Negros, vítimas esquecidas do nazismo

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As pessoas de cor também estiveram na mira de Hitler, mas poucos historiadores cuidam do tema, apresentado agora pela primeira vez numa exposição no Centro de Documentação do Nazismo, em Colônia.

Um cisco nos olhos arianos de Hitler e seus homens

Início dos anos 30 na Alemanha. Os rádios transistorizados tocam jazz. Josephine Baker dança suas criações, que se tornariam lendárias. Nos salões de baile na capital alemã, as pessoas dançam entusiasmadas o ritmo da moda. Música negra é chique, moderna, na República de Weimar. Composta por Ernst Krenek, a ópera Jonny spielt auf, sobre um músico negro de jazz, torna-se um sucesso em 1927.

Josephine Baker, 1936

Mas a vida de quem tem pele de cor na Alemanha passa a ser cada vez mais perseguida pela sombra do nazismo e suas idéias desvairadas sobre o “puro” povo alemão. Ao lado dos judeus e dos políticos oposicionistas, os negros eram um cisco no olho ariano de Hitler e seus homens. E assim o destino de todos eles foi sacramentado pela Lei das Raças, de 1933.Esta parte da história alemã está apresentada agora na primeira exposição do mundo sobre o tema. “Identificação especial: preto – Negros no Estado Nazista” (Besonderes Kennzeichen: Neger – Schwarze im NS-Staat) reúne pôsteres, panfletos, filmes, áudios e fotos e está à disposição do público num local mais do que autêntico: o Centro de Documentação do Nazismo em Colônia. O velho prédio pertenceu à Gestapo, a polícia secreta de Hitler, que ali interrogava e torturava suas vítimas.

Soldados franceses no campo de prisioneiros de guerra de Luckenwalde

Passado desprezado – Até hoje a história do negros que viviam na Alemanha antes da subida ao poder dos nazistas permanece desconhecida do grande público. Naquela época, não era apenas através da cultura que os negros se sobressaíam, mas também com sua presença nas ruas: imigrantes do Caribe, africanos, norte-americanos negros que haviam fugido da crise econômica nos EUA para a Alemanha, diplomatas, imigrantes das colônias e marinheiros. Idealizador da exposição, Peter Martin, da Fundação de Incentivo à Cultura e Ciência, de Hamburgo, estima em 10 mil o número de pessoas de cor residentes na Alemanha naquela época.

“Perigosa peste”, segundo a propaganda nazista

Eram negras e negros que haviam construído suas vidas na Alemanha, se casado com alemães e alemãs e com eles gerado filhos – os chamados Rheinlandbastarde (bastardos da Renânia). Muitos deles foram mais tarde esterilizados à força pelos nazistas. A máquina de propaganda nazista atacava as pessoas de cor. Eram rotuladas como uma perigosa peste. E assim elas sumiram da vida pública. O que restou foi uma montanha de papéis da burocracia. As pessoas simplesmente desapareceram, segundo Martin, que há anos dedica-se à história da minoria negra na Europa.

Negro ataca uma mulher em cartaz de propaganda

Destino ignorado – O denuncismo, sobretudo através da imprensa, estava na ordem do dia. Cartazes apresentavam os negros como um perigo para as mulheres alemães. O que aconteceu com a maioria deles, de 1933 a 1945, é difícil de saber. Muitos conseguiram deixar o país a tempo. Outros foram enviados para os campos de concentração. Não poucos serviram de cobaias para pesquisas dos nazistas.

Campo de concentração de Dachau, 1945

Talvez tenham sido centenas, possivelmente milhares os que morreram. Em apenas 15 a 20 casos os historiadores encontraram provas de assassinato por nazistas, ressalta Martin, que conseguiu montar a atual mostra graças a donativos financeiros de Jan Philipp Reemtsma, realizador da polêmica exposição Crimes da Wehrmacht.

Fonte:

Sobre NAZISMO.

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As publicações a seguir foram retiradas/selecionadas da fonte citada abaixo e não obedecem, necessariamente, a uma ordem cronológica dos acontecimentos.

Para ler/ver todas as publicações originais, acesse 

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As perseguições aos Judeus – o Antissemitismo:

15 de dezembro de 2015

Caros amigos, sobre a publicação de hoje acerca do massacre de judeus em Liepāja, gostaria de esclarecer alguns pontos.

É importante destacar um detalhe muito importante aqui: os judeus sempre foram perseguidos na Europa.

Essa perseguição começou logo após o estabelecimento do cristianismo como a religião oficial do Império Romano, no século IV. Com a elite romana da época convertendo-se ao cristianismo, os judeus começaram a ser vistos como os culpados pela morte de Cristo, afinal, foram eles que entregaram Cristo às autoridades romanas (os romanos, pelo seu lado, limitaram-se a “lavar as mãos”, como supostamente disse o procurador romano da Judéia na ocasião, Pôncio Pilatos).

Portanto, podemos recuar até o século IV e V da nossa era para encontrarmos o verdadeiro início da perseguição aos judeus no continente europeu.

Durante os séculos seguintes eles eram constantemente expulsos e empurrados de um lado para o outro. A última grande expulsão ocorreu na Península Ibérica (Portugal e Espanha), uma região na qual eles viviam desde o século VI. Por volta do ano de 1497, pouco antes do “descobrimento” do Brasil, o rei Dom Manuel I expulsou os cerca de 20 mil judeus que não se converteram ao cristianismo. Nesse processo muitos foram mortos, presos e torturados.

No entanto, nos séculos seguintes, principalmente após o Renascimento, os judeus experimentaram um longo período de paz e prosperidade na Europa. Continuavam a não ser bem vistos, mas viviam em paz em diversos países.

Tudo correu relativamente bem até o final da Primeira Guerra Mundial, quando começaram a surgir movimentos extremistas numa Alemanha devastada e empobrecida pela guerra. Alguns políticos extremistas, aproveitando-se do desespero do povo, ergueram as suas vozes, acusando os judeus de terem sido os responsáveis pela derrota e por toda a humilhação do povo alemão.

Hitler destacou-se nessa tarefa, conseguindo reacender todo o ódio adormecido contra os judeus. Em 1933, ano da ascenção do nazismo na Alemanha, viviam no país mais de 500 mil judeus, a grande maioria deles cidadãos alemães há várias gerações. Em países como a Polônia, ali mesmo ao lado, viviam mais de 3 milhões de judeus, há séculos estabelecidos naquelas terras.

Foi com a ascenção do terror nazista que surgiu algo nunca antes visto na história da humanidade: a industrialização da morte. Todo aquele ódio contra os judeus elevado à uma escala industrial.

Os judeus já não eram simplesmente expulsos ou obrigados a se converter, eram simplesmente mortos. Porquê? O que levou os alemães a dedicaram-se com tanto esforço no extermínio de homens, mulheres, crianças e velhos que nem sequer lutavam contra eles na guerra?

Os nazistas pegaram num sentimento adormecido (o ódio aos judeus), despertaram-no e deram-lhe uma nova roupagem. Os judeus já não eram acusados de terem sido os responsáveis pela morte de Jesus Cristo (isto não interessava aos nazistas), eram agora os responsáveis pela derrota alemã na Primeira Guerra Mundial (ignorando completamente o fato de que mais de 100 mil judeus combateram pela Alemanha na guerra) e por toda a humilhação que se seguiu.

Nessa aspecto a propaganda de massa, encabeçada por Himmler, ajudou a disseminar uma mentira que acabou por “anestesiar” o povo alemão que passou a “ignorar conscientemente” o que se passava com os judeus.

O mesmo aconteceu em outros países ocupados pela Alemanha durante a guerra, pois já repararam pelas minhas publicações que muitas ações de extermínio contavam com a ajuda de elementos policiais locais.

Nesta fotografia, qual foi o crime cometido por aquela criança, por aquela senhora idosa ou por aquela mulher para serem tratados dessa forma?

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As perseguições aos Ciganos:

8 de Dezembro de 1938

Neste dia Heinrich Himmler promulgava o decreto “Combatendo a Praga Cigana”.

Nesse decreto Himmler definiu os ciganos como pertencentes à uma “raça inferior” e autorizou a Gestapo a criar uma base de dados nacional, identificando todos os ciganos residindo na Alemanha.

Robert Ritter, chefe do “Instituto para a Higiene Racial”, foi nomeado como a autoridade responsável por determinar os traços genéticos da “raça cigana”.

Nesta fotografia vemos uma página de propaganda nazista intitulada “Novas formas de combater a praga cigana”.

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Fechamento das escolas judaicas:

30 de Junho de 1942

Neste dia as últimas escolas judaicas em funcionamento na Alemanha eram obrigadas a fechar.

Foi uma das últimas medidas de “perseguição legal” contra os judeus já que a partir deste dia eles deixariam de ter qualquer tipo de “definição legal”, ou seja, para o governo alemão um judeu deixava de existir enquanto ser humano, passando a representar apenas uma… “coisa”.

Como os judeus alemães deixavam de ter qualquer tipo de “representatividade legal”, podiam ser mortos, torturados, espancados e roubados por outros cidadãos alemães, sem que isso caracterizasse um crime.

A destruição desses últimos “laços legais” abriria caminho para a expansão da chamada “solução final para o problema judeu”, que envolvia a deportação em massa para campos de concentração e extermínio.

Em 1933, ano em que Adolf Hitler subiu ao poder, viviam na Alemanha cerca de 600 mil judeus. Nos 6 anos seguintes mais de 50% deles fugiriam para o estrangeiro, restando apenas 300 mil em solo alemão.

No final da guerra restavam apenas 20 mil judeus vivos no país.

 

 

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Nazismo e perseguições aos “indesejáveis”:

7 de Dezembro de 1941

Neste dia Adolf Hitler promulgava o infame decreto “Nacht und Nebel” (Noite e Nevoeiro).

Esse decreto representava um autêntico “cheque em branco” para a Gestapo, a polícia secreta nazista, dando-lhe embasamento legal para fazer “desaparecer” pessoas suspeitas de representarem algum perigo para a segurança da Alemanha.

Sob a proteção dessa lei a Gestapo “desapareceu” com milhares de ativistas políticos, intelectuais, líderes comunitários e membros do clero.

Os alemães tinham até um termo para se referir às pessoas que desapareciam sob a proteção desse decreto: “transformados em névoa”.

Até hoje não se sabe exatamente quantas pessoas foram assassinadas com base na “Nacht und Nebel”, mas estima-se que tenham sido alguns milhares.

Nesta fotografia podemos ver uma placa em memória das vítimas francesas da “Nacht und Nebel”.

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Nazismo e os Negros:

E a pergunta do dia é…

“Gostaria de saber qual era o tratamento dado aos negros na AlemanhaNazista pois não me lembro de relatos ou imagens de negros em campos de concentração ou algo do gênero.”

Pergunta enviada pelo nosso amigo Rafael Araujo Ponce de Leon.

Rafael, nos anos 30 a população negra na Alemanha era muito pequena, mas mesmo assim estavam sujeitos às “Leis Raciais de Nuremberg” através de um decreto suplementar.

Após a Primeira Guerra Mundial a França ocupou militarmente a região alemã da Renânia. Durante a ocupação os franceses utilizaram soldados negros das suas colônias africanas e, como é óbvio, ocorreram casos de encontros entre eles e a população feminina local. Desses encontros nasceriam crianças que não eram muito bem vistas na Alemanha.

Eram os chamados “bastardos da Renânia”.

Como o próprio Adolf Hitler escreveu no seu livro Mein Kampf, em 1925:

“Essas crianças contaminam a raça branca com ‘sangue negro’ no Reno, em pleno coração da Europa.”

Escreveu também no seu livro:

“Os judeus são os responsáveis por trazerem negros para a Renânia com o claro propósito de contaminar a raça branca, que eles tanto odeiam, através da destruição do seu nível cultural e político para que possam ser mais facilmente dominados.”

Portanto, Hitler não via os negros com bons olhos.

Seriam discriminados e marginalizados na Alemanha, no entanto, com o início da guerra e com os alemães desesperados por soldados aptos para o combate, alguns negros lutariam pela Wehrmacht, como foi o caso da Legião Árabe Livre, com 20 mil soldados que combateram o desembarque aliado na África do Norte durante a Operação Tocha, em Novembro de 1942.

Os soldados negros capturados pelos alemães eram especialmente mal tratados. Por exemplo, mais da metade de todos os soldados franceses negros que foram capturados durante a Batalha da França, quase todos provenientes da Argélia, foram mortos durante o cativeiro.

Portanto, ao mesmo tempo em que os negros eram muito mal vistos na Alemanha, eram tolerados na medida em que o exército estava desesperado por braços e pernas aptos para o combate. Não foram vítimas de uma perseguição tão feroz como os judeus e ciganos, no entanto, não tiveram uma vida nada fácil durante o domínio do regimeNazista na Alemanha.

Nesta fotografia vemos um soldado negro da Legião Árabe Livre na Grécia, em Setembro de 1943.

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O Nazismo e a Juventude:

1 de Dezembro de 1936

Neste dia Adolf Hitler promulgava uma lei tornando obrigatória a adesão à Juventude Hitlerista a todos os jovens alemães entre os 14 e os 18 anos.

Para as garotas o equivalente era a Liga das Garotas Alemãs e para as crianças abaixo dos 14 anos era o Deutsches Jungvolk (Jovens Alemães).

A partir de 1933, ano de início da ditatura nazista na Alemanha, a Juventude Hitlerista foi a única organização juvenil autorizada a existir no país.

O objetivo dessa organização era doutrinar os jovens alemães nos valores nazistas, a saber: crença na superioridade da raça alemã, racismo e desprezo por tudo o que não fosse genuinamente alemão.

Tinha também aspectos paramilitares importantes, ajudando a formar toda uma nova geração de soldados e jovens oficiais, principalmente para as SS.

Após o escotismo ter sido banido da Alemanha, muitas das práticas normalmente realizadas pelos escoteiros foram adaptadas na Juventude Hitlerista, mas sempre com uma inclinação militar como, por exemplo, corridas táticas em circuitos em campo aberto com o objetivo de conquistar a posição adversária, treino com armas, luta corpo-a-corpo, etc.

Nos últimos meses da guerra era comum encontrar nas Volkssturm crianças de 12 anos, membros da Juventude Hitlerista, que eram lançados para a frente de combate, frequentemente apenas com um Panzerfaust nas mãos e muito pouco treinamento militar.

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Nazismo e Teatro:

15 de Maio de 1934

Neste dia Joseph Goebbels, o Ministro da Propaganda da Alemanha nazista, anunciava a “Lei Unificada dos Teatros”.

Através dessa lei o governo aumentava o seu controle sobre os teatros privados alemães, que nessa época correspondiam a cerca de 20% do total de teatros no país.

Passariam a ser aplicadas novas políticas artísticas e raciais, começando pelo banimento de atores, diretores e produtores judeus.

Graças à essa lei o governo nazista passaria a ser capaz de indicar os diretores artísticos das companhias de teatro, bem como censurar peças que considerasse “pouco adequadas para a vida cultural da nova sociedade nacional-socialista alemã”.

Foto de Hoje na Segunda Guerra Mundial.

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Nazismo e o Trabalho Escravo/Forçado:

20 de Junho de 1940

Neste dia, poucos dias após a vitória alemã na Bélgica e na Holanda, civis desses países começavam a ser recrutados como trabalhadores escravos / forçados para a indústria de guerra alemã.

Nos meses finais de 1940 seriam utilizados principalmente na reconstrução das infra-estruturas destruídas durante a guerra, como estradas, portos e ferrovias, mas a partir de 1941 seriam empregados na indústria militar alemã.

No total, entre belgas e holandeses, mais de 750 mil civis seriam enviados para campos de trabalhos forçados na Europa ocupada pelos alemães.

Grande parte da economia de guerra alemã baseou-se no trabalho escravo / forçado. De acordo com documentos da época, os alemães utilizaram cerca de 6,5 milhões de escravos entre 1939 e 1945, a maioria dos quais soviéticos (2,1 milhões), seguidos por poloneses (1,4 milhão) e franceses (1,1 milhão).

Alguns desses trabalhadores, principalmente os mais talentosos numa profissão importante para a guerra como, por exemplo, metalúrgico, podiam até mesmo receber um pequeno salário, mas em geral os trabalhadores recebiam apenas alimentação e pouca coisa mais.

"Trabalhadores escravos numa fábrica de u-boats em Bremen, na Alemanha."

""O trabalho liberta", frase normalmente colocada nos portões de acesso dos campos de concentração e de trabalhos forçados alemães."

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Hitler, Hindemburg e as SA:

21 de Junho de 1934

Neste dia o Chanceler Adolf Hitler reunia-se de forma tensa com o Presidente alemão Paul von Hindenburg, com o Vice-Chanceler Franz von Papen e com o Ministro da Guerra Werner von Blomberg.

Nessa reunião Hitler, que ainda não era o “führer” pois era obrigado a partilhar o poder com Hindenburg e von Papen, foi duramente confrontado devido aos excessos cometidos nos últimos meses por Ernst Röhm.

Röhm era o líder das SA (Sturmabteilung, “Departamento de Choque”), o braço paramilitar do partido nazista que desempenhou um papel central na subida de Hitler ao poder nos anos 20 e 30.

A SA tinha sido inicialmente criada para proteger os líderes nazistas e manter a ordem durante os grandes comícios de Hitler, mas também eram amplamente utilizados para espalhar o terror entre os opositores políticos, principalmente entre os comunistas.

Em 1933 e 1934 a SA tinha milhões de homens nas suas fileiras e era, para todos os fins práticos, muito mais forte e bem mais presente do que a própria polícia e o exército, e Röhm, talvez desejoso por ter mais poder ou atrair mais atenção e protagonismo para a sua organização, começou a fazer discursos cada vez mais exaltados.

Röhm sonhava em ver a sua SA assumindo as funções do exército alemão, e fazia questão de dizer isso publicamente nos seus discursos. Essa pretensão “assustava” os militares alemães que começaram a exigir que Hitler fizesse algo para apaziguar Röhm.

E neste dia, na tensa reunião entre Hitler, Hindenburg, von Papen e von Blomberg, foi entregue a Hitler um ultimato:

Ou o “problema” das SA ficava resolvido ou o Presidente Hindenburg declararia a “Lei Marcial” e entregaria o governo do país ao Exército, o que resultaria na expulsão de Hitler do poder.

Como é óbvio, Hitler não poderia aceitar tal situação e nesse mesmo dia começaria a traçar planos para uma grande purga nas SA que começaria pelo próprio Röhm.

Essa purga ficaria conhecida como “a noite das facas longas” e decorreria entre os dias 30 de Junho e 2 de Julho, resultando na prisão e execução de muitos líderes das SA, incluíndo Röhm.

Nessa fotografia de 1933 podemos ver Hitler ao lado de Röhm.

Foto de Hoje na Segunda Guerra Mundial.

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Mussolini e sua trajetória na juventude:

9 de Junho de 1903

Neste dia Benito Mussolini, então com 19 anos, era preso pela polícia suíça, que daria início ao seu processo de extradição de volta para a Itália.

Em 1902, com o objetivo de fugir ao recrutamento obrigatório na Itália, Mussolini exilou-se na Suíça, onde teve contato pela primeira vez com livros, ativistas, pensadores, filósofos e ativistas políticos.

Foi durante esse auto-exílio na Suíça que cresceu em Mussolini a sua afeição pelos movimentos socialistas, identificando-se muito com o discurso do sindicalista Georges Sorel, que defendia o fim das “democracias liberais” e do capitalismo através do uso da violência e das greves.

Começaria a trabalhar em conjunto com movimentos socialistas italianos na Suíça, dedicando-se ao jornal L’Avvenire del Lavoratore, organizando encontros, eventos e passeatas.

Mas neste dia, 19 de Junho de 1903, acusado de promover badernas e liderar gangs de arruaceiros nas ruas para propagar as suas idéias socialistas, Mussolini era preso em Berna e seria mais tarde expulso para a Itália, de onde voltaria alguns meses depois.

