão enfraquecidos, o terceiro assume uma posição proeminente no triângulo, em vez de um equilíbrio no triângulo. Essa é uma face frágil da nossa República.

A corrupção é um grande inimigo da República. Ela abala as instituições da República. Nós estamos correndo ainda para a corrupção parecer endêmica, mas ela não é. A corrupção é uma construção social, econômica e política, não tem nada a ver com o nosso sangue. É preciso combater a corrupção de todas as maneiras, sem um partido prévio, nesse sentido que eu digo.

A nossa República ainda sofre com racismos, haja visto que estamos matando uma geração de jovens negros. Acabou de acontecer uma chacina agora (em São Paulo). A nossa República vai mal quando nós usamos de forças públicas com razões privadas, não é possível fazer isso. A nossa República sofre com sexismos muito fortes, a gente acabou de ver uma erupção dessa discussão dessa cultura do estupro que não é à toa. Não me refiro só às mulheres, mas me refiro ao que fazemos com a população LGBTs, que é uma população imensa e muito variada e essa sigla nem mesmo representa exatamente o que é.

Enfim, acho que a nossa República, passado muito anos, ainda sofre muito. Se a linguagem da República é a linguagem da “Res pública” (expressão latina para “coisa do povo”, que deu origem ao termo “república”), eu acho que nós temos a ingerência do privado no público de uma maneira muito perversa.

Podemos afirmar que o regime republicano está plenamente consolidado no Brasil?

Até pouco tempo, até no livro (“Brasil: Uma Biografia”) que escrevi com a Heloísa (Starling, historiadora) a gente dizia que é preciso escrever um outro capítulo agora. A gente dizia que a democracia estava consolidada e a República ia mal, porque as nossas instituições estavam fortes, as representações estavam fortes.

Como como eu disse, estamos vivendo um momento particular no qual nem a democracia, nem a República, estão consolidadas. Longe disso.

Hoje o termo dito republicano mais comum no país é o da “República de Curitiba”. Como a senhora interpreta esse entendimento dos princípios republicanos em associação com a Operação Lava Jato e o combate à corrupção?

Eu acho que isso tem a ver também com esse assoberbamento do Judiciário. Devemos tomar muito cuidado. A Lava Jato tem cumprido um papel importante, mas cabe a nós vigiar também. Eu discordo quando se pensa que República é delegar. A gente não pode delegar a Curitiba esse poder, com o perigo da Lava Jato, dos nossos representantes na Lava Jato, suporem que são mais republicanos do que os republicanos. Eles não são. Todos nós somos.

Quem delega perde o lugar e perde a República.

Vinicius Boreki/Colaboração para o UOL

“A gente não pode delegar a Curitiba esse poder”, diz antropóloga sobre Lava Jato

Golpe é uma palavra que esteve muito no dicionário político neste ano. A República nasceu no Brasil por meio de um golpe. O quão antirrepublicano é o aspecto golpista exposto pela história?

Acho que a nossa República nasce com um golpe e isso não quer dizer que você esteja dizendo que a República é melhor do que o Império ou o contrário. Foi um golpe dado por um setor do Exército aliado a um setor financeiro poderosíssimo, São Paulo, a gente não pode esquecer disso.

O PRP (Partido Republicano Paulista), que estava alijado do poder e que vê na oportunidade, no enfraquecimento da figura do imperador (Dom Pedro 2º), que ainda era muito forte mas que foi perdendo poder por conta do retardamento do final da escravidão, no crescimento da oposição e do abolicionismo, do republicanismo, vai ficando isolado no poder e toma um golpe mesmo.

Foi um golpe não popular, que demorou muito para se instalar, mas que construiu uma série de instituições representativas. A Primeira República foi o berço de uma série de instituições. Ela viveu um momento em que a luta política por direitos políticos e sociais estava na rua. Enfim, uma coisa é discutir o golpe e outra é discutir o que a Primeira República criou. Eu discordo do termo República Velha que foi o termo criado por Getúlio Vargas para se valorizar, e a Primeira República acabou vingando, produzindo uma comunidade que se imaginava politicamente e que lutava por direitos.