Fotografia de Mussolini tirada neste dia, 19 de Junho de 1903, pela polícia de Berna.

Foto de Hoje na Segunda Guerra Mundial.

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Alfred Rosenberg – um dos ideólogos do Nazismo:

19 de Maio de 1945

Neste dia Alfred Rosenberg era capturado pelos aliados.

Rosenberg era considerado o principal “pensador” nazista, tendo sido de sua autoria os principais dogmas da ideologia nacional-socialista, com destaque para a teoria racial, a perseguição aos judeus, o “Lebensraum” e a luta contra formas de expressão artísticas consideradas “degeneradas”.

Foi apresentado à Adolf Hitler em 1920, com ambos identificando-se mutuamente numa série de idéias e princípios que seriam fundamentais para o partido nazista nos anos seguintes, principalmente o anti-semitismo e a luta contra o comunismo.

Nos anos 20 dedicou-se a escrever artigos e ensaios que defendiam a sua teoria racial na qual os “arianos” eram superiores a todos os outros povos e que, por isso, mereciam um lugar de destaque na estrutura geopolítica do mundo.

Essa teoria racial conduziria Rosenberg a defender o Lebensraum, um conceito anterior ao partido nazista e que pregava a expansão agressiva alemã em direção ao leste europeu.

Rosenberg defendia também um novo tipo de religião baseada no “sangue”. Era contra o cristianismo devido à sua “universialidade” e ao conceito de “pecado original”, já que ele defendia que os alemães, à exceção de todos os outros povos, já nasciam “nobres e puros”.

Após o início da guerra intensificaria ainda mais o seu discuros anti-semita, defendendo medidas de extermínio para os judeus que os exércitos alemães encontraram na Europa.

Em 1941 assumiria o Ministério do Reich para os Territórios Ocupados do Leste. No discurso durante a cerimônia para assumir o cargo, disse:

“Milhões de judeus ainda vivem no leste e essa é uma questão que só será resolvida através do extermínio biológico de todos os judeus europeus. A ‘Questão Judia’ só será resolvida pela Alemanha quando todos os judeus forem expulsos da Alemanha e, para a Europa, quando todos os judeus forem empurrados para lá dos Montes Urais. Para esse fim somos obrigados a empurrá-los para lá dos Montes Urais ou, caso contrário, erradicá-los na Europa.”

Após a guerra seria julgado no Tribunal de Nuremberg, recebendo a pena de morte na forca. Seria executado no dia 16 de Outubro de 1946.

O seu corpo, bem como o corpo de outros altos dignatários nazistas como, por exemplo, Hermann Göring, foi cremado e as cinzas lançadas no rio Isar.

"Alfred Rosenberg em 1941, como Ministro do Reich para os Territórios Ocupados no Leste."

"Alfred Rosenberg após a execução da sua sentença."

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Goebbels e a “limpeza étnica”:

19 de Maio de 1943

Neste dia Joseph Goebbels, o Ministro da Propaganda da Alemanhanazista, fazia um breve anúncio na rádio.

Nesse anúncio Goebbels destacou que nos últimos 60 dias a Gestapo, agentes policiais e membros das SS dedicaram-se à “limpeza étnica” de Berlim e que, por isso, neste dia a capital alemã ganhava o estatuto de “Judenfrei” (livre de judeus).

O estatuto de “Judenfrei” foi dado pelos alemães a algumas cidades e regiões da Europa, com destaque para o Luxemburgo, em Outubro de 1941, para a Estônia, em Dezembro de 1941 e para Viena, em Outubro de 1942.

No entanto, apesar do anúncio, sabe-se hoje que pelo menos 3 mil judeus permaneciam escondidos em Berlim, na sua maioria protegidos por famílias alemãs em casas, apartamentos ou nos subúrbios da capital.

"Joseph Goebbels em 1943."

"Documento alemão criado pelos oficiais do Einsatzgruppe A (grupo de extermínio), com o número de judeus mortos nos locais onde atuou. Detalhe importante: no total operavam 7 Einsatzgruppen na Europa e esse mapa mostra as execuções levadas à cabo apenas pelo "A"."

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Nazismo x Negros:

“Os negros no 3º Reich”

Muito se especula sobre a população negra alemã durante o 3º Reich. Eram perseguidos? Eram discriminados? Havia segregação como havia em outros países como, por exemplo, nos EUA?

Quando Hitler subiu ao poder, em 1933, a população alemã era de 65 milhões, dos quais 20 mil eram negros, ou o equivalente à 0,03% da população.

Essa população negra era composta, na sua grande maioria, por descendentes de alemães que se casaram com nativos das antigas colônias alemãs na África, antes da Primeira Guerra Mundial.

Com o fim da Primeira Guerra e com a dissolução das colônias alemãs, muitos alemães retornaram à casa e levaram com eles as suas novas famílias.

Essa era, portanto, a base da população negra alemã em 1933. Contra eles Hitler não pôde fazer nada pois pertenciam à famílias alemãs de ex-colonos africanos.

No entanto, em 1935 os nazistas aprovariam as “Leis de Nuremberg”, uma lei que inicialmente tinha por objetivo proibir o casamento / relações sexuais entre alemães “puros” e judeus, mas que no dia 26 de Novembro seria estendida a ciganos e afro-alemães.

Ou seja, em 1935 a política oficial do governo alemão nazista era:

“Os negros não serão perseguidos como os judeus, mas estão proibidos por lei de se relacionarem sexualmente com alemães ‘puros’, sob pena de multa ou prisão.”

Se quisessem se casar, os papéis deviam ser previamente aprovados pelo governo alemão, cujo objetivo era impedir que se casassem com “arianos puros”.

Isso valia também para os descendentes dos ex-colonos alemães referidos no início da publicação.

Mas havia também um outro grupo de negros alemães que eram os filhos dos soldados argelinos que estavam estacionados na Renânia, como parte dos acordos do Tratado de Versalhes assinado após o fim da 1ª Guerra Mundial.

Alguns desses soldados, na sua maioria negros, envolveram-se com mulheres alemãs locais e o resultado foi, de acordo com a denominação oficial dada pelo governo alemão da época, o nascimento dos chamados “Bastardos da Renânia”, crianças que na classificação nazista vigente na época eram “geneticamente inaceitáveis”.

Os “Bastardos da Renânia” seriam registrados pelo governo nazista e em 1937 o Dr Eugen Fischer iniciaria um amplo processo de esterilização. No total, mais de 400 crianças negras pertencentes ao grupo pejorativamente chamado pelos nazistas de os “Bastardos da Renânia” seriam sumariamente esterilizadas para evitar misturas entre “raças”, conforme estipulado nas “Leis de Nuremberg” de 1935.

Hitler os descreveria no seu livro Mein Kampf como:

“Crianças infetando com o seu sangue negro o coração da Europa.”

Sobre os soldados negros estacionados na Renânia, Hitler diria no Capítulo XI, Volume I, do seu livro Mein Kampf:

“Os judeus franceses trouxeram negros para a Renânia com o objetivo de bastardizar a raça branca, diminuindo assim o nosso nível cultural e político para que possamos ser mais facilmente dominados.”

Os nazistas também proibiam oficialmente demonstrações culturais africanas e, principalmente, afro-americanas, mesmo as modernas como o “Jazz”, que eles viam como “música negra corrupta”.

Por isso, sempre que alguém mostrar fotos de Hitler cumprimentando um negro, ou soldados negros vestidos com uniformes do exército alemão, ou qualquer coisa parecida, lembrem-se desses “fatos históricos” e não se deixem enganar por revisionistas perniciosos.

A história é feita de “fatos” e não de “lados”. Procurem e pesquisem os dados corretos. Não é fácil, mas também não é impossível!

"Dr Eugen Fischer, que liderou o processo de esterilização de mais de 400 crianças alemãs negras."

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Uniformes Nazis desenhados por Hugo Boss:

A grife alemã Hugo Boss reconheceu que seu fundador Hugo Ferdinand Boss apoiou Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial para assim, tentar proteger e dar impulso a sua marca de roupas.

O livro ‘Hugo Boss, 1924-45’ do historiador Roman Köster, docente da Universidade de História Militar de Munique, que foi autorizado pela marca, revela que o proprietário da grife não somente foi um nazistafervoroso durante a Segunda Guerra, mas também manteve escravizados em sua fabrica em Metzingen, no estado de Baden-Wurttemberg cerca de 180 prisioneiros de guerra (140 franceses e 40 poloneses).
Sessenta anos depois, a companhia publicou um comunicado em seu site pedindo perdão e ressaltando que sente “o mais profundo pesar por aqueles que sofreram durante seus trabalhos forçados na empresa de Hugo Ferdinand Boss, durante o regime Nacional Socialista.” Quando produziam os uniformes da SS.

O livro, que discorre sobre a vida do fundador da companhia, mostra que em 1933 Hugo Boss foi produtora e distribuidora oficial dos uniformes militares do Partido Nacional Socialista Alemão e a partir de 1938 passou a produzir também os trajes específicos da Waffen SS.

Os prisioneiros, segundo o site alemão The Local, que foram utilizados pela Hugo Boss viviam em péssimas condições em um campo de trabalho próximo a fábrica. A higiene e alimentação eram escassas, e o ritmo de trabalho desumano.
O Professor Köster ainda deixa claro que o fundador da empresa Hugo Boss era um nazista convicto: Não somente apoiou Hitler e o Partido, mas também obteve muitas vantagens com isso, como por exemplo vários contratos para a produção dos uniformes militares, sinal de que estava totalmente integrado com o Partido e o movimento político que este representava. O Historiador afirma, outrossim, que a ideologia do Terceiro Reich, foi profundamente assimilada pelo proprietário da empresa.

Após o final da Segunda Guerra Mundial, Hugo Ferdinand Boss foi processado e multado por sua ativa participação na estrutura nazista. Hugo F. Boss morreu em 1948 e desde então, sua empresa passou o focar no publico masculino, além de roupas, fabrica perfumes e demais acessórios, o que fez da Hugo Boss líder nacional em seu setor de atuação, além do mais é hoje uma marca de prestigio internacional.

Foto de Fotografias da História.

 

 

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Ministro da Ciência, da Educação e da Cultura:

8 de Maio de 1945

Neste dia Bernhard Rust, Ministro da Ciência, da Educação e da Cultura, suicidava-se em Berlim.

Rust ficaria conhecido por uma série de medidas no mínimo bastante inusitadas. Por exemplo, em 1933 ordenou que nas escolas alemãs fosse obrigatória a saudação nazista entre alunos e professores, “como um símbolo da nova Alemanha”.

Aprovou leis para a expulsão dos judeus das escolas e universidades públicas alemãs e criou as “Napola” (NAtionalPOLitische erziehungsAnstalten), escolas especiais para a formação dos futuros líderes alemães das províncias a serem conquistadas no leste europeu.

Como Ministro da Ciência, retirou fundos para a pesquisa atômica pois considerava-a “uma ciência judia”. Publicaria um artigo com os “20 alemães mais odiados pela sociedade nacional-socialista”, na qual constava Albert Einstein (judeu).

Escreveria mais tarde que:

“O problema é que a ciência não se apresenta da mesma forma para todos os homens. Os negros e os judeus encaram a ciência de uma forma muito diferente da forma que nós, arianos, a encaramos.”

Foto de Hoje na Segunda Guerra Mundial.

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Rudolf Höss e Auschwitz-Birkenau:

8 de Maio de 1944

Neste dia o SS-Obersturmbannführer Rudolf Höss reassumia o comando do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau.

Höss fundou o campo de Auschwitz em Maio de 1940, comandando-o até Dezembro de 1943, período no qual expandiu-o de um pequeno campo periférico para um dos maiores complexos de campos e sub-campos da Alemanha nazista.

No final de 1943, em reconhecimento pelos “bons serviços prestados” em Auschwitz, Höss foi promovido a inspetor geral dos campos de cancentração alemães, função na qual utilizaria da sua experiência para “melhorar a eficiência” das centenas de campos e sub-campos de concentração e extermínio espalhados pela Alemanha e por todo o leste europeu.

Mas neste dia, 8 de Maio de 1944, Höss reassumia o comando de Auschwitz para uma tarefa muito “especial”: supervisionar o assassinato de mais de 430 mil judeus húngaros naquela que ficaria conhecida como a “Aktion Höss”.

O judeus húngaros, que até 1944 tinham vivido em relativa segurança na Hungria, começaram a ser deportados no início de Maio como parte de um novo plano alemão para o extermínio de todos os judeus que viviam naquele país.

Para dirigir essa operação foi escolhido Rudolf Höss, considerado pela cúpula nazista como um dos melhores comandantes de campos de concentração e extermínio da Alemanha.

Durante 56 dias foram deportados e executados em Auschwitz cerca de 430 mil judeus húngaros. Apesar da grande capacidade do campo, os alemães levariam meses para se livrarem de tantos corpos.

Ao longo dos meses seguintes foram abertas mais de 70 grandes valas ao redor do campo, com algumas delas recebendo mais de 5 mil corpos. As valas eram preenchidas com camadas alternadas de corpos e material combustível. Cada vala ardia durante semanas e no final as cinzas e os restos mortais ou eram simplesmente enterrados ou jogados nos vários rios que cortavam a região.

"Da esquerda para a direita, Richard Bär, comandante de Birkenau, Josef Mengele, "médico" do campo que após a guerra fugiria para o Brasil e Rudolf Höss."

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Magda Goebbels e o Infanticídio (de seis filhos):

1 de Maio de 1945

Neste dia Magda Goebbels, mulher de Joseph Goebbels, chefe da máquina de propaganda nazista, assassinava os seus 6 filhos no bunker da Chancelaria, em Berlim.

Após recusar sucessivos pedidos para que os seus filhos fossem retirados de Berlim, primeiro por Albert Speer e depois por Hanna Reitsch, Magda Goebbels enviava uma carta ao seu filho mais velho, fruto do seu primeiro casamento, no qual dizia que:

” (…) O mundo sem o nacional-socialismo não merece ser vivido e por isso eu levo as crianças comigo, (…) e o misericordioso Deus entenderá as minhas razões. (…) Nós temos um único objetivo: lealdade ao Führer até mesmo na morte.”

Todos os seus filhos tinham nomes que começavam com a letra “H”, em homenagem a Hitler. Eram eles:

Helga Susanne (1932)
Hildegard “Hilde” Traudel (1934)
Helmut Christian (1935)
Holdine “Holde” Kathrin (1937)
Hedwig “Hedda” Johanna (1938)
Heidrun “Heide” Elisabeth (1940)

E neste dia, 1 dia após o suicídio de Hitler e Eva Braun, Magda Goebbels, com o auxílio do dentista das SS Helmut Kunz, injetava as 6 crianças com morfina para que perdessem os sentidos e em seguida partia ampolas de cianeto nas suas bocas, matando-as no ato.

De acordo com os testemunhos, apesar de ter sido auxiliada a administrar a morfina nas crianças, Magda Goebbels fez questão de ser ela própria a matar pessoalmente os seus 6 filhos.

Os corpos das crianças seriam encontrados no dia seguinte por soldados soviéticos que entraram no bunker após a rendição da cidade.

"Joseph Goebbels, Magda Goebbels e os seus filhos. O que está em pé atrás era o seu filho Harald, fruto do seu primeiro casamento, cuja imagem foi posteriormente inserida nessa fotografia."

"Os corpos das crianças encontrados por soldados soviéticos quando entraram no bunker."

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Dachau – Campo de Concentração:

28 de Abril de 1945

Neste dia o campo de concentração de Dachau, o primeiro campo criado pela Alemanha nazista, começava a ser libertado.

O campo foi criado em 1933 com o objetivo de receber dissidentes políticos do novo regime que se instalava do país, mas cresceria rapidamente nos anos seguintes, transformando-se numa grande fonte de mão-de-obra escrava para as indústrias da região.

No seu auge seriam construídos mais de 100 sub-campos à sua volta e pelo menos 50 grandes indústrias se instalariam na região.

Durante a sua existência passariam pelo campo cerca de 200 mil prisioneiros, dos quais pelo menos 35 mil / 40 mil morreriam devido às duras condições às quais eram sujeitos (de acordo com os documentos encontrados no campo, foram documentadas e registradas cerca de 32 mil mortes, com possivelmente milhares de outras não documentadas).

No dia 26 de Abril, com as forças norte-americanas aproximando-se rapidamente da região, mais de 10 mil prisioneiros iniciariam uma longa marcha na qual cerca de 1.500 morreriam. Para trás no campo ficaram mais de 30 mil pessoas, na sua maioria judeus mas também muitos prisioneiros de guerra, homossexuais e dissidentes políticos.

E nesta noite, com a 45ª Divisão de Infantaria dos EUA a poucos quilômetros de distância, formou-se no interior do campo um Comitê de Prisioneiros que assumiu o comando das instalações, rendendo os soldados das SS que ficaram para trás.

O campo seria libertado no dia seguinte por elementos da 45ª e da 42ª Divisões dos EUA.

"Soldados da 101ª Divisão Aerotransportada claramente abalados, observando corpos encontrados em Kaufering IV, um dos muitos sub-campos de Dachau."

"Soldados norte-americanos guardando o portão principal do campo de concentração de Dachau, libertado no dia 29 de Abril de 1945."

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Inauguração de Auschwitz:

27 de Abril de 1940

Neste dia o chefe das SS, Heinrich Himmler, dava a sua aprovação à sugestão de Rodolph Höss para a construção de um novo campo de concentração na cidade polonesa de Oswiecim, conhecida pelos alemães como Auschwitz.

A cidade foi selecionada por Rudolph Höss no início do mês como sendo o local mais adequado para a criação do novo campo, cujo objetivo inicial era receber prisioneiros políticos e dissidentes poloneses.

Os alemães aproveitariam-se também de alguns barracões pertencentes à uma antiga base militar que funcionava no local, usando-os como base para a construção do campo.

O campo de concentração de Auschwitz seria oficialmente inaugurado em Maio de 1940 e cresceria rapidamente ao longo dos meses e anos seguintes, transformando-se num dos maiores complexos de campos e sub-campos da Alemanha nazista. No seu auge chegou a ter mais de 40 grandes sub-campos à sua volta.

O campo servia para várias finalidades, sendo a principal delas o fornecimento de mão-de-obra escrava para as indústrias alemãs que se instalaram na região.

A partir de 1942, com a aprovação da “solução final para o ‘problema judeu'”, mais conhecido como o “holocausto”, Auschwitz seria adaptado e transformado em campo de extermínio graças à construção de grandes estruturas dedicadas exclusivamente ao assassínio em massa de civis.

Estimativas modernas indicam que entre 800 mil e 1,1 milhão de civis foram mortos ou morreram (vítimas dos maus tratos e doenças) em Auschwitz entre Maio de 1940 e Janeiro de 1945, na sua maioria judeus mas também muitos ciganos, intelectuais, dissidentes políticos, homossexuais e prisioneiros de guerra.

Foto de Hoje na Segunda Guerra Mundial.

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Destruição da Suástica no final da II Guerra:

E a fotografia do dia é…

A destruição da suástica no campo Zeppelin, em Nuremberg, na Alemanha.

Fotografia (sequência retirada de um filme) tirada neste dia, 22 de Abril de 1945.

A cidade de Nuremberg tinha sido conquistada no dia 20 de Abril por forças norte-americanas e neste dia, após a consolidação da posição, o exército dos EUA procedia à demolição da suástica que adornava o campo Zeppelin, o principal palco para os “rallies” (congressos) do partidonazista.

O campo Zeppelin tinha sido projeto por Albert Speer em 1933.

Foto de Hoje na Segunda Guerra Mundial.

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O Nazista que “pediu desculpas” – Albert Speer:

22 de Abril de 1945

Neste dia Albert Speer, o Arquiteto do 3º Reich e Ministro do Armamento e da Produção Militar, encontrava-se pela última vez com Adolf Hitler no seu bunker, em Berlim.