A senhora mencionou Getúlio Vargas, outro a alcançar a Presidência da República por meio de um golpe…

Novo golpe. Mas teve um golpe no Império também, não se pode esquecer isso. Foi o Golpe da Maioridade, como diz o nome, colocou o imperador-menino no poder (em 1840, aos 14 anos, Pedro 2º assume o trono com o apoio dos liberais para pôr fim aos nove anos do período regencial, marcado por muita instabilidade de diversas revoltas de Norte a Sul do Brasil).

Então não é privativa da República a linguagem do golpe.

Na sua opinião, o Brasil testemunhou um novo golpe em 2016?

Em primeiro momento não me pareceu, mas a votação do impeachment foi. Quer dizer, o processo de construção do impeachment não era exatamente um golpe porque a gente pode dizer que a Constituição não protege o ou a presidente, era algo que estava previsto lá, porém o ritual do impeachment e como ele se consolidou, e da maneira com que foi realizada, aí sim foi um golpe. A presidente não foi julgada na sua responsabilidade, esta foi a última coisa que estava sendo julgada.

Para deixar claro: a construção do processo está prevista na lei, essa não foi (golpe), mas o rito foi.

Não houve um embasamento, até hoje, que consolidasse a culpa da presidente. E veja no que está levando, como o governo Temer não consegue vingar. Há claramente um ‘gap’ (lacuna) na capacidade do Executivo em gerir o país.

Como a senhora avalia o novo governo? Pode ser qualificado como um defensor dos valores republicanos?

Penso que o presidente Temer venceu a partir da aliança e do jogo de negociação com certos setores e que agora ele tem que satisfazer e não tem como satisfazer. Nesse sentido que eu achei que a consolidação do impeachment foi a consolidação de um grupo que não estava muito preocupado com os interesses da República, da ‘Res pública‘. Foi, de novo, um circo familiar, do privado, dos interesses do intimismo e não dos públicos.

Mas esse aspecto clientelista não é uma exclusividade da República, correto? Isso já era uma característica comum do Império…

Sou uma estudiosa do Sérgio Buarque de Hollanda, não que seja exatamente a mesma coisa porque ele mostrava que havia movimento, mas o que estamos experimentando no Brasil é um circuito do “familismo”, dos interesses do privado, do inflacionamento do privado e com todos os riscos que isso pode vir a acarretar. E dessa falsa palavra de ordem que o problema é não gerir o Estado como uma empresa. O Estado não é uma empresa. Como se essa mentalidade empresarial fosse sinônimo de apartidarismo ou uma outra coisa que não fosse uma gestão dos políticos, dos partidos, que é uma outra face do ‘Sem Escola’ (Escola sem Partido). Sem como? Sem está cheio. Sem é nada. Está cheio é de outra coisa.

Apenas um terço dos políticos eleitos presidentes do Brasil de maneira democrática terminaram o mandato. Seria essa uma fragilidade republicana?

É muito do Brasil. Isso só mostra mais uma fragilidade da nossa República, porque mostra a impossibilidade do Executivo terminar o seu mandato. Isso é claro. É preciso que exista esse tipo de recurso (impeachment) na nossa Constituição, mas é preciso também que se proteja um pouco, pouco e não demais, de alguma maneira consolidar o nosso Executivo porque isso gera uma fragilidade republicana tremenda, uma insegurança e reforça os interesses pessoais.

Em meio à discussão do impeachment se retomou a ideia de uma República parlamentarista no Brasil. Até mesmo defensores de um retorno da monarquia apareceram durante as manifestações pelo impeachment. Seriam essas boas saídas para a República brasileira?

Acho que é o escapismo. É a hora de reforçar as nossas instituições sabe, fazer valer as instituições. Há um tempo atrás, houve um plebiscito (em 1993) em que a monarquia teve 16% dos votos [na verdade foram 10,25%, segundo dados do TSE]. Isso é uma ‘Monarquia imaginária’ e esse é um ‘Parlamentarismo imaginário’ porque daria força aos nossos congressistas e eles são sempre os mesmos. E mostraram o que são no rito de votação do impeachment. Nós vimos bem o que são e, por outro lado, somos nós mesmos. Por isso é preciso reforçar as nossas instituições mais do que ficar imaginando projetos.

Arrisca alguma previsão para o futuro da República Federativa do Brasil?

Nenhuma. Historiador é ruim de previsão para burro. Como dizia o Conselheiros Aires (personagem de Machado de Assis em “Esaú e Jacó” e “Memorial de Aires”), as coisas só são previsíveis quando já aconteceram.