Foi a última alta figura do partido nazista a falar com Hitler, com todos os demais, à exceção de Goebbels, já bem distantes da capital.

Speer era, para muitas pessoas, o mais próximo que Hitler tinha de um “amigo”.

Figura culta e um profissional altamente eficaz e organizado, conseguiu com que a indústria alemã continuasse produzindo armas e munições mesmo durante os mais intensos períodos de bombardeios aliados.

Desenvolveu métodos inovadores de produção que seriam utilizados mais tarde por outras potências como, por exemplo, o método de construção modular de submarinos e de aviões.

Assim como outros altos dirigentes nazistas, cometeu graves crimes contra a humanidade, com destaque para a utilização indiscriminada de mão-de-obra escrava na indústria militar alemã, que levaria à morte centenas de milhares de civis e prisioneiros de guerra.

Em Março de 1945 recebeu de Hitler a missão de executar a “Ordem Nero”, uma medida destinada a destruir todas as infraestruturas alemãs que estivessem em risco de cair nas mãos dos soviéticos.

Apesar do seu protesto, Hitler seguiu em frente com a ordem, mas Speer desobedeceu-o em segredo, forjando documentos falsos e emitindo ordens que nunca chegavam ao destino.

E neste dia, 22 de Abril de 1945, de acordo com as suas memórias escritas após a guerra, Speer contou a Hitler que a Ordem Nero não tinha sido executada e que as infraestruturas não tinham sido destruídas.

De acordo com o seu relato, Hitler limitou-se a baixar o rosto, levantou-se lentamente da sua cadeira e, friamente, despediu-se de Speer.

Mais tarde, de acordo com o testemunho da sua secretária particular, Traudl Junge, que entrou no escritório logo após a saída de Speer, Hitler estava chorando.

Durante o mês de Maio de 1945 Speer participaria no governo provisório alemão do pós-guerra, colaborando com as forças aliadas, mas seria detido algumas semanas depois.

Foi julgado em Nuremberg ao lado das principais figuras do partidonazista, como Goering, Ribbentrop e Hess.

Ficaria conhecido como “o nazista que pediu desculpas”, ao reconhecer no tribunal a sua parcela de culpa nos crimes cometidos pela Alemanha durante a guerra.

Foi provavelmente graças à essa sua postura que conseguiu escapar da pena de morte, sendo condenado a 20 anos de prisão.

A sua imagem, no entanto, ficaria para sempre marcada pela utilização em larga escala de mão-de-obra escrava e por um escândalo envolvendo o roubo de obras de arte que, supostamente, ele teria vendido no mercado negro depois de ter sido libertado da prisão.

Morreria em Londres no dia 1 de Setembro de 1981, aos 76 anos.

"Albert Speer em 1933."

"Hitler e Speer num dos muitos passeios a pé que faziam juntos."

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Execução de Rudolf Höss:

10 de Abril de 1947

Neste dia Rudolf Höss recebia o “sacramento da penitência” e escrevia uma carta pessoal ao procurador que liderou a sua acusação no julgamento que o condenou à morte.

Foi comandante do campo de concentração e extermínio de Auschwitz de Maio de 1940 a Dezembro de 1943 e de Maio de 1944 a Janeiro de 1945.

Foi o responsável pela sua construção e posterior expansão, transformando-o de um pequeno campo de trabalhos forçados num dos maiores complexos de campos e sub-campos da Alemanha nazista, conhecido como Auschwitz-Birkenau.

O número de prisioneiros que foram executados ou que morreram em Auschwitz devido a maus tratos e doenças é difícil de determinar, com muitas fontes oscilando entre os 800 mil e o 1,1 milhão.

Apenas numa única operação, conhecida como Aktion Höss em sua homenagem, cerca de 430 mil judeus de origem húngara foram transportados e mortos no campo no espaço de apenas 56 dias.

Para dar vazão à cremação de tantos corpos, foram abertas ao redor do campo dezenas de grandes valas comuns onde os corpos foram cremados a céu aberto. A quantidade era tamanha que o processo de cremação e remoção dos restos humanos prolongou-se por vários meses.

Foi julgado e condenado à morte e neste dia, num ato de aparente arrependimento, escrevia a seguinte carta ao procurador que liderou a sua acusação:

“A minha consciência obriga-me a fazer a seguinte declaração.

Na solidão da minha cela eu reconheci que pequei gravemente contra a humanidade. Como comandante de Auschwitz eu fui diretamente responsável por executar parte do plano cruel do 3º Reich para a destruição da humanidade. Ao fazê-lo, inflingi terríveis danos à humanidade.

Causei muita dor ao povo polonês em particular.

Pagarei por isso com a minha vida.

Que Deus me perdoe um dia por aquilo que eu fiz.”

A carta foi escrita de próprio punho e entregue neste dia aos guardas prisionais que faziam a sua segurança.

Seria enforcado no dia 16 de Abril de 1947, ao lado de um dos fornos crematórios de Auschwitz.

"Rudolf Höss durante o seu julgamento."

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Nazismo e Religiões:

7 de Abril de 1942

Neste dia o pastor luterano alemão Karl Friedrich Stellbrink era preso pela Gestapo em Lubeck, na Alemanha. Nas semanas seguintes seriam também presos os padres católicos Johannes Prassek, Eduard Muller e Hermann Lange.

Nos meses seguintes outros 18 clérigos seriam também presos e enviados para diversas prisões na Alemanha, onde as torturas eram frequentes.

Faziam todos parte de um grande movimento de clérigos dedicados a criticar publicamente o governo nazista alemão. Dedicavam-se também à distribuição de panfletos onde acusavam os nazistas de diversos crimes.

O julgamento, conhecido como o “Julgamento dos Cristãos de Lubeck”, decorreu em corte popular entre os dias 22 e 23 de Junho de 1943, onde foram condenados à morte por “difundir mensagens desmoralizantes durante os sermões”.

Todos os 4 foram executados na guilhotina no dia 10 de Novembro de 1943, com apenas 3 minutos de diferença um do outro.

Antes de ser guilhotinado, as últimas palavras do padre Hermann Lange foram:

“Somos como irmãos.”

Passariam a ser conhecidos como os “Mártires de Lubeck”.

Foram beatificados pela igreja católica no dia 25 de Junho de 2011.

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 A Lei para a Restauração do Serviço Civil Profissional e o caso de Albert Einstein:

7 de Abril de 1933

Neste dia Adolf Hitler aprovava a “Lei para a Restauração do Serviço Civil Profissional”.

Na prática essa lei autorizava o partido nazista a demitir qualquer funcionário público alemão, substituíndo-o por outro mais alinhado com a sua ideologia.

A lei especificava também que apenas cidadãos “arianos” poderiam desempenhar funções públicas, o que levaria à demissão de muitos juízes, professores e servidores públicos judeus.

Após a publicação dessa lei, Albert Einstein, na época já mundialmente famoso e um dos cientistas mais conhecidos e reconhecidos do mundo, demitiu-se do seu cargo na Academia Prussiana de Ciências antes que fosse demitido, decidindo imigrar definitivamente para os EUA.

Em Maio de 1933, durante a campanha nazista para a destruição de livros, os seus livros estavam entre aqueles que foram queimados e uma revista alemã publicou um artigo incluíndo-o numa lista de “alemães indesejados”, oferecendo 5 mil Reichsmarks “pela sua cabeça”.

Einstein nunca mais regressaria à Alemanha.

"Publicação original da Lei para a Restauração do Serviço Civil, promulgada neste dia, 7 de Abril de 1933."

"Albert Einstein no final de 1933, logo após a sua chegada definitiva aos EUA."

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Boicote aos Judeus: 

1 de Abril de 1933

Neste dia o partido nazista iniciava uma grande campanha de boicote aos negócios pertencentes a judeus na Alemanha.

Essa ação de boicote foi alegadamente uma reação defensiva ao boicote judeu sobre bens alemães, que foi iniciada em Março de 1933 por organizações judias internacionais, mas que foi rapidamente abandonada devido à falta de apoio.

A ação de boicote nazista aos negócios judeus foi a primeira de uma série de medidas contra a comunidade judia na Alemanha.

Nessa época Adolf Hitler já era Chanceler da Alemanha e gozava de “poderes especiais” após o evento do incêndio do Reichstag, supostamente executado por um complô comunista e que abriria caminho à promulgação da “Lei da Permissão”, que dava à Hitler o poder de aprovar leis sem a aprovação do Parlamento.

E neste dia os “camisas castanhas” da SA posicionavam-se à frente das lojas e escritórios pertencentes aos judeus, fixando cartazes e barrando a entrada de clientes.

Nas escolas os alunos judeus também foram proibidos de entrar, nos hospitais os médicos judeus foram barrados e nos tribunais os advogados judeus foram proibidos de exercer as suas funções.

Os jornais alemães, que nessa época eram completamente controlados pelo partido nazista, começaram também uma ampla campanha de boicote aos negócios judeus.

O boicote abriria caminho para outras ações mais violentas de boicote como, por exemplo, a “Lei da Restauração do Serviço Civil Profissional”, que entraria em vigor no dia 7 de Abril de 1933, apenas uma semana após o boicote.

De acordo com essa lei, o funcionalismo público alemão só poderia receber profissionais “racialmente arianos”, o que significava que todos os funcionários públicos judeus deveriam ser demitidos, incluíndo professores, juízes, médicos, etc., algo que começaria a ocorrer já em Abril.

Agentes da SA boicotando uma loja pertencente à judeus em Berlim.

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As SA e suas tensas relações com o Partido Nazista:

1 de Abril de 1931

Neste dia decorria a Revolta de Stennes, em Berlim.

A Revolta de Stennes, liderada pelo oficial da SA, Walter Stenner, decorreu entre os dias 1 e 2 de Abril de 1931, resultando na invasão dos escritórios do partido nazista em Berlim (nessa época Adolf Hitler ainda não desempanhava nenhum papel de liderança na Alemanha).

Walter Stennes liderava um amplo setor dentro da SA que defendia que a organização deveria assumir um papel de maior destaque dentro da organização do partido nazista.

Até então a função da SA (Sturmabteilung, Destacamento de Assalto) era limitada a garantir a segurança dos eventos do partido, atrapalhar eventos políticos adversários, principalmente dos comunistas, recrutar novos membros e marchar pelas ruas das cidades para publicitar o partido, no entanto, Stenner queria mais.

Na sua visão e na de muitos outros membros da SA, a organização deveria assumir um papel mais “militar”, eventualmente até mesmo assumindo a função do exército alemão.

Nos meses que antecederam a revolta, Stennes pressionou a liderança do partido nazista para dar mais autonomia à organização, mas no dia 20 de Fevereiro de 1931 Hitler assinou um decreto no qual colocava a SA numa posição hierárquica claramente inferior, o que serviu apenas para enfurecer ainda mais muitos membros da organização.

E na madrugada entre os dias 31 de Março e 1 de Abril Stennes, à frente de muitos membros da SA, invadiram diversos escritórios do partido nazista em Berlim, assumindo o controle físico de muitas repartições, inclusive o escritório de propaganda de Joseph Goebbels.

A revolta acabaria por ser controlada no dia 2 de Abril, resultando na expulsão de Stennes da SA e do partido nazista.

Stennes ainda permaneceu na Alemanha por mais algum tempo, no entanto, em 1933, com a subida de Hitler ao poder, fugiu para a China, onde permaneceria até 1949, vindo a morrer apenas em 1989.

Foto de Hoje na Segunda Guerra Mundial.

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Hitler e o Golpe (fracassado) da Cervejaria:

1 de Abril de 1924

Neste dia Adolf Hitler era condenado a 5 anos de prisão na penitenciária de Landsberg, pela sua participação no golpe de estado falhado de Munique, conhecido como o “Golpe da Cervejaria”, entre os dias 8 e 9 de Novembro de 1923.

Nessa tentativa de golpe, Hitler, à frente de mais de 2 mil apoiantes, entre eles figuras que se destacariam no partido nazista como Ernst Rohm, Rudolf Hess e Hermann Goering, concentraram-se na famosa cervejaria Bürgerbräukeller, em Munique, de onde marcharam pelas ruas da cidade no dia 9 de Novembro. O objetivo dessa marcha era tomar o poder local e, eventualmente, derrubar o governo nacional alemão.

A marcha foi barrada pela polícia de Munique, que abriu fogo contra os manifestantes. Na troca de tiros que se seguiu, 4 policiais e 16 apoiantes nazistas foram mortos, com muitos outros feridos.

Hitler, apontado como o cabecilha da manifestação, foi julgado e condenado à uma pena de 5 anos de prisão, no entanto, permaneceria apenas 9 meses preso, tendo sido perdoado pela Corte Suprema da Bavária no dia 20 de Dezembro de 1924.

Enquanto esteve preso escreveu grande parte do primeiro volume do seu livro Mein Kampf (Minha Luta, em alemão). Uma espécie de livro auto-biográfico no qual explicava a sua visão para o futuro da Alemanha.

Nesse livro, de uma forma dolorosamente verborrágica, Hitler afirmou, entre outras coisas, o seu desejo de ver a Alemanha expandindo-se em direção ao leste europeu, à custa dos povos eslavos que lá viviam.

Denunciou também um suposto complô judaico internacional e criou as bases para a implementação de uma política racial oficial no país.

"Fotografia de Hitler e de alguns dos seus apoiantes antes do golpe falhado de Munique."

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O Reichstag aprova o “Ato de Permissão:

23 de Março de 1933

Neste dia o Reichstag aprovava o “Ato de Permissão”, dando a Adolf Hitler poderes excepcionais que o transformavam na prática em um ditador.

Após o incêndio do Reichstag, no dia 27 de Fevereiro de 1933, a Alemanha mergulhou num autêntico clima de terror, com os direitos civis mais básicos tendo sido suspensos logo no dia seguinte.

O partido nazista, alegando um grande complô liderado pelos comunistas alemães, exigiam mais poderes para Hitler, com o objetivo de facilitar a luta contra essa suposta conspiração.

E seguindo as diretrizes do partido nazista, neste dia o parlamento alemão aprovava a “Lei para Remediar a Aflição do Povo e do Reich”, que ficaria conhecida simplesmente como “Ato de Permissão”.

De acordo com essa lei, de caráter provisório e que deveria ser renovada de 4 em 4 anos (seria renovada 2 vezes), Hitler recebia o poder de aprovar leis sem o prévio conhecimento do parlamento.

No “Artigo 3” da lei estava estipulado que:

“As leis criadas pelo governo do Reich (Adolf Hitler) devem ser publicadas e anunciadas na Gazeta do Reich, entrando em vigor no dia imediatamente a seguir”.

Na posse de poderes ditatoriais, poucos meses depois, no dia 14 de Julho de 1933, Adolf Hitler dissolveria todos os partidos políticos da Alemanha, permitindo a existência de apenas um: o partido nazista.

Ficava assim institucionalizada a ditadura nazista na Alemanha.

Nesta fotografia, tirada no dia 23 de Março de 1933, vemos a sessão do parlamento na qual o “Ato de Permissão” foi aprovado.

Foto de Hoje na Segunda Guerra Mundial.

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As execuções em massa no Campo de Auschwitz com o pesticida Zyklon-B:

22 de Março de 1942

Neste dia tinham início em Auschwitz as execuções em massa com o pesticida Zyklon-B.

As experiências com o Zyklon-B começaram em Agosto de 1941, encabeçadas pelo SS-Hauptsturmführer (capitão) Karl Fritzsch, que executou alguns prisioneiros de guerra soviéticos no Bloco 11, um pequeno edifício em Auschwitz.

As execuções continuariam durante os meses seguintes, com os resultados sendo cuidadosamente anotados por Fritzsch. O objetivo era determinar exatamente qual a dose necessária para que um ser humano fosse executado no menor espaço de tempo possível.

E em Março de 1942, após diversas experiências, algumas delas presenciadas pelo comandante do campo na época, Rudolf Höss, concluía-se a construção da primeira câmara de gás dedicada exclusivamente para o uso do Zyklon-B (os outros campos de extermínio na Polônia utilizavam os gases de escape de motores de caminhão).

A câmara foi construída em Auschwitz II-Birkenau e era conhecida como a “casa vermelha”, devido aos tijolos vermelhos utilizados na sua construção, com os oficiais das SS referindo-se ao local simplesmente como “Bunker 1”.

Uma segunda câmara, conhecida como “casa branca” ou “Bunker 2”, ficaria pronta algumas semanas depois.

De acordo com dados da época, o Bunker 1 era capaz de executar cerca de 800 vítimas de cada vez, com o Bunker 2 sendo capaz de executar um máximo de 1.200 vítimas de cada vez.

O “sucesso” das operações impressionou a alta cúlpula nazista, que autorizou obras de ampliação das estruturas e, em Junho de 1943, Auschwitz-Birkenau tinha 4 grandes câmaras de gás / crematórios que, juntos, podiam executar cerca de 4.500 pessoas de cada vez. Um processo que podia ser repetido de 3 à 4 vezes por dia, dependendo da necessidade.

"Latas vazias de Zyklon-B encontradas em Auschwitz após a libertação do campo."

"Os cristais de Zyklon-B, que em contato com o ar transformam-se num gás tremendamente tóxico para o ser humano."

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A criação da Wehrmacht:

16 de Março de 1935

Neste dia era criada a Wehrmacht.

O nome Wehrmacht (Força de Defesa, em alemão) foi citado pela primeira vez num decreto assinado neste dia por Adolf Hitler, que anunciava o início do recrutamento para o exército.

Esse anúncio foi o primeiro de uma longa série de violações do Tratado de Versalhes, que reduzia o tamanho do exército alemão, nesta época chamado de Reichswehr, para um máximo de 100 mil soldados, proibindo também o recrutamento de novos soldados.

Com esse decreto Hitler anunciava também o início do rearmamento alemão.

Nos seus 10 anos de existência (1935 – 1945) passaram pela Wehrmacht cerca de 18,2 milhões de militares, cujas baixas foram de cerca de 10 milhões (2 milhões de mortos, 3 milhões de desaparecidos e 5 milhões de feridos).

Nesta imagem vemos a Balkenkreuz, o emblema da Wehrmacht durante a guerra.

Foto de Willams Barbosa.

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O Nazismo e a Bandeira:

15 de Março de 1933

Neste dia, poucas semanas após Adolf Hitler ter assumido como o novo Chanceler da Alemanha, passava a ser obrigatório hastear a bandeira do partido nazista ao lado da bandeira nacional alemã em qualquer evento público.

Hitler, apesar de contar com poderes extraordinários aprovados após o incêndio do Reichstag, ainda não tinha instaurado a ditadura nazista no país, sendo obrigado a governar em coalizão com outros partidos, sempre sob o olhar atento do Presidente Paul von Hindenburg.

A bandeira do partido nazista, vermelha, com um círculo branco no seu centro e com uma cruz gamada (suástica estilizada) no centro, tinha sido desenhada pelo próprio Hitler em 1925, apesar da suástica ser utilizada como símbolo do grupo que originou o partido nazista desde antes da sua entrada.

Nas palavras de Hitler:

“O vermelho significa a luta socialista pela igualdade entre as classes, o branco representa o nacionalismo e a suástica, símbolo ancestral de boa sorte, representa o futuro auspicioso do Reich.”

Vermelho, branco e preto também correspondiam às cores da bandeira nacional alemã na época.

A suástica utilizada pelos nazistas é baseada num antigo símbolo que foi muito utilizado por uma série de culturas ao longo da história humana, com destaque para os Astecas, os Gregos, os Budistas e os Hindus.

Os pesquisadores acreditam que esse símbolo tenha um valor especial já que é encontrada em culturas que, na época, não tinham contato umas com as outras.

Ainda é muito utilizada hoje em dia pelos hindus, sendo normalmente associado à um símbolo de boa sorte (uma espécie de amuleto). Também está relacionado com o deus hindu Vishnu.

A suástica adotada pelo partido nazista é estilizada, ligeiramente inclinada no sentido dos ponteiros do relógio de modo a que uma das pontas esteja sempre no topo.