Fonte: http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2016/11/15/a-republica-vai-mal-no-brasil-diz-antropologa-lilia-schwarcz.htm

Mulheres e o voto

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ILUSTRAÇÕES ANTI-SUFRAGISTAS MOSTRAM COMO AS MULHERES SÃO “PERIGOSAS”

Estes cartões vintage dos anos 1900 foram usados como propaganda para combater mulheres sufragistas que lutavam por mais direitos. São inacreditáveis.

 

Esses inacreditáveis cartõesvintage dos anos 1900 foram usados como propaganda para combater mulheres que lutavam por mais direitos. Embora assufragistas incansavelmente fizessem campanha para mudar ostatus quo, muitos homens acharam a ideia do voto feminino não só desagradável, mas até mesmo perigosa.

Por essa razão, cartões-postais como os abaixo foram produzidos. Eles vêm do arquivo de Catherine H. Palczewski, professora de estudos sobre mulheres e gênero na Universidade do Norte de Iowa, que está os coletando há 15 anos. Os cartões-postais retratam a ideia de que o feminismo era algo a ser temido, por representar um ataque aos valores da família e uma ofensa ao lugar do homem na sociedade.

Embora tenhamos ainda um longo caminho a percorrer até que as mulheres recebam, na prática, os mesmos direitos que os homens, esses cartões-postais servem como um lembrete da longa estrada que já trilhamos até chegar aqui.

Ilustrações anti-sufragistas mostram como as mulheres são "perigosas" 1
“Origem e desenvolvimento de uma sufragista.”

Ilustrações anti-sufragistas mostram como as mulheres são "perigosas" 2
“Quem falou divórcio!”
Ilustrações anti-sufragistas mostram como as mulheres são "perigosas" 3
“Finalmente paz.”
Ilustrações anti-sufragistas mostram como as mulheres são "perigosas" 4
“Dia de eleições!”
Ilustrações anti-sufragistas mostram como as mulheres são "perigosas" 5
“A MULHER MASCULINA: Ela é uma máscula de sapatos com seu chapéu, casaco, colares, camisa social e gravata. Ela usaria calças na rua para fazê-la completa, mas ela sabe que a lei não vai suportar isso.”
Ilustrações anti-sufragistas mostram como as mulheres são "perigosas" 6
“Não se preocupem, o pior ainda está por vir.”
Ilustrações anti-sufragistas mostram como as mulheres são "perigosas" 7
“Minha esposa entrou no movimento das Sufragistas (e eu sofro desde então).”
Ilustrações anti-sufragistas mostram como as mulheres são "perigosas" 8
“A vida é apenas uma merda atrás da outra.”
Ilustrações anti-sufragistas mostram como as mulheres são "perigosas" 9
“Lugar de mulher é em casa.”
Ilustrações anti-sufragistas mostram como as mulheres são "perigosas" 10
“Isso não é trabalho de homem.”
Ilustrações anti-sufragistas mostram como as mulheres são "perigosas" 11
“O que eu faria com as Sufragistas.”
Ilustrações anti-sufragistas mostram como as mulheres são "perigosas" 12
“Eu quero votar, mas minha esposa não deixa.”

Ilustrações anti-sufragistas mostram como as mulheres são "perigosas" 13

Ilustrações anti-sufragistas mostram como as mulheres são "perigosas" 14
“Mulheres pegaram o jeito agora.”
Ilustrações anti-sufragistas mostram como as mulheres são "perigosas" 15
“Eu não fiz nada, mas eu não vou fazer isso de novo.”
Ilustrações anti-sufragistas mostram como as mulheres são "perigosas" 16
“Sufragistas atacando um policial.”

Ilustrações anti-sufragistas mostram como as mulheres são "perigosas" 17

Ilustrações anti-sufragistas mostram como as mulheres são "perigosas" 18
“Enigma – Encontre quem manda na casa.”
Ilustrações anti-sufragistas mostram como as mulheres são "perigosas" 19
“Ninguém me ama – Acho que vou ser uma Sufragista.”

Ilustrações anti-sufragistas mostram como as mulheres são "perigosas" 20
“Sufragistas – aquelas que nunca foram beijadas.”