A bandeira do partido seria adotada como a nova bandeira nacional alemã em 1935.

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A “Solução Final” no Gueto de Cracóvia:

13 de Março de 1943

Neste dia o SS-Untersturmführer (2º Tenente) Amon Göth iniciava a liquidação final do Gueto de Cracóvia.

Tratou-se da última grande ação de deportação do gueto, que começou a ser esvaziado em Maio de 1942, quando dezenas de milhares de judeus foram enviados para os novos campos de concentração e extermínio na Polônia.

E neste dia Amon Göth assumia a tarefa de deportar para Auschwitz os cerca de 20 mil judeus que ainda viviam no Gueto de Cracóvia.

A ação começou logo pela manhã e apanhou a população local de surpresa. Os soldados entraram nos edifícios e nas casas, ordenando que todos saíssem e aguardassem por novas ordens na praça central do gueto.

Nesse processo foram assassinados mais de 2.000 judeus, com os restantes sendo embarcados em trens com destino a Auschwitz.

A ação de liquidação foi presenciada por muitos poloneses não-judeus que trabalhavam no gueto, com destaque para o farmacêutico Tadeusz Pankiewicz, dono da única farmácia autorizada a funcionar na zona.

A liquidação do Gueto de Cracóvia, uma das ações mais violentas até à data, foi retratada no filme “A Lista de Schindler” (a cena em que aparece a garotinha vestida de vermelha, a única cena a cores do filme).

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O Diário de Goebbels:

2 de Março de 1943

Neste dia o chefe da máquina de propaganda nazista, Joseph Goebbels, fazia a seguinte entrada na página 261 do seu diário:

“Estamos agora definitivamente empurrando os judeus para fora de Berlim.

Muitos foram subitamente capturados no último sábado e serão encaminhados para o leste tão rapidamente quanto possível.

Infelizmente alguns círculos de intelectuais alemães ainda não conseguiram entender a nossa política sobre os judeus e, em alguns casos, chegam mesmo a tomar o partido deles.

Como resultado, nossos planos foram alertados prematuramente, e muitos judeus conseguiram escapar por entre os nossos dedos. Mas vamos capturá-los.

Eu certamente não irei descansar até que a capital do Reich torne-se finalmente livre de judeus.”

O diário de Goebbels foi encontrado em 1992 pelo historiador alemão Elke Frohlich, quando vistoriava o conteúdo de algumas caixas em Moscou com itens capturados pelos soviéticos em Berlim após o fim da guerra.

Numa das caixas Frohlich encontrou 29 volumes escritos à mão, datados entre 1923 e 1945 e assinados por Goebbels.

Os 29 volumes foram editados e publicados por Frohlich na íntegra, com o último volume tendo sido publicado em 2008. Há a previsão de que em breve uma versão completa em inglês seja também publicada.

Foto de Hoje na Segunda Guerra Mundial.

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O incêndio do Reichstag:

27 de Fevereiro de 1933

Neste dia o Reichstag (parlamento) em Berlim era incendiado.

A estação de bombeiros local recebeu o alerta às 21h25, mas quando os primeiros carros chegaram ao Reichstag o edifício já estava quase completamente envolvido em chamas.

No local a polícia encontrou o jovem Marinus van der Lubbe, holandês, recém-chegado à Berlim e um conhecido membro do Partido Comunista da Holanda.

Foi imediatamente detido e seria julgado nos meses seguintes, sendo condenado à morte na guilhotina, sentença que foi executada no dia 10 de Janeiro de 1934 (tinha 24 anos).

O incêndio do Reichstag foi uma verdadeira “bênção” para Adolf Hitler, que tinha sido empossado no cargo de Chanceler à apenas 4 semanas. Graças à comoção pública que se gerou, Hitler conseguiu pressionar o Presidente Paul von Hindenburg a suprimir temporariamente as liberdadeis individuais, o que levaria à prisão de todos os opositores do partido nazista, com destaque para os comunistas.

Com o partido comunista alemão destruído, Hitler tinha o caminho aberto para votar o Ermächtigungsgesetz (Ato de Permissão), em Março de 1933, que lhe daria o poder para aprovar leis sem envolver o parlamento.

Antes do incêndio do Reichstag o partido nazista tinha apenas uma maioria relativa no parlamento, graças à sua coalizão com o Partido Nacional Popular Alemão, mas após o incêndio e a prisão dos membros do partido comunista, a maioria passaria a ser absoluta, com 52% dos assentos.

Mas Hitler ainda não estava satisfeito e utilizou o pretexto do incêndio para alcançar uma posição ditatorial “de fato” com a aprovação do Ato de Permissão, no dia 24 de Março desse ano. De posse de “poderes extraordinários”, Hitler colocaria todos os partidos políticos na ilegalidade, à exceção do partido nazista.

Há muita controvérsia acerca da origem do incêndio. Alguns historiadores defendem que houve participação dos próprios nazistas e que o jovem Lubbe não passou de um bode expiatório. No entanto, o que se sabe com certeza é que esse incêndio representou uma peça fundamental na criação da “Alemanha Nazista“.

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A criação da Luftwaffe:

26 de Fevereiro de 1935

Neste dia era criada oficialmente a Luftwaffe.

Após a subida ao poder do partido nazista em 1933 e do repúdio público do Tratado de Versalhes, que dentre outras coisas proibia o país de ter uma força aérea, Adolf Hitler anunciava neste dia a criação da força aérea alemã, com Hermann Goering como o seu comandante em chefe.

Em Fevereiro de 1935 a Luftwaffe tinha menos de 2 mil aviões e 15 mil soldados, pilotos e oficiais, mas em Setembro de 1939, na invasão alemã da Polónia, já era uma das forças aéreas mais sofisticadas e tecnologicamente avançadas do mundo, graças em larga medida à Legião Condor, uma força composta por mais de 20 mil homens que combateu na Guerra Civil Espanhola, entre 1936 e 1939.

A experiência acumulada na Espanha seria crucial e determinaria o grande sucesso da Luftwaffe nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial.

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O DAP – o ‘embrião’ do Partido Nazista:

5 de Janeiro de 1919

Neste dia Anton Drexler fundava o Partido dos Trabalhadores Alemães (Deutsche Arbeiterpartei, DAP).

Drexler auto-definia o seu partido como pertencente à Extrema Direita, com ideologias nacionalistas, pan-alemãs, anti-capitalista, anti-comunista, anti-marxista e anti-semita.

Nas suas próprias palavras:

“Um partido para atender as necessidades da classe média operária alemã da ‘raça ariana’.”

Nessa época os partidos políticos extremistas surgiam por todos os lados na Alemanha e o governo, com o objetivo de acompanhar de perto as suas atividades, contratava e infiltrava agentes nesses partidos.

Foi nesse âmbito que Adolf Hitler se envolveria no DAP, em Julho de 1919.

Hitler, sem uma educação formal e sem perspectivas de carreira, foi contratado como agente do governo para acompanhar e relatar as reuniões do DAP. Ficou imediamente fascinado pelo discurso anti-semita, nacionalista e anti-capitalista de Drexler. No dia 12 de Setembro de 1919 aceitou o convite feito pelo próprio Drexler, tornando-se no membro de número 55 do partido.

No dia 24 de Fevereiro de 1920 o DAP seria dissolvido e sucedido pelo Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP), mais conhecido como Partido Nazista.

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Hitler e o Programa dos 25 pontos:

24 de Fevereiro de 1920

Neste dia Adolf Hitler anunciava o Programa dos 25 Pontos.

Num discurso para 2.000 pessoas numa cervejaria em Munique, Hitler anunciava os pontos principais do partido que, nessa época, ainda era conhecido como DAP (Partido dos Trabalhadores Alemães).

Tratou-se do primeiro grande evento público do partido e a primeira grande tentativa em tentar atrair mais adeptos.

Nas palavras de Hitler, tratava-se:

“… de um manifesto anti-semita, anti-capitalista, anti-democrático, anti-Marxista e anti-liberal.”

Dentre outras coisas, incluía-se nos pontos:

1. Exigimos a unificação de todos os povos alemães na “Grande Alemanha”;

2. Exigimos o fim dos tratados de paz e do Tratado de Versailles;

3. Exigimos territórios para o sustento do nosso povo e para a colonização por parte da nossa população excedente;

4. Apenas membros da “raça” podem ser cidadãos. Um membro da “raça” só pode ser alguém com sangue alemão, portanto, um judeu não pode ser membro da “raça”;

13. Exigimos a nacionalização de todas as indústrias;

14. Exigimos a divisão dos lucros de todas as grandes indústrias;

17. Exigimos uma reforma agrária, a desapropriação das grandes propriedades e o fim da especulação;

Mais tarde, nesse mesmo dia, Hitler daria um novo nome ao partido, chamando-o de Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, ou NSDAP.

Nascia assim, neste dia, o Partido Nazista.

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Os “Piratas” da resistência:

Embora ainda considerados pela história oficial criminosos comuns, os Piratas Edelweiss escreveram um capítulo na história da resistência aonazismo.

A origem do nome não é certa. O que se sabe é que o movimento juvenil conhecido como Os Piratas Edelweiss (Edelweißpiraten) não teve final feliz. Em novembro de 1944, a Gestapo enforcou 13 adolescentes nas dependências de uma residência em Colônia. Os adeptos daquilo que simbolizava uma alternativa à Juventude de Hitler (Hitler Jugend), sabotadores do regime nazista, arriscaram não apenas serem detidos e torturados, mas suas próprias vidas.

O que tinham em comum era não se identificarem com a ideologia propagada pela Juventude de Hitler, após a ascensão dos nazistas nos anos 30. Eram, em princípio, um grupo de adolescentes rebeldes como outro qualquer. A diferença é que viviam sob um sistema extremamente autoritário, sendo que muitos deles acabaram pagando o preço disso com suas próprias vidas.

Quando os aliados bombardearam Colônia e a ordem pública foi se desestabilizando aos poucos, os Piratas Edelweiss começaram a sabotar fábricas de munição e a colocar, por exemplo, água com açúcar nos tanques de gasolina de carros pertencentes aos nazistas. Além disso, distribuíam folhetos de propaganda contra o regime. Em 1944, porém, vários adeptos do movimento foram presos. Jülich, que na época tinha apenas 15 anos, passou quatro meses preso em uma cela em Colônia, tendo sido interrogado e torturado pela Gestapo. Outros 13 companheiros dele foram enforcados, o mais jovem deles tinha apenas 16 anos.

Segundo Nicola Wenge, historiadora do Centro de Documentação sobre oNazismo em Colônia. “Eu descreveria o movimento como uma conduta de oposição”, opina Wenge, lembrando porém que distribuir panfletos, disseminar slogans contra o regime nos muros da cidade ou remover bandeiras nazistas eram ações que exigiam uma boa dose de coragem.

Fonte: © Deutsche Welle

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Birkenau – experiências de esterilização com mulheres:

28 de Dezembro de 1942

Neste dia tinha início em Birkenau experiências de esterilização com mulheres.

Birkenau fazia parte do complexo de campos e sub-campos de Auschwitz e nessa época concentrava praticamente toda a população de prisioneiros judeus da região, com outros sub-campos responsáveis por prisioneiros de outras etnias, nomeadamente ciganos.

Essas experiências de esterilização resultavam geralmente na morte das prisioneiras, com cerca de 65% das “cobaias” morrendo devido a infecções ou hemorragias internas. As que sobreviviam apresentavam problemas físicos sérios.

As experiências eram conduzidas pelo Dr Horst Schumann.

As suas primeiras experiências consistiam em bombardear o útero das prisioneiras com Raios X, um procedimento que resultava geralmente na queima ou na gangrena do útero e de partes do intestino. As mulheres agonizavam durante dias antes de morrerem.

Eram selecionadas no Bloco 10 do campo de Auschwitz pelo próprio Dr Schumann, um bloco especialmente preparado para receber “cobaias humanas”.

Em 1943 receberia a ajuda de outro “médico” que se tornaria famoso pelas suas terríveis experiências com humanos, o Dr Josef Mengele.

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A “Solução Final” na Romênia:

29 de Junho de 1941

Neste dia decorria o Massacre de Jassy, na Romênia.

Na cidade de Jassy havia uma grande comunidade judia que remontava ao início do século 16, quando a região recebeu os primeiros judeus oriundos do Oriente Médio e de outras regiões da Europa.

Nos séculos seguintes essa comunidade floresceu bastante, com a cidade de Jassy transformando-se num centro regional importante para a cultura judaica na Romênia.

No entanto, após a entrada da Romênia no Eixo e, principalmente, após o início da invasão alemã da União Soviética, em 22 de Junho, as perseguições aos judeus romenos intensificaram-se de forma terrível.

A situação em Jassy atingiu o limite quando a cidade foi bombardeada por aviões soviéticos entre os dias 24 e 26 de Junho. A população local, instigada por agentes alemães das SS, alegaram que os aviões soviéticos eram guiados por “judeus bolsheviques”, o que daria início à perseguições, prisões e linxamentos em praça pública.

No dia 27 de Junho, com a situação descontrolada na região, o ditador romeno Ion Antonescu telefonou para o comandante local, o Coronel Constantin Lupu, dando a seguinte ordem:

“A cidade de Jassy deve ser completamente ‘limpa’ de judeus.”

Os planos para o massacre foram preparados nos dias 27 e 28, com a ação começando neste dia, 29 de Junho de 1941.

Da comunidade judaica inicial da cidade de 15 mil indivíduos, cerca de 8 mil seriam mortos apenas neste dia. De acordo com testemunhas, as vítimas eram aglomeradas na praça central da cidade em grupos de 300 ou 400, quando então eram atacados por policiais, soldados e civis com paus, pedras, pistolas e metralhadoras.

As execuções duraram todo dia e boa parte da noite.

No dia seguinte 5 mil judeus seriam obrigados a entrar em vagões para transporte de gado e enviados para Calarasi, no sul da Romênia. Apenas cerca de 1.000 chegariam com vida ao destino.

Acredita-se que, no total, foram executados em Jassy cerca de 13 mil judeus.

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Fundação da Lebensborn:

12 de Dezembro de 1935

Neste dia Heinrich Himmler fundava a Lebensborn.

O objetivo dessa organização era elevar a taxa de natalidade de crianças “arianas” através de relações extraconjugais entre pessoas classificadas como “racialmente puras”, baseado na ideologia de higiene racial nazista.

Mais tarde, durante a guerra, espalhou-se por outros países da região, onde crianças “racialmente aceitáveis” eram selecionadas e enviadas para a Alemanha, onde eram adotadas por famílias alemãs.

Na Alemanha nasceram mais de 8 mil crianças no âmbito desse programa, e na Noruega o número foi ainda maior, estimado entre as 8 mil e as 12 mil crianças.

Esse programa facilitava eventos sociais envolvendo membros das SS e da Liga de Garotas Alemãs. Nesses eventos as relações sexuais eram incentivadas com o objetivo de nascerem crianças “racialmente puras”.

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“A Besta de Buchenwald” e as tatuagens:
 

30 de Junho de 1945

Neste dia Ilse Koch, a mulher de Karl-Otto Koch, comandante do campo de concentração de Buchenwald, era presa na cidade alemã de Ludwigsburg.

Era conhecida pelo seu extremo sadismo na forma como tratava os prisioneiros dos diversos campos de concentração administrados pelo seu marido.

Ao longo dos anos da guerra receberia várias alcunhas, dentre elas “A Besta de Buchenwald”, “A Rainha de Buchenwald”, “A Bruxa Vermelha de Buchenwald”, dentre outros menos pronunciáveis.

Era frequentemente vista percorrendo as instalações do campo de concentração de Buchelwald à procura de “souvenirs” sob a forma de… tatuagens.

Sempre acompanhada por guardas armados, obrigava que os homens, mulheres e crianças ficassem nus, quando então inspecionava os seus corpos à procura de tatuagens. Quando encontrava alguma que a agradava, ordenava que o prisioneiro fosse executado e que a tatuagem fosse cuidadosamente retirada.

Na sua casa foram encontrados diversos desses “souvenirs”, para além de órgãos humanos que ela costumava guardar e exibir para as visitas que recebia.

Seria julgada e condenada à prisão perpétua em Agosto de 1947, mas alguns anos depois a pena seria reduzida para apenas 2 anos.

Em 1949 seria novamente detida e julgada por um tribunal da Alemanha Ocidental, que a condenaria em Novembro de 1950 novamente à prisão perpétua.

Acabaria por se suicidar na prisão no dia 1 de Setembro de 1967, aos 60 anos.

"Ilse Koch enquanto aguardava o seu primeiro julgamento."
"Ilse Koch logo após a sua primeira detenção."
"Alguns dos seus souvenirs."
"Alguns dos seus souvenirs."
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Sobre Nepotismo, Patrimonialismo e Clientelismo: textos, vídeos e imagens

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Significado de Nepotismo

O que é Nepotismo:

Nepotismo é um termo utilizado para designar o favorecimento de parentes ou amigos próximos em detrimento de pessoas mais qualificadas, geralmente no que diz respeito à nomeação ou elevação de cargos. É uma palavra de origem no latim, onde nepos significa neto ou descendente.

Originalmente, a palavra era usada exclusivamente no âmbito das relações do papa com seus parentes. Por esse motivo, o dicionário Houaiss identifica um nepote como “sobrinho do sumo pontífice” ou “conselheiro papal”. Atualmente é utilizado como sinônimo da concessão de privilégios ou cargos a parentes no funcionalismo público. Nepotismo é diferente de favoritismo, pois o favoritismo não implica em relações familiares com o favorecido.

Nepotismo ocorre quando um funcionário é promovido por ter relações de parentesco ou vínculos com aquele que o promove, mesmo que haja pessoas mais qualificadas e mais merecedoras para o cargo. Outro exemplo de nepotismo é quando alguém é acusado de fazer fama, às custas de algum parente já famoso, geralmente se for o pai, a mãe, ou algum tio ou avô. Por exemplo: Um governador que escolha para a sua equipe vários familiares, certamente está praticando nepotismo. Existem vários casos claros no Brasil.

Existe também o chamado nepotismo cruzado, que é a troca de parentes entre agentes públicos para que tais parentes sejam contratados diretamente, sem concurso. Nepotismo cruzado também é o ajuste mediante designações recíprocas, ou seja, a nomeação, daqueles relacionados, que sejam parentes de autoridade, por outra autoridade do mesmo ente federativo.

É importante mencionar que o nepotismo não constitui um ato criminoso. No entanto, quando o nepotismo é praticado de forma intencional, o servidor público ficará sujeito a uma ação civil pública por cometer improbidade administrativa (sendo que essa sim é um crime) pela prática de nepotismo. Sendo confirmada essa ação, o servidor público poderá ter que ressarcir integralmente o dano público causado e poderá também perder o seu cargo e os direitos políticos durante um prazo de três a cinco anos.

O nepotismo é uma afronta à profissionalização da gestão, porque alguém que tem poder político dificilmente avaliará com imparcialidade o trabalho de uma pessoa que pertence à sua família.

Nepotismo – Supremo Tribunal Federal

O artigo 37 da Constituição Federal, refere que as contratações de funcionários para cargos públicos devem cumprir os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Este artigo revela então que o nepotismo é uma prática anti-constitucional. No entanto, alguns municípios podem criar determinadas leis para prevenir o ato de nepotismo.

O Supremo Tribunal Federal possui também a 13ª Súmula Vinculante, aprovada em 21 de agosto de 2008, onde o nepotismo é proibido nos Três Poderes, a nível da União, dos estados e municípios. Esta súmula também prevê e proíbe o nepotismo cruzado.