Fonte: http://ano-zero.com/ilustracoes-anti-sufragistas/

Ditadura Militar e Igreja Católica

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Memórias da Ditadura

DOM PAULO EVARISTO ARNS

No Brasil, sua atuação pastoral foi voltada aos habitantes da periferia, aos trabalhadores, à formação de comunidades eclesiais de base (CEB) nos bairros, principalmente os mais pobres, e à defesa e promoção dos direitos da pessoa humana. Ordenado sacerdote em 1945, foi estudar na Sorbonne, em Paris. Formou-se em estudos brasileiros, latinos, gregos e literatura antiga. Foi bispo e arcebispo de São Paulo entre os anos 1960 e 1970. Destacou-se por sua luta política contra as torturas praticadas pela ditadura, para que documentos não fossem eliminados, e também a favor do voto, no movimento Diretas Já.

Sua atuação contra a repressão da ditadura ganhou destaque já em 1969, quando passou a defender seminaristas dominicanos presos por ajudarem militantes opositores. Três anos depois, como presidente da Regional Sul-1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), após um encontro com todos os bispos do estado de São Paulo em Brodósqui, liderou a publicação de “Testemunho de paz”, documento com fortes críticas ao regime que ganhou ampla repercussão.

Em março de 1973, presidiu a “Celebração da Esperança”, em memória de Alexandre Vannucchi Leme, estudante universitário morto pela ditadura. No ano seguinte, acompanhado de familiares de presos políticos, apresentou ao general Golbery do Couto e Silva um dossiê sobre os casos de 22 desaparecidos. Em outubro de 1975, celebrou na Catedral da Sé o histórico culto ecumênico em honra de Vladimir Herzog, jornalista morto pelo regime. Em 1978, apoiou o Movimento contra o Custo de Vida, que protestava contra a carestia.

Entre 1979 e 1985, coordenou com o pastor Jaime Wright, de forma clandestina, o Projeto Brasil: Nunca Mais. O trabalho foi realizado em sigilo e o resultado foi a cópia de mais de um milhão de páginas de processos do Superior Tribunal Militar (STM). Entre outros episódios de sua trajetória, destacam-se sua atuação contra a invasão da PUC comandada pelo então secretário de Segurança, coronel Erasmo Dias, em 1977; e o planejamento da operação para entregar ao presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, uma lista com os nomes de desaparecidos políticos.

Em 1972, criou a Comissão Justiça e Paz de São Paulo. Incentivou a Pastoral da Moradia e a Pastoral Operária. Em 1985, o cardeal criou a Pastoral da Infância, com o apoio da irmã Zilda Arns, que morreu no terremoto de 2010 no Haiti, onde realizava trabalhos humanitários.

Como reconhecimento por sua obra humanitária, Dom Paulo recebeu vários prêmios no Brasil e no exterior, como o Prêmio Nansen do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), o Prêmio Niwano da Paz (Japão), e o Prêmio Internacional Letelier-Moffitt de Direitos Humanos (EUA). Em outubro de 2012, o jornalista Ricardo Carvalho lançou a biografia “O cardeal da resistência – As muitas vidas de dom Paulo Evaristo Arns”.

DOM PAULO EVARISTO ARNS: CORAGEM E FÉ

HOMENAGEM A DOM PAULO, REALIZADA NO ENCERRAMENTO DA CELEBRAÇÃO DOS 65 ANOS DE ORDENAÇÃO SACERDOTAL DO ARCEBISPO EMÉRITO DE SÃO PAULO.

DOM PAULO ARNS – LANÇAMENTO DO LIVRO “BRASIL NUNCA MAIS” – NATAL (RN)

LINKS

FRASES

  • “É da maior gravidade a prisão de pessoas que estão lutando por uma definição partidária ou pela criação de bases partidárias, pois trata-se de uma luta dentro da legalidade. Essas pessoas estão sendo mantidas incomunicáveis, sem direito à assistência de advogados ou sem ter sequer direito de informar à família sobre a situação dos mesmos. Nunca aceitaremos esse fato, nem como brasileiros, nem como membros da igreja”, disse o cardeal, em 11 de julho de 1975.
  • “Dom Paulo, certamente, falou com autoridades do Brasil para que eu fosse liberado. Mas não sei as gestões exatas que ele fez. O que sei é que ele não perdeu tempo em organizar uma manifestação na porta da delegacia para me salvar. E me salvou”, Adolfo Perez Esquivel.

Fonte: http://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-resistencia/dom-paulo-evaristo-arns/