No dia 4 de Junho de 2010 o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou o decreto federal nº 7.203, que revela o impedimento do nepotismo no âmbito da administração pública federal.

http://www.significados.com.br/nepotismo/

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Prefeito de Itaberaba institui nepotismo na cidade

Prefeito de Itaberaba institui nepotismo na cidade

Foto: Divulgação

A novela do nepotismo em Itaberaba ganhou mais um capítulo no fim de abril. Foi publicado no Diário Oficial do Município, ainda como Projeto, a lei que autoriza a nomeação de cônjuge, companheiro (a) ou parente até o terceiro grau, de integrantes dos poderes Legislativo e Executivo, para os cargos de secretário ou de chefia, no âmbito da Administração Pública Municipal.Na prática, a lei proposta pelo Executivo já foi sancionada pelo prefeito João Almeida Mascarenhas Filho (PP), passando por cima da Constituição Federal e autorizando a prática do nepotismo na cidade.

O que chama a atenção de moradores e vereadores de Itaberaba é a constância da contratação de parentes em cargos do Executivo. Segundo o vereador Frei Dito (PT), quando o prefeito assumiu a cidade, foi encomendado um parecer jurídico à União dos Municípios, que indicava a legalidade de contratar parentes para os cargos de secretários. “Eles se resguardam nisso. No entanto, quando o prefeito nomeia a esposa uma secretária, a irmã uma secretária, o primo um secretário, aí já foge da normalidade, já é uma questão ética”, declarou.

Parece exagero do vereador, mas não é: cinco parentes do prefeito são ou foram secretários de governo durante os dois mandatos de João Almeida Mascarenhas Filho.

Prefeito não se pronuncia

O problema do nepotismo na cidade, como mostrado por meios de comunicação locais, vem acontecendo há mais de um mandato. O ex-prefeito Jadiel Mascarenhas teve o mandato cassado e chegou a atuar como secretário de governo do irmão João Almeida Mascarenhas Filho. A irmã do prefeito, Mariagilza Almeida Mascarenhas, é secretária de governo; a esposa, Maíra Mascarenhas, secretária de Ação Social; o primo José Francisco Almeida Leal é secretário da Fazenda; e outro primo, Alberto Magno Almeida Leal, secretário de Administração e Modernização.

Segundo um morador, que não quis se identificar, “irmãos, primos e afins, todos são donos de cargos públicos, humilham, demitem e transferem funcionários que não se filiam aos seus partidos políticos”. A reportagem do Jornal da Metrópole tentou entrar em contato com o prefeito de Itaberaba, Mascarenhas Filho, mas este não se pronunciou nem retornou as ligações até o fechamento desta edição.

Em benefício próprio

Votado em sessão extraordinária, o Projeto de Lei n° 002/2012, proposto pelo Executivo, teve o apoio de sete dos dez vereadores da cidade. Na ocasião, o edil Frei Dito (PT) argumentou com os colegas que o projeto era inconstitucional, pois autorizava o nepotismo. “Minha argumentação não foi aceita e o projeto foi aprovado por sete votos a três, porque a maioria é da base do prefeito. É legislar em benefício próprio”, afirmou.

Para o advogado José Souza Pires, especialista em direito eleitoral, a aprovação da lei não significa que ela será aplicada, já que o Ministério Público pode intervir. “Para que se possa chamar isso de ‘legislar em benefício próprio’, é preciso que haja a prática, que o vereador ou o prefeito, por exemplo, nomeiem um familiar para um cargo de chefia. Isso é nepotismo”, explica.

Proposta inconstitucional

Em 2008, o Supremo Tribunal Federal (STF) editou a súmula que tratava do nepotismo no Brasil. O Supremo decidiu como violação da Constituição Federal a nomeação de “cônjuge, companheiro ou parente em linha reta colateral ou por afinidade de até o 3º grau, inclusive da autoridade nomeante ou de servidor da mesma pessoa jurídica”, em cargos de direção, chefia ou assessoramento para cargos de comissão ou confiança.

Diante da atual situação, já tramita no Ministério Público Estadual (MP-BA) uma ação judicial por nepotismo contra o prefeito de Itaberaba, anterior à sanção da Lei, em 2011. Segundo o vereador Frei Dito, a expectativa é a de que outra ação seja movida nos próximos dias, também junto ao Ministério Público, uma vez que a lei entrou em vigor no início do mês de abril.

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 PATRIMONIALISMO

Patrimonialismoé um termo utilizado para descrever a falta de distinção por parte dos líderes políticos entre o patrimônio público e o privado em um determinado governo de determinada sociedade. Mediante tal prática, os governantes consideram o Estado como seu patrimônio, numa total confusão entre o que é público e o que é privado, noção que prevaleceu durante o período dos estados absolutistas. Tal fenômeno, (considerado como danoso para as economias e o desenvolvimento das modernas sociedades), porém, se mostra ainda bastante forte, e dependendo do desenvolvimento de cada país, estado ou município, sua intensidade é maior ou menor.

Com o surgimento da administração pública moderna, especialmente a partir da Revolução Francesa, os ideais republicanos e democráticos cada vez mais obrigaram que haja uma gestão pública profissionalizada, com procedimentos que assegurem o atendimentos aos princípios constitucionais como isonomia, moralidade, publicidade, entre outros.

Parentes de políticos sem qualquer preparo sendo escolhidos para cargos de confiança importantes na administração pública, ou passando em concursos públicos de credibilidade discutível; empresas financiadoras de campanhas eleitorais vencendo licitações duvidosas, uso de verbas públicas para uso próprio ou para financiamento de campanhas; utilização de empresas e ONGs fantasmas para parcerias criminosas com o poder público. Todos são exemplos modernos do patrimonialismo, e que estão presentes no Brasil em grau alarmante, fazendo parte da gestão pública municipal, estadual e federal.

É atribuído a Max Weber o estudo aprofundado do fenômeno do patrimonialismo, que já era notado e percebido como nocivo nos estados alemães do século XIX. Weber, aliás, fazia uma associação bastante pertinente entre as ideias de patrimonialismo e patriarcalismo (a concentração de poder nas mãos do patriarca, ou líder, e seus agregados). Suas conclusões acerca da burocracia (não no seu sentido pejorativo, que lembra algo que não funciona, repartições empoeiradas, com engrenagens lentas e ineficientes, mas de um conjunto técnico, de uma administração pública profissionalizada, eficiente e ética) redundaram no aparecimento de procedimentos como o concurso público, licitações, controle da administração pública. No Brasil os ideais burocráticos foram fixados em nosso ordenamento jurídico, de fato, apenas com a Constituição de 1988, numa época bastante tardia, portanto.

Assim, no combate da prática do patrimonialismo, os canais apropriados são o ministério público, os tribunais de contas, os poderes legislativo, judiciário e executivo além do próprio controle popular, da própria sociedade, que é sem dúvida o fator decisivo para operar grandes mudanças na administração pública, para a melhor implementação do estado social e democrático de direito.

Bibliografia:
VIOLIN, Tarso Cabral. Pelo fim do patrimonialismo na administração pública. Disponível em: <http://blogdotarso.com/tag/patrimonialismo/>. Acesso em: 07 jan. 2012.

http://www.infoescola.com/sociologia/patrimonialismo/

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CLIENTELISMO

27 de outubro, 2002 – Publicado às 16h54 GMT
Clientelismo ainda domina política no interior do Brasil
Muitos votos ainda dependem de troca de favores
Muitos votos ainda dependem de troca de favores
Paulo Cabral

Embora já haja pontos do sertão e da floresta onde a união da comunidade conseguiu trazer uma consciência política para a população local, o mais comum ainda é assistir a práticas de clientelismo e compra de voto que dificultam o exercício da cidadania plena.

Nas regiões mais isoladas do Pará, por exemplo, os candidatos que visitam vilas distantes – em longas viagens pelos rios amazônicos – são esperados com ansiedade pelas comunidades ribeirinhas.

A visita destes candidatos é um raro momento em que esta parcela isolada da população brasileira consegue tomar contato com os homens e mulheres que vão determinar, de longe, partes importantes da vida da região.

Mas ao invés de discussões de longo prazo, estas populações se concentram em seus pedidos pessoais de favores, depois de a experiência de algumas décadas ter demonstrado que pouco benefício de estado é levado para a toda a comunidade pelo poder público.

Voto por corte de cabelo

“Tem muito candidato que sai de barco com um dentista em um barbeiro trocando voto por tratamento dentário e corte de cabelo”, contou um jornalista da cidade de Santarém.

Mas mesmo em áreas muito isoladas, há exemplo de atuação política exemplar, como na cidade de Jacareacanga.

O município, perto da divisa entre Pará e Mato Grosso, só pode ser atingido em duas horas de vôo ou seis dias de barco a partir de Santarém.

Jacareacanga foi criada a partir da junção de diversas tribos indígenas que viviam na área.

E ao contrário do que acontece normalmente, os índios da área criaram uma impressionante consciência política a ponto de o vice-prefeito e sete dos quinze vereadores serem das aldeias.

No interior de Pernambuco, a comunidade de Conceição das Crioulas – uma área remanescente de Quilombo no município de Salgueiro – também conseguiu quebrar a alienação política que dá o tom das populações pobres do sertão.

Inicialmente, a comunidade se uniu para lutar pela terra ocupada por seus antepassados e que por lei federal lhes era de direito.

Hoje, todos os meses uma grupo de moradores se reúne no salão comunitário para discutir os problemas da vila. E já conseguiram até eleger uma vereadora.

“Antes aqui era só um curral, que não se envolvia com política e onde alguns candidatos passavam a cada quatro anos atrás de votos. Mas, a partir dos anos 80, alguns moradores da comunidade começaram a olhar para fora e ver a força dos movimentos negros e de quilombos no Brasil”, contou a presidente da Associação Quilombola, Aparecida Mendes.

Mas esta consciência política ainda é rara no sertão.

Troca de favores

Em geral, o que se vê nas pequenas cidades é o domínio de chefes políticos locais e a velha tradição de um favor por um voto.

Mesmo as casas da elite política local são preparadas para esta prática. Todas têm grandes ante-salas, com cadeiras e sofás onde os eleitores aguardam a chance de uma audiência.

“Acontece sim. A gente não pode negar que acontece muito pedido pessoal na época de eleição”, me disse uma candidata a deputada estadual na cidade de Canapi, a terra da ex-primeira dama Rosane Collor, no sertão de Alagoas.

Em um comício da deputada um grande churrasco foi oferecido para os eleitores de uma vila.

Sob um sol escaldante, um caminhão de som tocava o jingle- forró da candidata a todo o volume a população sentia o cheiro da carne sendo assada trancada dentro de uma casa.

Comida, só quando chegasse a candidata.

Quando ela finalmente aparece, assessores aparecem com bacias de carne sobre a cabeça. A população disputa aguerrida os nacos de carne que conseguem pegar.

E os candidatos disputam muito mais nos favores do que nas propostas o voto do sertanejo.

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Vídeos:

Sobre Nepotismo – Programa CQC:

https://www.youtube.com/watch?v=Mvf9XV4WAeQ –

Sobre Patrimonialismo:

Sobre Clientelismo:
 
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CHARGES:
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Ditadura Militar – Brasil e Argentina

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INTERESSE PÚBLICO > OPERAÇÃO CONDOR

Brasil e Argentina, duas atitudes totalmente diferentes

Por Luiz Cláudio Cunha em 10/06/2016 na edição 906

Em silêncio, semblante cerrado, mãos cruzadas, com cabelos grisalhos disfarçando seus 75 anos e um grosso sobretudo marrom para proteger do frio portenho de 13 graus, cercado de cadeiras vazias, Miguel Ángel Furci parecia ainda mais só e desamparado na pequena sala do Tribunal Oral Federal 1, no final da tarde de quinta-feira 26, em Buenos Aires.

Furci continuou impassível, mesmo quando ouviu o juiz que lia a sentença, Oscar Ricardo Amirante, pronunciar seu nome e sua pena: 25 anos de prisão como autor de 67 prisões ilegais e 62 denúncias de tortura, na condição de agente civil da SIDE, a Secretaria de Inteligência do Estado, o órgão da ditadura argentina (1976-1983) que controlava a repressão. Foi a maior condenação do dia, que os outros 17 réus, todos presos, ausentes do tribunal, preferiram não ouvir.

Mas, milhares viram e ouviram pela TV e pela Internet a sentença histórica da Argentina, o único país das Américas que reconheceu e julgou a Operação Condor, condenando pela primeira vez os militares e agentes de uma organização de terror de Estado sem precedentes no mundo. Um juízo que, por tabela, escancara as culpas e o cinismo do Brasil. Na década de 1970, as ditaduras de seis países do Cone Sul — Chile, Argentina, Uruguai, Bolívia, Paraguai e Brasil — se juntaram clandestinamente para perseguir, torturar, matar e desaparecer os que se opunham aos regimes militares.

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Ninguém investigou esse crime transnacional com a obstinação e a agudeza da Justiça argentina. A Causa Condor, que chegou ao seu final naquela quinta-feira, apurou durante três anos os crimes praticados na região contra 109 pessoas — apenas 14 delas argentinas. As outras 91 eram do Uruguai, Chile, Paraguai e Bolívia. Nenhum brasileiro entre eles. Foram ouvidas 222 testemunhas, 133 delas do exterior — apenas uma era brasileira. Só na Argentina, existem 457 casos de vítimas da Condor na Justiça. No Brasil, nenhum.

Mais de 600 militares argentinos já foram processados, condenados e agora cumprem pena pelos crimes da ditadura. No Brasil, apesar dos 21 anos de arbítrio, nenhum militar foi para a cadeia. Os cinco presidentes militares acantonados no Palácio do Planalto a partir de 1964 — Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo — morreram impunes, embora todos tenham sido responsabilizados pelos crimes da ditadura no contundente relatório final de 2014 da Comissão Nacional da Verdade, indiciados como comandantes supremos dos 377 agentes do Estado apontados como autores de crimes de lesa-humanidade na ditadura brasileira.

Generais na cadeia 

Ao contrário, na Argentina, os presidentes militares sentaram nos bancos dos réus. Jorge Rafael Videla, o general mais emblemático da ditadura, que liderou o golpe de 1976, morreu na cadeia em maio de 2013, aos 87 anos, onde cumpria duas penas de prisão perpétua, além de outra de 50 anos de detenção pelo desaparecimento de bebês de presas políticas. Morreu do coração numa sexta-feira, três dias após recusar-se a depor na Causa Condor.

Em 2011, na cadeia, falou durante 20 horas ao jornalista Ceferino Reato, que publicou no ano seguinte seu relato estarrecedor no livro Disposión Final, uma sutil referência à genocida ‘solução final’ do III Reich hitlerista. Ali, o velho general admitiu o tamanho do seu assassinato em massa: “Digamos que eram umas sete ou oito mil as pessoas que deveriam morrer para ganhar a guerra contra a subversão”. Videla foi modesto. A Comissão Sábato que investigou a ditadura contabilizou cerca de 10 mil mortos, os familiares dos presos e desaparecidos insistem em contar 30 mil vítimas fatais.

Assim como o primeiro, o último presidente argentino da ditadura também está preso — mas ainda vivo. O general de exército Reynaldo Bignone, 88 anos, que caiu com o regime em 1983, não teve a coragem do agente Furci e não quis ouvir pessoalmente na quinta-feira sua condenação a 20 anos de prisão. Não fará muita diferença no pouco que lhe resta de vida: Bignone já tinha sido condenado a outros 25 anos de prisão, em 2010, por 56 casos de prisão ilegal, sequestro, roubo e torturas no complexo militar de Campo de Mayo, o maior quartel do país. Em 12 de março de 2013, o general ganhou sua segunda pena de prisão perpétua. No dia seguinte, a mulher, Nilda, companheira de 60 anos, morreu fulminada por um ataque cardíaco.

O coração inconfiável dos torturadores e o tempo implacável do processo reduziram a bancada dos réus. Quando o juízo iniciou, três anos atrás, os acusados eram 31. Restaram ainda vivos os 18 réus condenados na semana passada. O mais idoso é o general de divisão Santiago Omar Riveros, com 92 anos, que recebeu a pena mais alta, como Furci: 25 anos de prisão. Já tinha duas penas perpétuas: uma na Argentina e outra na Itália, pelo desaparecimento de três cidadãos italianos em Buenos Aires. Riveros foi o primeiro general a reconhecer suas vítimas da ditadura: “Não houve desaparecidos, apenas terroristas aniquilados no marco de uma guerra revolucionária e, por tanto, irregular”.

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Seu pior crime foi o comando de El Campito, o maior CCD (centro clandestino de detenção) entre os 380 campos montados no país pela repressão, instalado dentro do principal quartel argentino, o de Campo de Mayo, em Buenos Aires.

Ali passaram 5 mil presos, apenas 43 sobreviveram ao inferno de Riveros.

O leite que vaza 

Ao hospital militar de El Campito eram levadas as presas grávidas, onde eram alojadas no prédio do Serviço de Epidemiologia, sempre vigiadas por homens armados. Apesar da gravidez, as mulheres eram mantidas com algemas e capuz na cabeça. Os partos, realizados por profissionais civis e militares no serviço de Ginecologia e Obstetrícia, eram na sua maioria induzidos por cesarianas. Os nascidos eram logo separados e muitas mães sequer sabiam o sexo de seus filhos. Os bebês permaneciam na área de Neonatologia até serem ‘presenteados’ às famílias dos repressores e as mães, de volta à Epidemiologia, recebiam uma medicação para evitar a produção de leite, já que não podiam amamentar seus filhos. As mulheres entravam no hospital como NN (no nombradas), onde eram atendidas por enfermeiras e monjas, e não deixavam registros, até retornar à prisão original, onde desapareciam para sempre. Um livro de nascimentos encontrado nos arquivos do hospital indica que, entre 1976 e 1978, no auge da ‘guerra suja’ na Argentina, só em El Campito foram registrados 1.274 partos — 352 deles sem qualquer histórico clínico.

Com a contribuição da fábrica infernal de bebês roubados do general Riveros, a Argentina registra ainda hoje cerca de 500 bebês apropriados pela repressão. Deles, até agora, apenas 199 foram identificados, recuperados e encaminhados aos avós sobreviventes.

Um dos casos mais simbólicos desse drama humano é o do jovem uruguaio Simón António Riquelo, desaparecido com a mãe, Sara Méndez, na noite de 13 de julho de 1976, em Buenos Aires, onde a professora vivia exilada. Pelo padrão paranoico da repressão, o jovem era um perigoso comunista, apesar de seus tenros 22 dias de vida: Simón era um bebê, e foi arrebatado do peito da mãe pelo major de artilharia uruguaio José Nino Gavazzo, chefe de operações do SID, o temido Serviço de Informações de Defesa da ditadura de Montevidéu.

— La guerra no es contra niños ! — avisou o major a Sara, quando arrancou o bebê de seus braços. Gavazzo levou Sara para uma antiga oficina mecânica no bairro portenho de Floresta, onde o SIDE do agente Furci, agora condenado, montou um centro binacional e clandestino de tortura que virou sinônimo da Condor: a Automotores Orletti.

Ali passaram mais de 300 presos, metade deles uruguaios. Poucos, como Sara, sobreviveram. Apartada do filho, Sara, encapuzada e algemada pelas costas, foi suspensa por um gancho como um pedaço de carne no açougue. Levou choques elétricos, que ganhavam intensidade quando ela conseguia tocar o chão molhado com a ponta dos pés. Em dado momento, um dos torturadores perguntou a Gavazzo porque o chão estava esbranquiçado.

Es leche! — foi a resposta. Leite que vazava do seio de Sara, leite negado a Simón, expropriado por Gavazzo, usurpado pela Orletti, sequestrado pela Condor.

Dez dias depois, Sara foi transferida clandestinamente a Montevidéu, junto com outros 23 uruguaios presos na capital argentina. O bebê desapareceu, embora aquela guerra não fosse contra ele. A forçada mãe adotiva de Simón era prima-irmã da mulher de um coronel uruguaio, António Buratti, envolvido em sequestros e ex-chefe de Gavazzo. Sara perdeu o leite, mas não a esperança. Sobreviveu a cinco anos de prisão e, em liberdade, procurou o filho roubado durante quase três décadas, até que o reencontrou em Buenos Aires em 2002.

Sara já não vertia leite. Apenas lágrimas. De alegria.

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No rastro da Condor 

O Simón de 26 anos foi localizado graças à investigação de um jornalista e de um senador, ambos uruguaios.

O jornalista Roger Rodríguez, 56 anos, é o mais temido e destemido repórter do Uruguai, reconhecido e premiado internacionalmente pelo jornalismo contundente que faz sobre as ditaduras e crimes contra os direitos humanos no seu país e no Cone Sul. Detentor,  entre outros, do prêmio Vladimir Herzog de 1984, concedido pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, e do prêmio Liberdade de Expressão Iberoamericana da Casa América Catalunha, de Barcelona, em 2011, Rodríguez é uma figura singular do país: foi o último preso da longa ditadura (1973-1985) e o primeiro anistiado da democracia. No crepúsculo do regime dos generais, foi processado pela Justiça Militar por denunciar maus tratos às presas políticas da penitenciária de Punta de Ríeles e, condenado, passou 20 dias encarcerado pela ditadura moribunda, até ser anistiado pela democracia nascente.

As mais notáveis reportagens sobre o regime militar no Uruguai levam a assinatura de Rodríguez, que em 2001 descobriu o Segundo Vuelo, o translado clandestino em aviões da Força Aérea de uruguaios presos e torturados pela Condor em Buenos Aires e desaparecidos em Montevidéu. Seu faro de sabujo e a obstinação de repórter puro-sangue permitiram que ele localizasse em 2002, na capital argentina, o jovem Simón Riquelo, devolvido 26 anos depois ao peito da mãe, Sara. Com a sabedoria que deve ser útil a todo repórter e essencial para os inertes juízes brasileiros, Rodrígues ensina: “Cuando se sabe la verdad, se exige la justicia. La verdad es, la historia puede ser“.

O senador que localizou Simón, Rafael Michelini, era igualmente uma vitima da Condor. Dois meses antes do sequestro de Sara e seu bebê, o também senador Zelmar Michelini, pai de Rafael e fundador da coalizão de esquerda Frente Ampla, foi sequestrado em maio de 1976 em Buenos Aires junto com Héctor Gutiérrez Ruiz, ex-presidente da Câmara dos Deputados, ambos refugiados na capital argentina e odiados opositores da ditadura uruguaia. Foram os presos que inauguraram a crônica de horrores da Orletti. Os corpos dos dois foram encontrados três dias mais tarde, com marcas de tortura e tiros na cabeça, no porta-malas de uma camionete, sob um viaduto a dez quilômetros da Casa Rosada, o palácio presidencial ocupado então pela junta do general Videla, que dois meses antes derrubara Isabelita Perón.

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O poeta e a neta 

Havia um único estrangeiro entre os 18 condenados da Condor na semana passada. Era o coronel uruguaio Manuel Cordero Piacentini, 78 anos. Integrava a equipe de Gavazzo na central de torturas da Orletti e participou das operações de sequestro e translado ilegais de uruguaios presos em Buenos Aires e levados para Montevidéu. Recebeu a maior pena, 25 anos de prisão, como o agente Furci e o general Riveros.

Cordero foi extraditado do Brasil para a Argentina em 2010, após uma longa batalha judicial no Supremo Tribunal Federal, em Brasília, enredado nas manhas da Lei da Anistia de 1979 que estende a impunidade aos torturadores. O relator do caso, ministro Marco Aurélio, bradava que ninguém podia ficar desaparecido por tanto tempo e, assim, os crimes imputados ao coronel estariam prescritos. O reaparecimento de Simón Riquelo desmontou a tese do ministro. O ministro César Peluzo pediu vistas, reconheceu a tese do desaparecimento forçado, o que justificava o crime continuado, e a extradição acabou concedida por 6 votos a 2 em agosto de 2009. Assim, liberando Cordero para julgamento por crimes de lesa-humanidade na Condor, o STF adotou um juízo curioso, que vale para a Argentina, mas não vale para o Brasil.

Cordero não estava no tribunal para ouvir sua sentença, por isso não cruzou com uma de suas vítimas, Macarena Gelman, 39 anos, que estava lá como testemunha do caso. A mãe, Maria Cláudia, e o pai, Marcelo, filho do renomado poeta argentino Juan Gelman (1930-2014), foram presos pela Condor e torturados na Orletti de Cordero. O casal foi transferido para Montevidéu e Maria Cláudia, grávida, deu à luz uma menina ainda na prisão clandestina, em 1977. Os pais, mortos pela tortura, desapareceram na cova anônima de um quartel uruguaio e o bebê foi criado por repressores. Com o sonho indomável de poeta, Juan Gelman buscou sem cessar sua neta e acabou encontrando Macarena só em 2000, quando ela tinha já 23 anos, antecipando assim em dois anos o feliz reencontro de Sara e Simón.

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Um brasileiro especialista na Condor 

Cordero, o torturador uruguaio que levou à morte os pais de Macarena, só estava sentado no banco dos réus graças à determinação de um brasileiro. Procurado pela justiça uruguaia por crimes na ditadura, o coronel fugiu do país em julho de 2004. Passou por São Paulo, onde se submeteu a uma cirurgia, e desapareceu. Parecia esquecido por todos, menos por seu implacável perseguidor: o ativista brasileiro Jair Krischke, presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH). Ainda forte e rijo aos 77 anos, dono de uma ondulada cabeleira branca imponente como sua voz grave, esse gaúcho de Porto Alegre tornou-se o mais respeitado especialista em Condor do país, graças à sua incansável militância de mais de 40 anos.

Krischke é um improvável herói brasileiro, mais conhecido e reconhecido fora do que dentro do Brasil por abraçar uma causa que o País ainda trata com desleixo e desdém: os direitos humanos e os crimes de lesa-humanidade das ditaduras no Cone Sul, temas que o tornam presença indispensável em seminários e encontros de especialistas em Buenos Aires, Santiago, Montevidéu, e outras capitais angustiadas pelo drama da Operação Condor. Sua ONG, instalada numa sala apertada do nono andar de um edifício na avenida Borges de Medeiros, no coração da capital gaúcha, sobrevive com a contribuição mensal de seus poucos militantes. Pelo estatuto, o MJDH não pode receber verbas públicas. “Somos pobres, mas limpinhos”, brinca Krischke. Apesar disso, tem o mais relevante arquivo sobre a Condor no Brasil, aberto permanentemente a jornalistas e pesquisadores, em sua maioria do exterior.

A autoridade moral de Krischke não depende dos documentos secretos que armazena, mas da história de coragem e luta que o caracteriza. Nos anos mais duros da repressão nos anos 1970, refugiados de países vizinhos só tinham nele a mão amiga para sobreviver. Fugiam de seus algozes no Uruguai, Argentina, Chile ou Paraguai para buscar a liberdade na Europa. A escala obrigatória era Porto Alegre. Krischke fazia os contatos, arranjos burocráticos e translados para o Rio de Janeiro, muitos escoltados pessoalmente por ele para o escritório carioca do ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados) que providenciava o salvo-conduto para quem recebia asilo de nações europeias. Cerca de 2.000 pessoas escaparam da morte e ganharam a liberdade graças às mãos solidárias de Krischke.

Em certo sentido, ele é uma inusitada mescla brasileira de Schindler, o salvador, e Wiesenthal, o caçador.

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O industrial alemão Oskar Schindler (1908-1974) foi espião da Abwehr, o serviço secreto do Exército de Hitler, e membro do Partido Nazista. Essas conexões permitiram que ele livrasse 1.200 judeus das câmaras de gás ao empregá-los em suas fábricas de esmalte e munição na Polônia e República Checa. A artimanha salvadora transformou-se em uma história de dignidade em meio ao horror da II Guerra Mundial popularizada no filme A lista de Schindler, de Steven Spielberg. Ganhou de Israel o título de ‘Justo entre as Nações’, concedido a gentios que arriscaram suas vidas para salvar judeus do Holocausto. É o único membro do Partido Nazista honrado com uma sepultura em Jerusalém, capital israelense.

O arquiteto austríaco Simon Wiesenthal (1908-2005), embora nascido no mesmo ano de Schindler, estava do outro lado. Passou por cinco campos de concentração, onde morreram 89 pessoas de sua família, e tentou o suicídio cortando os pulsos para escapar do trabalho escravo. Era um dos 85 mil sobreviventes judeus do campo de Mauthausen, na Áustria, onde os nazistas mataram 300 mil pessoas por exaustão. Dali, o último campo liberado pelos Aliados, em maio de 1945, Wiesenthal saiu aos 37 anos pesando apenas 41 kg para emergir no pós-guerra como o mais importante caçador de nazistas do mundo. Recolheu seu caderno de anotações, com os nomes de oficiais e soldados que conheceu no cativeiro, e auxiliou o Exército dos Estados Unidos a montar os processos do juízo nazista em Nuremberg. Mais de 1.100 criminosos foram identificados, localizados e presos com a ajuda de suas informações — incluindo Adolf Eichmann, o executor-chefe do III Reich, e Franz Stangl, comandante do campo de concentração de Treblinka, preso no Brasil em 1967.

A burocracia denuncia 

O lado caçador de Krischke, ao melhor estilo Wiesenthal, aflorou na perseguição implacável e solitária que fez ao coronel uruguaio da Condor. Fugitivo da justiça de Montevidéu, Cordero havia se escondido em Santana do Livramento, cidade gaúcha na fronteira, separada da uruguaia Rivera por uma única avenida. Com faro de repórter e rigor espartano, Krischke procurou descobrir a fonte de renda que sustentava o coronel na clandestinidade brasileira. Soube que, para receber regularmente sua aposentadoria como militar retirado, Cordero precisava firmar mensalmente um documento chamado ‘certificado de vida’. Com este fio de meada, o Wiesenthal gaúcho chegou no início de 2005 ao endereço de uma casa discreta no número 1.007 da rua Uruguai, na cidade de Livramento, o esconderijo de Cordero no Brasil. Horas depois, em Porto Alegre, Krischke repassou oficialmente a informação ao cônsul da Argentina, onde o juiz Guillermo Montenegro comandava uma caçada internacional ao coronel denunciado na Causa Condor.

Escorregadio, Cordero desapareceu outra vez e sumiu por dois anos. Até que reapareceu, distraído, no consulado uruguaio de Livramento, às 12h40 de uma quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007. Estava lá para firmar o ‘certificado de vida’ que daria à filha, em Montevidéu, o direito de receber sua aposentadoria. Duas horas depois, Krischke recebeu essa informação crucial da própria vice-chanceler do Uruguai, Belela Herrera, que telefonava da capital uruguaia pedindo sua ajuda. Na manhã seguinte, sexta, Krischke acionou a Interpol em Brasília. À tarde, instruído por ele, o cônsul em Livramento despistou o advogado de Cordero, que cobrava o certificado, adiando mais algumas horas a entrega do documento. Na tarde de segunda-feira, 26, desavisado, o coronel foi à delegacia fronteiriça da Polícia Federal para supostamente assinar o seu pedido formal de refúgio no Brasil, quando recebeu voz de prisão, informado ali que o STF tinha aprovado, três dias antes, sua extradição para a Argentina. O dia terminava, às 20h30, quando a vice-chanceler Belela ligou emocionada, de Montevidéu, para agradecer ao Wiesenthal brasileiro. Após muitos recursos junto ao STF, Cordero foi afinal extraditado para a Argentina, em janeiro de 2010, até acabar na inédita bancada de réus de Buenos Aires.

O vexame verde-amarelo

A gang de carrascos nazistas da Condor só caiu nas garras da justiça graças a um portentoso esforço de investigação, multinacional como a organização terrorista que estava julgando. Do Paraguai, vieram 4 milhões de fotogramas do ‘Arquivo do Terror’ descoberto após a queda da ditadura de Stroessner. Dos Estados Unidos, vieram milhares de registros desclassificados do Departamento de Estado, mostrando o papel da CIA e do FBI na sustentação das ditaduras de Pinochet e Videla. Do Chile, chegaram os informes da Vicaria de Solidariedade de Santiago. Do Brasil, vieram papéis da Comissão da Verdade. Da própria Argentina, brotaram 90 dossiês das Forças Armadas e 72 relatórios de órgãos de segurança interna da ditadura dos generais.

O papel dos Estados Unidos na sustentação e apoio às ditaduras da região ficou comprovado pela remessa de Washington à Causa Condor de 48 mil documentos sobre a repressão no Chile (1973-1990) e sobre a ‘guerra suja’ na Argentina (1976-1983). É uma humilhante comparação com os parcos arquivos cedidos pelo Governo americano ao brasileiro. O Itamaraty repassou à Comissão da Verdade míseros 68 documentos do Departamento de Estado, produzidos no período entre 1967 e 1977, que abrange apenas três dos cinco generais da ditadura (Costa e Silva, Médici e Geisel).

Considerando que a ditadura brasileira durou três vezes mais (21 anos contra sete), o Brasil recebeu um arquivo quase 60 vezes menor do que a Argentina. A comparação é ainda mais deprimente com o Chile, uma ditadura de 17 anos, mais breve que a brasileira, que recebeu 44 mil documentos de Washington, uma quantidade 650 vezes maior do que remetida a Brasília. Essa relação desproporcional ficará ainda mais vergonhosa, para o Brasil, após a solene declaração de Barack Obama, três meses atrás, de que vai liberar a Buenos Aires mais documentos desclassificados dos arquivos militares e de inteligência, como parte da “responsabilidade moral” que os Estados Unidos têm para com a Argentina.

Obama fez a promessa em Buenos Aires, diante do presidente, Maurício Macri, com quem se encontrou em 23 de março passado, véspera dos 40 anos do golpe de 1976 do general Videla. A coincidência da data enfureceu as entidades ligadas às famílias das vítimas, mas a visita de Obama ao Parque de La Memória teve um forte significado de reparação histórica. Ali, o presidente americano reconheceu as “verdades incômodas” e a “dívida com o passado” pelo apoio dos Estados Unidos à ditadura na década de 1970.

A pressa assassina 

Diante das quatro paredes de concreto com os nomes, por ordem alfabética, de 10.700 homens, mulheres e bebês mortos ou desaparecidos pelo terror de Estado, Obama declarou-se emocionado por estar no parque: “Este é um tributo à memória, mas também uma homenagem à valentia e à perseverança dos que recordam e se recusam a abandonar seus esforços na busca da verdade e da justiça. Que se cumpra a promessa de Nunca Más“, disse ele, fazendo uma menção às Avós da Plaza de Mayo, que se fizeram ostensivamente ausentes do ato, como forma de protesto. Obama teve o cuidado de não mencionar a Operação Condor.

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Nenhuma mesura de Obama às vítimas poderá apagar, na verdade, as digitais americanas na mortandade desatada pelos generais da Argentina com a indulgência e o apoio dos Estados Unidos, sob os governos Nixon (1969-74) e Ford (1974-77), quando a política externa de Washington tinha a inspiração satânica de um radical anticomunista, Henry Kissinger. Em 10 de junho de 1976, apenas dois meses e meio após o golpe de Videla, o chanceler e almirante César Guzzetti teve um encontro em Santiago do Chile com Kissinger, já secretário de Estado de Nixon.

O almirante entrou de coturno na conversa: “Nosso principal problema na Argentina é o terrorismo”, reclamou. O chanceler estadunidense sacou rápido, dando sem muxoxo o sinal verde para o terror de Estado, disfarçado numa frase de perfídia diplomática que, com a mesma eficácia do biquíni, ocultava o essencial sem deixar de mostrar tudo: “Se existem coisas a fazer, devem fazê-las rápido”, ensinou Kissinger, finalizando com um conselho digno de seu estilo cínico: “Mas, deveriam voltar logo que possível aos procedimentos normais”. Como se sabe, nem Videla e seus generais voltaram logo à normalidade democrática, nem Kissinger reclamou da violência prolongada — nem mesmo quando a Condor criou asas e decolou sob a indulgência plenária e os bons ventos soprados por Washington.

O garoto das águas

Como é praxe nas visitas presidenciais, Macri e Obama foram até a murada do parque para jogar flores nas águas geladas e barrentas do rio da Prata, transformado pela ditadura em depósito clandestino de presos que ali eram jogados, muitos deles ainda vivos. Um dos mais jovens era uma criança de 14 anos, um jovem magro de cabelos morenos cobrindo as orelhas, chamado Pablo Miguez. Foi preso com a mãe, membro do grupo guerrilheiro ERP, por um grupo armado do Exército que invadiu sua casa no bairro de Avellaneda em 12 de maio de 1977. Foi torturado com choques elétricos diante da mãe no centro clandestino El Vesubio e depois levado para a Escola de Mecânica da Armada, a notória ESMA, centro de torturas onde sobreviveram apenas 100 dos 4 mil presos que passaram por lá — entre eles não estava Pablo. A jornalista Lila Pastoriza, que saiu viva da ESMA, ficou um mês e meio ao lado de Pablo, que não era interrogado por ninguém. “Veja a que nos dedicamos agora”, comentou um carcereiro da ESMA, zombando da pouca idade do preso. “Um dia, um dos guardas o pegou pela mão e nunca mais soube dele”, contou a jornalista no tribunal.

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A imagem de Pablo ficou flutuando para sempre na consciência nacional e nas águas do Prata, onde ele parece caminhar na impactante estátua em aço polido da artista plástica Cláudia Fontes, que esculpiu no Parque de La Memória a figura de um garoto, com as mãos para trás, olhando o horizonte sem fim do grande rio onde se afogaram tantas vidas e esperanças. A obra está colocada de costa para a praia, a uns 50 metros da murada que recebeu Obama e Macri, e produz um forte efeito emocional em quem a vê. A dois quilômetros de distância está a ESMA, onde um dia Pablo viveu os últimos momentos de sua curta vida. Uma coisa rápida, como pedia Kissinger aos generais.

Pablo começou a morrer quando recebeu uma injeção anestésica que o deixou grogue, sonolento. Homens da Marinha, sem uniforme, descaracterizados com tênis, jeans e camiseta, o levaram para o Aeroparque, aeroporto doméstico a apenas 4 km da ESMA, e o embarcaram num Skyvan, um bimotor turboélice irlandês conhecido como ‘caixa de sapatos voadora’. Transportava 19 passageiros, era curto, bojudo e muito apreciado pela rampa traseira que facilitava a descarga de mercadoria. A ditadura argentina achou uma boa finalidade nesse avião para descartar suas ‘mercadorias’ humanas: decolava com sua carga de presos do Aeroparque até a altitude de 6 mil metros, a 300 km por hora, e de lá jogava sua carga no Prata. Antes de virar estátua, Pablo desapareceu assim, da mesma forma que outras 4.400 pessoas despejadas por ordem direta do almirante Emílio Massera, o nome mais sanguinário da junta militar.

A entrevista errada 

Vários corpos teimaram em reaparecer, a partir de maio de 1976, nas praias argentinas e uruguaias do Prata. Os restos com marcas de torturas localizados 300 km ao sul de Buenos Aires foram rapidamente sepultados como NN (no nombrados) no cemitério de General Lavalle, uma localidade rural às margens do rio, com pouco mais de 3 mil habitantes. Autópsias posteriores identificaram entre eles três fundadoras do grupo das Mães da Plaza de Mayo — Esther Ballestrino, Maria Eugenia Ponce de Blanco e Azuzena Villaflor.

Os corpos que ressurgiam nas praias distante do cabo Polônio — já na costa uruguaia do Atlântico, 260 km acima de Montevidéu — de certa forma voltavam para casa. Eram uruguaios exilados na Argentina, sequestrados pela Condor, torturados na Automotores Orletti do agente Furci e do coronel Cordero e arrojados das alturas no Prata. Deveriam desaparecer, mas ressurgiam teimosamente nas manchetes dos jornais, todos censurados, que se limitavam a informar sobre os achados macabros, sem avançar nos motivos e identidade dos assassinos. Apesar disso, todos sabiam ou imaginavam do que se tratava. Os detalhes só foram conhecidos uma década depois, em 1995, quando o capitão de corveta Adolfo Scilingo, hoje com 69 anos, contou ao jornalista Horácio Verbitsky a verdade sobre os vuelos de la muerte, que ele coordenou como integrante da ESMA. O depoimento virou um livro, El Vuelo, e o sucesso garantiu ao capitão um convite da TV estatal da Espanha para uma entrevista bombástica.

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Quando desembarcou em Madrid, em outubro de 1997, em vez do festejado apresentador da TVE Carlos Herrera, o capitão da ESMA foi desviado do estúdio para ser entrevistado num tribunal por outro espanhol: o juiz Baltazar Garzón, que ganharia renome mundial um ano mais tarde ao determinar a prisão do general Pinochet pelos crimes da Condor. Scilingo confirmou ao juiz os pormenores dos voos assassinos e nunca mais retornou à Argentina. Pelos crimes de lesa humanidade, a morte de 30 pessoas e a detenção ilegal e torturas em outras 256, o capitão foi condenado pela Suprema Corte espanhola a 1.084 anos de prisão.

A tragédia da Operação Condor, enfim julgada e condenada em Buenos Aires, mostra que Argentina e Brasil, agora, mostram uma inesperada convergência — para pior, no plano sensível dos direitos humanos.

O Brasil tem fracassado miseravelmente no seu acerto de contas com o passado. Enquanto os países mais importantes da região instalavam suas Comissões da Verdade no mesmo ano em que caíam suas ditaduras (Argentina em 1983, Uruguai em 1985 e Chile em 1990), o Brasil da eterna conciliação viu o último general deixar o Palácio do Planalto em 1985 e ainda esperou longos, insuportáveis 27 anos para implantar sua comissão.

Cinco presidentes civis — José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva — passaram omissos diante do tema, que só foi atacado em 2012 no governo de Dilma Rousseff, o único governante entre eles que carregava a condição de ex-guerrilheira, presa política e torturada na ditadura. Dilma teve o mérito de instalar a Comissão Nacional da Verdade (CNV), mas o demérito de não defendê-la contra a persistente sabotagem dos comandos militares, que ao longo de seu governo mostraram desdém, desatenção e clara hostilidade aos trabalhos de investigação.
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Os generais ignoraram ostensivamente os fatos, nomes e datas de centros de torturas e mortes comprovadas em um minucioso requerimento que a CNV apresentou aos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica. Na resposta evasiva, desleixada, que deram ao requerimento, os generais chegaram ao requinte de ignorar até as torturas de 22 dias a que submeteram a guerrilheira Dilma Rousseff, em 1970, no mais afamado centro de violências do Exército, o DOI-CODI da rua Tutoia, administrada pelo II Exército (atual Comando Militar do Sudeste), em São Paulo.

Apesar do deboche explícito, nem o passivo ministro da Defesa, Celso Amorim, nem a torturada Dilma Rousseff — a comandante suprema das Forças Armadas — fizeram valer a sua autoridade. Engoliram a afronta em seco. A cínica ditadura brasileira fingiu, sempre, que não participou da fundação da Operação Condor em Santiago do Chile, em novembro de 1975.

O coronel chileno Manuel Contreras, chefe da temida DINA de Pinochet, queria um encontro da cúpula da repressão regional em seu país. Mandou o vice-chefe da DINA, o coronel da Força Aérea Mário Jahn, percorrer as capitais do Cone Sul para entregar o convite em mãos. Quase 30 anos depois, quando depôs ao juiz Juan Guzmán, o primeiro do Chile que ousou processar o intocável Pinochet, o coronel Jahn não lembrava onde e a quem entregou os convites. Só lembrou de um destinatário: “João Batista Figueiredo, persona que conocía de un viaje anterior que hice a Brasil“. Figueiredo, então chefe do SNI, só não decolou de Brasília porque foi contido pelo presidente Ernesto Geisel, que não queria dar tanto prestígio a Pinochet. Ele ordenou que outros fossem no lugar de Figueiredo.

Os 44 mil documentos do Departamento de Estado que poderiam esclarecer o assunto nunca informaram quais eram os brasileiros.

Intrigado com essa lacuna, investiguei durante dois anos, nas entranhas da ditadura, para concluir meu livro sobre a Operação Condor (*), lançado em 2008. Então, revelei os nomes dos dois brasileiros autorizados por Geisel e indicados por Figueiredo para representar o Brasil no encontro: o coronel Flávio de Marco e o major Thaumaturgo Sotero Vaz, ambos do Centro de Informações do Exército (CIE) e veteranos do combate à guerrilha do Araguaia. A dupla viajou com uma ordem estrita de Geisel: participar apenas como observadores, sem autorização para assinar a ata de fundação da Condor. Eles foram, viram, ouviram, falaram e participaram, fingindo que não estavam ali. O Brasil saiu à francesa do evento histórico da Condor.

O coronel De Marco morreu de infarto aos 52 anos, em 1984, quando exercia o cargo de diretor-administrativo do Palácio do Planalto no Governo Figueiredo. O major Thaumaturgo, hoje general da reserva, sobreviveu a tudo e trabalhava em 2012 como assessor parlamentar do Comando Militar da Amazônia (CMA). Conforme a página 223 do Capítulo 6 do relatório final da CNV, dedicado às ‘Conexões Internacionais: a aliança repressiva no Cone Sul e a Operação Condor’, o general Thaumatugo alegou razões de saúde e recusou duas convocações da CNV para cumprir seu dever para com a Pátria e revelar o que sabe na condição de testemunha ocular da história da Condor.

Nem o comandante do Exército, nem o ministro da Defesa, nem a presidente Dilma mostraram qualquer contrariedade com a falta de colaboração do general que viu a serpente sair do ovo. E engoliram em seco o desaforo. A CNV fez a sua parte e a presidente guerrilheira, não.

A primeira das 29 medidas propostas pela CNV em seu relatório final pede o reconhecimento, pelas Forças Armadas, de sua responsabilidade nas torturas e violências cometidas durante o regime de arbítrio — uma impossibilidade prática enquanto prevalecer a inércia dos comandantes militares e a apatia dos presidentes civis. A segunda recomendação da CNV, que se impõe como dever histórico e exigência de cortes internacionais, é a revogação da Lei de Anistia que a ditadura desenhou com esmero, em agosto de 1979, para beneficiar os seus torturadores com o privilégio da impunidade.

Ao Executivo inerte se somou a omissão crônica do Legislativo. Num Parlamento brasileiro com 513 deputados e 81 senadores, existem apenas duas propostas para revisar esta obscena ‘lei de autoanistia’ que os militares fizeram aprovar por apenas cinco votos (206 a 201) num Congresso emasculado pelos atos institucionais — tudo para garantir à força a hegemonia na Câmara dos Deputados do partido da ditadura, a ARENA (221 cadeiras), sobre a frente de oposições abrigada no MDB (186). Um projeto da deputada Luíza Erundina (então PSB-SP) e outro do senador Randolfe Rodrigues (hoje REDE-AP), ambos pedindo a revisão da Anistia de 1979 para permitir a punição aos torturadores, são as únicas manifestações parlamentares que confirmam a omissão e o desinteresse de um Congresso conservador, desatento à História e aos seus compromissos éticos para com a verdade.

Nenhum avanço pela punição aconteceu no governo da ex-guerrilheira Dilma, nada certamente acontecerá no retrógrado governo interino de seu sucessor. O regressista Michel Temer mostrou em apenas três semanas de poder trepidante um dos mais desastrados inícios de administração da história da República, graças a uma notável equipe de nítido conteúdo conservador, claras convicções de retrocesso, forte índole reacionária e controversa integridade na sensível área da moralidade pública. Temer não lembrou de nenhuma ‘representante do mundo  feminino” para integrar seu ministério num país onde 103 milhões (51,4%) da população são mulheres. Descobriu para a rebaixada Secretaria das Mulheres uma crente evangélica que é contra o aborto até mesmo em casos de estupro, contrariando o que diz a lei. Retirou o status de ministério da Secretaria de Direitos Humanos e, pior, ressuscitou o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), disfarçado como Secretaria.

O general quatro estrelas, Sérgio Etchegoyen, 64 anos, é um militar de fortes ligações familiares com a linha dura de duas ditaduras. Foi assessor especial do ministro Nelson Jobim no governo Lula e chefe do Estado Maior do Exército (EME) no governo Dilma O avô de Etchegoyen, Alcides, foi chefe de polícia do Estado Novo (1937-45) do ditador Vargas, substituindo o notório Filinto Muller. O pai, Léo, era major e chefe da polícia gaúcha em Porto Alegre, logo após o golpe de 1964, quando recebeu com estilo o agente americano Dan Mitrione. Em junho, ele posou para fotos na escadaria do Palácio da Polícia com o ilustre visitante, especialista em torturas que dava seu know-how à repressão no Rio, como responsável no Brasil do Office Public Safety (OPS), braço da CIA que atuava na América Latina sob a fachada da USAID. Mitrione foi transferido em 1969 para o Uruguai, para disseminar suas habilidades. Lá foi sequestrado pelos Tupamaros e executado na prisão da guerrilha em 1970.

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Em 1979, já general em São Paulo, Leo Etchegoyen era chefe do Estado-Maior do II Exército e, como tal, responsável direto pelo DOI-CODI, o centro de suplícios onde atuou o coronel Brilhante Ustra, o torturador festejado pelo deputado Jair Bolsonaro no seu polêmico voto na sessão que aprovou a continuidade do proecesso de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. Um tio, Cyro Etchegoyen, foi apontado pelo coronel Paulo Malhães em depoimento à CNV como a autoridade responsável pela ‘Casa da Morte’, centro clandestino de tortura e morte montado pelo DOI-CODI do I Exército na cidade serrana de Petrópolis.

O general Sérgio não falou do tio, mas se incomodou pelo pai, citado no relatório final da CNV de dezembro de 2014 como um dos 377 agentes do Estado brasileiro responsáveis por crimes na ditadura. Na condição de único general da ativa a confrontar publicamente a CNV, ele a acusou de ‘leviana’ em nota oficial. “No seu patético esforço para reescrever a história, a CNV apontou um culpado para um crime que não identifica”, protestou o general, em nome da mãe e quatro irmãos. Levou de volta no mesmo dia uma dura resposta da CNV, que lembrou fatos que o general Etchegoyen esquecia sobre o pai.

Além da acolhida ao torturador Mitrione, que o general não lembrou, a CNV cita que Léo, em 28 de dezembro de 1979, “na qualidade de chefe do Estado-Maior e supervisor das atividades do DOI-CODI, fez calorosos elogios aos serviços prestados pelo tenente-coronel Dalmo Lúcio Muniz Cyrilo, chefe do DOI-CODI/II Exército”. Para refrescar a memória do Etchegoyen filho, a CNV lembrou que Cyrillo atuou “como chefe de equipes de interrogatório do DOI-CODI, tendo desempenhado a função de subcomandante nos períodos de Brilhante Ustra e Audir Santos Maciel” — os dois coronéis, por sinal, citados na lista dos 377 agentes da ditadura, ao lado do tio e do pai do general Etchegoyen.

A CNV pisou mais fundo, relembrando na sua resposta: “Em 1980, quando Léo Etchegoyen era chefe do EM do II Exército, seu comando esteve vinculado ao planejamento da prisão coletiva de sindicalistas e lideranças dos metalúrgicos da região metropolitana de São Paulo conhecida como ABCD, bem como do sequestro de integrantes de organizações de direitos humanos que prestavam solidariedade a esses trabalhadores, como os advogados José Carlos Dias — então presidente da Comissão Justiça e Paz (CJP) da Arquidiocese de São Paulo — e Dalmo Dallari — ex-presidente da CJP—, prisões efetuadas com violência, sem mandado de prisão e sem a devida comunicação às suas famílias”. O general não rebateu a nota da CNV.

Apesar desses antecedentes, ou por causa deles, o general Sérgio Etchegoyen é um dos notáveis do novo governo, indicado pelo presidente interino para assumir a Secretaria de Segurança Institucional.

Assim, enquanto a Argentina faz história na inédita condenação dos criminosos da Condor, o Brasil marca passo e retrocede. Depois de cinco generais-presidentes responsabilizados pela violência da ditadura, Brasília abrigou, em sequência, seis presidentes civis omissos diante da impunidade dos torturadores. E chega ao fundo do poço, agora, com o inesperado e exasperante Governo Temer.

Que vergonha, Brasil!

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Luiz Cláudio Cunha, é jornalista, e autor do livro Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios(ed. LP&M, 2008)

Fonte:

Brasil e Argentina, duas atitudes totalmente diferentes

3ão Salesiano Dom Bosco 2016 – Textos de aluno(a)s sobre Imperialismo

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No último dia 04, realizamos a AV1 do II trimestre, da qual fez parte a questão discursiva a seguir:

PARTE II – QUESTÃO DISCURSIVA (valor = 1,0)

QUESTÃO 01

Imagem1http://www.google.com.br/imagens

   Com base nos conhecimentos sobre Imperialismo, analise o texto não verbal apresentado acima.

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Selecionei algumas respostas e, com autorização do(a)s autore(a)s, compartilho a seguir os primeiros textos que já recebi.

Boas leituras!

Texto 01 – João Pedro Rocha – 3º A

Depois de feita a análise do texto não verbal, é possível identificar vários elementos importantes para entender o imperialismo x globalização.  Primeiramente, a bandeira dos EUA está como destaque na análise, pelo fato de, durante a história, ter seu país ligado ao imperialismo muitas vezes. Esse imperialismo está presente em alguns países da América Latina, nos blocos econômicos, nos quais os EUA estão presentes, na ONU, onde mantém relações extra-diplomáticas a favor dos seus interesses políticos, entre outros. O segundo elemento são as transnacionais presentes no mundo todo, com os seus produtos de altíssima qualidade, entretanto produzido por uma mão de obra com condições análogas à escravidão. Como, por exemplo, a Nike, que já sofreu denúncias de trabalho escravo no Vietnã. Todos esses elementos transparecem ao mundo que este é totalmente globalizado, onde as fronteiras sociais e geográficas não existem mais. Um mundo também com a cultura americana disseminada entre quase todos os países ocidentais. Todavia, ignoram o fato de que essa globalização é erguida pelos que não tem vozes e que pode ser conceituada com a famosa frase de Maquiavel, “os fins justificam os meios “.

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Texto 02 – João Pedro Rego de Oliveira – 3º B

Os Estados Unidos, a partir da Primeira Guerra Mundial, começaram a construir um grande poder econômico e militar, o que proporcionou a eles o “comando” de diversos países. Com um elevado índice de lucro e representatividade, muitas são as empresas, as quais querem ter demasiadas fábricas, produtoras de suas mercadorias, o que leva os Estados Unidos a engrandecerem seu “marketing mundial”. Muitas empresas como a “Apple” e a “Disney” aproveitam-se do alto índice populacional estadunidense e o utilizam para ampliar este número quando as pessoas viajam exteriormente com destino a outros países e até internamente, em pouquíssimas regiões, onde não há, ainda, uma grande taxa de pessoas aproveitando as mercadorias e reproduzindo o que veem nas televisões. Analisar um fato como este, em que os logotipos influenciam e modificam o modo e a maneira de agir e pensar é de extrema importância, o que se leva à conclusão de que os Estados Unidos, por mais mínima que seja, estão vinculados a quase todos os países, a partir de suas empresas, que não são poucas.  .

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Texto 03 – Lara Teixeira – 3º B

O imperialismo, sistema político, social e cultural de uma potência econômica sobre outras nações, tem caráter expansionista, onde impõe suas características, principalmente no cinema, na música, e nos sistemas de “Fast food”, pelos Estados Unidos, e pela expansão de suas marcas e mercados sobre outros países “dominados”.

Com a constante globalização e expansão dos sistemas norte americanos imperialistas, este espalha pelo mundo, de forma inteligente, seus produtos, e cada vez mais cresce como potência capitalista.

A imagem faz alusão ao avanço da cultura estadunidense que funciona como um modelo ao mundo, impondo seus valores e suas construções, de forma a abranger toda população mundial e potencializar suas marcas e seu país de forma devastadora, o que traz poder e riqueza à sua nação.

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Texto 04 – Lorena Barreto – 3ºB

A imagem pode ser entendida como a ação imperialista dos EUA na atualidade. Através das multinacionais espalhadas nos vários países e em diversos setores, os Estados Unidos conseguem participar direta e indiretamente tanto na economia dos países-sede, quanto na estrutura social, disseminando sua cultura e alienando a sociedade em favor dos seus produtos, criando então certa dependência desses Estados em relação ao capital americano. Além disso, conseguem ampliar seus mercados consumidores e a expansão capitalista, fortificando mais sua economia e “supremacia”.

O avanço da globalização é bastante importante para que os EUA consigam abranger maiores áreas com seu imperialismo, pois é um meio de fácil e rápida pulverização de informações e que aos poucos vai homogeneizando os diferentes povos, fazendo com que essa potência cresça ainda mais e dissemine seus objetivos e o imperialismo capitalista.

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Texto 05 – Agni de Jesus – 3º B

Os Estados Unidos, enquanto uma nação imperialista, conquistaram um largo espaço mundial de uma forma bastante particular. Enquanto o mundo estava acostumado a um imperialismo militar, os Estados Unidos o fizeram de forma diferente; por meio dos produtos, marcas e empresas multinacionais que levavam consigo a ideologia e a cultura do país e também por meio de empréstimos monetários com o FMI, que mantinham os países com dívidas e dependentes. Tais fatos podem ser associados à imagem acima, quando é exposta a tão conhecida bandeira dos EUA com uma significativa modificação; no lugar das estrelas foram representadas as logomarcas de grandes empresas americanas. Essa modificação serve para lembrar a forte influência dessas empresas em quase todo o mundo, ou seja, estão sendo expostos símbolos do imperialismo americano no mundo através de seus produtos.

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Texto 06 – Matheus Loureiro – 3º B

A bandeira dos EUA, potência mundial, traz consigo marcas que são extremamente ricas e que são referências mundiais. Essas corporações, cada vez mais, procuram expandir o seu mercado consumidor e área de influência, levando em conjunto uma forma de dominação oculta aos vossos olhos, que conhecemos como imperialismo.
Essa forma de dominação influencia arduamente na cultura dos países dominados, como Brasil e Canadá, que tentam acompanhar o estilo de vida norte americano. É comum visualizar nos países citados, o valor social que se dá a produtos de marcas presentes na imagem como Iphone, tênis da Nike, café do Starbucks, dentre outros.
O valor social agregado de certos produtos é uma consequência do fetiche da mercadoria, previsto em ”O capital” de Karl Marx. Essa ferramenta age na massa social que insere um valor sentimental a certos bens de consumo, além de ser um instrumento utilizado pelos Estados Unidos com o objetivo de garantir a sua influência em diversos territórios.

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Texto 07 – Esaú Moreira – 3º A

O texto não verbal apresenta as grandes marcas dos mais variados setores que têm origem estadunidense, deixando de forma clara o poder que o país tem no mercado internacional. Com o fenômeno da globalização cada vez mais presente no mundo inteiro é natural que a maior potência mundial (os Estados Unidos da América) esteja presente. Um exemplo disso são as redes de fast-food que estão espalhadas no mundo todo, ou até mesmo na montagem de veículos que na maioria das vezes, envolve peças de vários países. Uma estratégia muito comum utilizada pelos norte-americanos é a compra de patentes visando um lucro futuro, como uma nação imperialista vale muito á pena “ostentar” suas grandes marcas.

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Texto 08 – Fernanda Pascoal – 3º A
A globalização fez com que as transnacionais (empresas que tem sede em local desenvolvido e que colocam filiais em outros locais do mundo por mão de obra mais barata e fornecedor de matérias primas) ficassem conhecidas popularmente no mundo. Como no imperialismo, em que países como a Inglaterra queriam dominar outros países, expandir seu mercado e seus negócios a fim de ampliar cada vez mais, é o que acontece com essas marcas como McDonald, Google, Apple, para ser muito consumidas, que são marcas também totalmente capitalistas e por fim colocar várias outras filiais espalhadas pelo mundo. Todo esse processo desencadeia o poder do capitalismo, a ampliação dos seus mercados, expansão das marcas, mão de obra barata e mais matéria prima, tudo o que os países imperialistas queriam.

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Texto 09 – Teila Almeida – 3º A
O imperialismo, como sendo uma forma de domínio e disseminação de poder, foi uma grande influência para a expansão de ideais e do comércio de alguns países. Para alcançar a escala global, muitos países precisaram adotar medidas imperialistas que os colocavam como superiores, como por exemplo, os Estados Unidos, que usavam justificativas como o Destino Manifesto, que afirmava que o povo estadunidense era superior e viera ao mundo com a missão de civilizar e dominar todas as nações.
Atualmente, os EUA são a maior potência mundial, pois usam de artifícios e acordos comerciais para intensificar cada vez mais o seu desenvolvimento. Dentre esses acordos, pode-se citar a Emenda Platt, que concedia a sua intervenção em Cuba, a construção do canal do Panamá e também a diplomacia do dólar, que gerava dependência econômica dos países para com os Estados Unidos. Conclui-se que o imperialismo foi/é, a principal causa da globalização, sendo também o influenciador do avanço estadunidense, em escala tão grande.

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Texto 10 – Mariana Reis – 3º B
A maioria das empresas e marcas que circulam o mundo são de origem estadunidense, o que configura em um imperialismo, que pode ser econômico, cultural ou social. Tal fato movimenta a economia do país e o transforma em uma potência mundial. O consumismo é fundamental para a propagação desses simbolismos nas redes globais. Em relação ao contexto contemporâneo, o imperialismo cultural pode ser definido como interferências às instituições e a identidade de povos oprimidos para fins das classes imperialistas, que é propagado de modo agressivo que suprime as tradições locais. Tem-se como exemplo, a indústria cultural dos EUA, que é a mais expressiva, propagando costumes, filmes, marcas, símbolos, livros entre outros, para todo o mundo e consequentemente dando a ideia de homogeneidade, além de ser uma forma de manutenção da sua hegemonia.

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Texto 11 – Juliana Brito – 3º A
A imagem acima representa bem o Imperialismo estadunidense, pois os EUA sempre quiseram dominar todos, valendo-se de justificativas fajutas como a defesa de ser uma raça especial e ter o “peso” de nortear todos os outros que não são. Defendem também que é este o destino da nação estadunidense; quando se referem a si mesmos como americanos, estão excluindo todos da América Central e Sul, quando na verdade, todos são americanos, inclusive nós brasileiros. Como os Estados Unidos não podem implantar o colonialismo no mundo todo — apesar de quererem –, praticam o imperialismo através da criação de multinacionais que movem a economia do mundo todo, sendo elas no meio do entretenimento, como a Disney e a Warner, ou no meio alimentício como a Coca-Coca e a Pepsi. Por meio das empresas, reafirma o posto de maior economia do mundo, deixando subentendido que além de país, Estado, é um Império.

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Texto 12 – Amanda Adne – 3º A

A mundialização do capital é reflexo dos interesses das grandes potências capitalistas na busca por mercados consumidores, mão de obra barata, matéria prima e expansão. Com o advento tecnológico, a rapidez da circulação de informações e a facilidade da comunicação, esses interesses foram firmados. Diante disso, o mundo se tornou uma grande aldeia global em que os países desenvolvidos exercem uma espécie de liderança sobre os países subdesenvolvidos. Somado a isso, as grandes potências instalam multinacionais dentro desses países subdesenvolvidos, e estes fornecem mão de obra barata, espaço e matéria prima. Além disso, os países menos desenvolvidos ainda serão consumidores dos produtos fabricados em seu território. Portanto, esse fenômeno que permeia sobre o imperialismo e o processo de globalização, favorece cada vez mais as grandes potências, dando destaque aos Estados Unidos.

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Texto 13 – Juliane Schmitt – 3º A

As ações imperialistas são em sua maioria de cunho de dominação, seja ela econômica, política, territorial ou social. As marcas são selos que representam a dominação, criando assim verdadeiros fiéis de um mercado consumidor globalizado. Os símbolos usados, sempre são remetidos aos países de sua origem, como a exemplo dos Estados Unidos, que são cotidianamente citados no mundo todo por conta de suas marcas. A Mc Donald’s e a coca-cola são a demonstração de como as mentes são dominadas por invenções estadunidenses. No Nepal, em regiões montanhosas, é possível encontrar a venda de coca-cola. Um lugar recentemente destruído por um terremoto, que possui um “símbolo de felicidade”, que carrega em sua essência o império americano.

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Texto 14 – Mariana Couto – 3º A

Desde o fim da segunda guerra é perceptível o domínio imperialista dos Estados Unidos da América (EUA). Fato esse que se consumou ainda mais com a era da informática se espalhando pelo globo, através da globalização.

Empresas e marcas locais viraram as multinacionais que comandam pessoas de todo o mundo, viraram grandes exploradoras de mão de obra infantil. Onde já se viu crianças escravas fazendo bonecos e bonecas para outras brincarem? Grandes continentes explorados e minados, adultos, crianças, adolescentes e idosos sonhando com o modo de vida americano. Famílias norte americanas viraram objetivos de vida, criaram-se consumidores frenéticos por produtos importados. Pessoas agora são rótulos. Todos nós somos o fruto de uma ideologia expansionista e imperialista que comanda o mundo.

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Sobre o Protestantismo no Brasil – 03 textos

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Texto 01 – O novo retrato da fé no Brasil

Pesquisas indicam o aumento da migração religiosa entre os brasileiros, o surgimento dos evangélicos não praticantes e o crescimento dos adeptos ao islã

O novo retrato da fé no Brasil

RODRIGO CARDOSO

19.08.11 

 

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Acaba de nascer no País uma nova categoria religiosa, a dos evangélicos não praticantes. São os fiéis que creem, mas não pertencem a nenhuma denominação. O surgimento dela já era aguardado, uma vez que os católicos, ainda maioria, perdem espaço a cada ano para o conglomerado formado por protestantes históricos, pentecostais e neopentecostais. Sendo assim, é cada vez maior o número de brasileiros que nascem em berço evangélico – e, como muitos católicos, não praticam sua fé. Dados da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelaram, na semana passada, que evangélicos de origem que não mantêm vínculos com a crença saltaram, em seis anos, de insignificantes 0,7% para 2,9%. Em números absolutos, são quatro milhões de brasileiros a mais nessa condição. Essa é uma das constatações que estatísticos e pesquisadores estão produzindo recentemente, às quais ISTOÉ teve acesso, formando um novo panorama religioso no País.

Isso só é possível porque o universo espiritual está tomado por gente que constrói a sua fé sem seguir a cartilha de uma denominação. Se outrora o padre ou o pastor produziam sentido à vida das pessoas de muitas comunidades, atualmente celebridades, empresários e esportistas, só para citar três exemplos, dividem esse espaço com essas lideranças. Assim, muitas vezes, os fiéis interpretam a sua trajetória e o mundo que os cerca de uma maneira pessoal, sem se valer da orientação religiosa. Esse fenômeno, conhecido como secularização, revelou o enfraquecimento da transmissão das tradições, implicou a proliferação de igrejas e fez nascer a migração religiosa, uma prática presente até mesmo entre os que se dizem sem religião (ateus, agnósticos e os que creem em algo, mas não participam de nenhum grupo religioso). É muito provável, portanto, que os evangélicos pesquisados pelo IBGE que se disseram desvinculados da sua instituição estejam, como muitos brasileiros, experimentando outras crenças.

É cada vez maior a circulação de um fiel por diferentes denominações – ao mesmo tempo que decresce a lealdade a uma única instituição religiosa. Em 2006, um levantamento feito pelo Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris) e organizado pela especialista em sociologia da religião Sílvia Fernandes, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), verificou que cerca de um quarto dos 2.870 entrevistados já havia trocado de crença. Outro estudo, do ano passado, produzido pela professora Sandra Duarte de Souza, de ciências sociais e religião da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), para seu trabalho de pós-doutorado na Universidade de Campinas (Unicamp), revelou que 53% das pessoas (o universo pesquisado foi de 433 evangélicos) já haviam participado de outros grupos religiosos.

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ALÁ
Nogueira, muçulmano há um ano: no Rio, os convertidos
saltaram de 15% da comunidade para 85% em 12 anos

“Os indivíduos estão numa fase de experimentação do religioso, seja ele institucionalizado ou não, e, nesse sentido, o desafio das igrejas estabelecidas é maior porque a pessoa pode escolher uma religião hoje e outra amanhã”, afirma Sílvia, da UFRRJ. “Os vínculos são mais frouxos, o que exige das instituições maior oferta de sentido para o fiel aderir a elas e permanecer. É tempo de mobilidade religiosa e pouca permanência.” Transitar por diferentes crenças é algo que já ocorre há algum tempo. A intensificação dessa prática, porém, tem produzido novos retratos. Denominadores comuns do mapa da circulação da fé pregam que católicos se tornam evangélicos ou espíritas, assim como pentecostais e neopentecostais recebem fiéis de religiões afro-brasileiras e do protestantismo histórico. Estudos recentes revelam também que o caminho contrário a essas peregrinações já é uma realidade.

Em sua dissertação de mestrado sobre as motivações de gênero para o trânsito de pentecostais para igrejas metodistas, defendida na Umesp, a psicóloga Patrícia Cristina da Silva Souza Alves verificou, depois de entrevistar 193 protestantes históricos, que 16,5% eram oriundos de igrejas pentecostais. Essa proporção era de 0,6% (27 vezes menor) em 1998, como consta no artigo “Trânsito religioso no Brasil”, produzido pelos pesquisadores Paula Montero e Ronaldo de Almeida, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Para Patrícia, o momento econômico do Brasil, que registra baixos índices de desemprego e ascensão socioeconômica da população, reduz a necessidade da bênção material, um dos principais chamarizes de uma parcela do pentecostalismo. “Por outro lado, desperta o olhar para valores inerentes ao cristianismo, como a ética e a moral cristã, bastante difundidas entre os protestantes históricos”, afirma.

Em busca desses valores, o serralheiro paraibano Marcos Aurélio Barbosa, 37 anos, passou a frequentar a Igreja Metodista há um ano e meio. Segundo ele, nela o culto é ofertado a Deus e não aos fiéis, como acontecia na pentecostal Assembleia de Deus, a instituição da qual Barbosa foi devoto por 16 anos, sendo sete como presbítero. O serralheiro cumpria à risca os rígidos usos e costumes impostos pela denominação. “Eu não vestia bermuda nem dormia sem camisa, não tinha tevê em casa, não bebia vinho, não ia ao cinema nem à praia porque era pecado”, conta. Com o tempo, o paraibano passou a questionar essas proibições e acabou migrando. “Na Metodista encontrei um Deus que perdoa, não um justiceiro.”

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AMÉM
É cada vez mais comum ex-pentecostais, como o atual metodista Barbosa,
que foi pastor da Assembleia de Deus (acima), aderirem às protestantes históricas

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A teóloga Lídia Maria de Lima irá defender até o final do ano uma dissertação de mestrado sobre o trânsito de evangélicos para religiões afro-brasileiras. A pesquisadora já entrevistou 60 umbandistas e candomblecistas e verificou que 35% deles eram evangélicos antes de entrar para os cultos afros. Preterir as denominações cristãs por religiões de origem africana é outro tipo de migração até então pouco comum. Não é, porém, uma movimentação tão traumática, uma vez que o currículo religioso dos ex-evangélicos convertidos à umbanda ou ao candomblé revela, quase sempre, passagens por grupos de matriz africana em algum momento de suas vidas. Pai de santo há dois anos, o contador Silvio Garcia, 52 anos, tem a ficha religiosa marcada por cinco denominações distintas – e a umbanda é uma delas. Foi aos 14 anos, frequentando reuniões na casa de uma vizinha, que Garcia, batizado na Igreja Católica, aprendeu as magias da umbanda. Nessa época, também era assíduo frequentador de centros espíritas. Aos 30, ele passou a cursar uma faculdade de teologia cristã e, com o diploma a tiracolo, tornou-se presbítero de uma igreja protestante. Um ano depois, migrou para uma pentecostal, onde pastoreou fiéis por seis anos. “Mas essas igrejas comercializam a figura de Cristo e eu não me sentia feliz com a minha fé”, diz.

A teóloga Lídia sugere que os sistemas simbólicos das religiões evangélica e afro-brasileira têm favorecido a circulação de fiéis da primeira para a segunda. “Há uma singularidade de ritos, como o fenômeno do transe. Um dos entrevistados me disse que muito do que presenciava na Igreja Universal (do Reino de Deus) ele encontrou na umbanda”, diz. Em suas pesquisas, fiéis do sexo feminino foram as que mais cometeram infidelidade religiosa (67%). Os motivos que levam homens e mulheres a migrar de religião (leia quadro à pág. 60) foram investigados pela professora Sandra, da Umesp. Em outubro, suas conclusões serão publicadas em “Filosofia do Gênero em Face da Teologia: Espelho do Passado e do Presente em Perspectiva do Amanhã” (Editora Champanhat).

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SALVAÇÃO
Homens pensam em si quando buscam uma nova crença:
Higuti, pastor da Bola de Neve, queria se livrar das drogas

Uma diferença básica entre os sexos é que as mulheres mudam de religião em busca de graça para quem está a sua volta (a cura para filhos e maridos doentes ou a recuperação do casamento, por exemplo). Já os homens são motivados por problemas de fundo individual. Assim ocorreu com o empresário paulista Roberto Higuti, 45 anos, que se tornou evangélico para afastar o consumo e o tráfico de drogas de sua vida. Católico na infância, budista e adepto da Igreja Messiânica e da Seicho-No-Ie na adolescência, Higuti saiu de casa aos 15 anos e se tornou um fiel seguidor do mundo do crime. Sua relação com as drogas foi pontuada por internação em hospital psiquiátrico, prisão e duas tentativas de suicídio. Certo dia, cansado da falta de perspectivas, viu uma marca de cruz na parede, ajoelhou-se e disse: “Jesus, se tu existes mesmo, me tira dessa vida maldita.” Há cinco anos, o empresário é pastor da neopentecostal Igreja Bola de Neve, onde ministra dois cultos por semana. “Quero, agora, ganhar almas para o Senhor”, diz.

Antes de se fixar na Bola de Neve, Higuti experimentou outras quatro denominações evangélicas. Mobilidades intraevangélicas como as dele ocorrem com aproximadamente 40% dos adeptos de igrejas pentecostais e neopentecostais, segundo a especialista em sociologia da religião Sílvia, da UFRRJ. Os neopentecostais, porém, possuem uma particularidade. Seus fiéis trocam de igreja como quem descarta uma roupa velha: porque ela não serve mais. São a homogeneização da oferta religiosa e a maior visibilidade de algumas denominações que produzem esse efeito. “Esse grupo, antigamente, era o tal receptor universal de fiéis, para onde iam todas as religiões. Hoje, a singularidade dele é o fato de receber membros de outras neopentecostais”, diz Sandra, da Umesp. “Quanto mais acirrada a concorrência, maior a migração.” A exposição na mídia, fundamentalmente na tevê, é a principal estratégia dos neopentecostais para roubar adeptos da concorrente direta. E cada vez mais as pessoas estabelecem uma relação utilitária com a religião. De acordo com a pesquisadora Sandra, se não há o retorno (material, na maioria das vezes), o fiel procura outra prestadora de serviço religioso. Estima-se, por exemplo, que 70% dos atuais adeptos da Igreja Mundial – uma dissidente da Universal – tenham migrado para lá vindos da denominação de Edir Macedo. “Entre os neopentecostais não se busca mais um líder religioso, mas um mago que resolva tudo num estalar de dedos”, diz Sandra. “Essa magia faz sucesso, mas tem vida curta, uma vez que o fiel se afasta, caso não encontre logo o que quer.”

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SEM LAÇOS
Lucina não segue nenhum credo, mas quando quer alcançar uma graça
procura algum serviço religioso: 30% fazem o mesmo anualmente

Cansada de pular de uma crença para outra, a artesã paulista Lucina Alves, 57 anos, não sente mais necessidade de pertencer a uma igreja. Há oito anos, ela diz ser do grupo dos sem-religião. No entanto, recorre a ritos de fé, principalmente católicos, espíritas e da Seicho-No-Ie, sempre que sente vontade de zelar pelo bem-estar de alguém. “Há um mês, fui até uma benzedeira ligada ao espiritismo para ajudar meu filho que passava por problemas conjugais”, diz. Dados do artigo “Trânsito religioso no Brasil” revelaram que 30,7% das pessoas que se encontram na categoria dos sem-religião frequentam algum serviço religioso anualmente e 20,3% fazem o mesmo mais de uma vez por mês. “Já participei de reuniões evangélicas de orações em casa de familiares”, conta Lucina.

A artesã não cultua santos, crê em Deus, Jesus Cristo e acende vela para anjos. No campo das ciências da religião, manifestações espirituais como as dela são recentes e vêm sendo tema de novos estudos. A migração de brasileiros para o islã é outro fenômeno que cresce no País. O número de convertidos na comunidade muçulmana do Rio de Janeiro, por exemplo, saltou de 15% em 1997 para 85% em 2009. Ex-umbandista que hoje atende por Ahmad Abdul-Haqq, o policial militar paulista Mario Alves da Silva Filho tem um inventário religioso de dar inveja. Batizado no catolicismo, aos 9 anos estreou na umbanda em uma gira de caboclo e baianos. Um ano depois, juntando moedas que ganhava dos pais, comprou seu primeiro livro, sobre bruxaria. Aos 14, passou a frequentar a Federação Espírita paulista, onde fez cursos para trabalhar com incorporações e psicografia. Aos 17 anos, trabalhou em ordens esotéricas ao mesmo tempo que dava expediente na umbanda. O policial, mestrando em sociologia da religião na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), decidiu se converter ao islã quando fazia um retiro de padres jesuítas. Em uma noite, sonhou com um árabe que o indicava o islã como resposta para suas dúvidas. Aos 29 anos, ele entrou em uma mesquita e disse que queria ser muçulmano. Saiu dela batizado e, desde então, faz cinco orações e repete frases do “Alcorão” diariamente. “Descobri que sou uma criatura de Deus e voltarei ao seio do Criador.”

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MECA
Migração atípica: o policial Filho, de currículo
religioso extenso, trocou  a umbanda pelo islã

Faz dez anos que o número de convertidos ao islã no País aumentou. E não são os atentados às Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001, que marcam esse novo fluxo, mas a novela “O Clone”, da Globo. Foi ela que “introduziu no imaginário cultural brasileiro imagens bastante positivas dos muçulmanos como pessoas alegres e devotadas à família”, como defende Paulo Hilu da Rocha Pinto em “Islã: Religião e Civilização – Uma Abordagem Antropológica” (Editora Santuário), de 2010. “De lá para cá, a conversão de brasileiros cresceu 25%. Em Salvador, 70% da comunidade é de convertidos”, diz a antropóloga Francirosy Ferreira, pesquisadora de comunidades muçulmanas da Universidade de São Paulo (USP), de Ribeirão Preto.

Assistente financeiro, o paulista Luan Nogueira, 23 anos, tornou-se muçulmano há um ano. Por indicação de um amigo, passou a pesquisar o islã e descobriu que o discurso estigmatizado criado após o 11 de setembro, que relacionava a religião à intolerância e à violência, não era verdadeiro. “Encontrei na mesquita e no “Alcorão” a ética da boa conduta”, diz. “Me sinto mais próximo de Deus no islã.” Para o professor Frank Usarski, do Centro de Estudo de Religiões Alternativas de Origem Oriental, da PUC-SP, o atrativo do islã é o fato de não ter perdido, diferentemente de outras religiões, a competência da interpretação completa da vida. “Ele oferece um guarda-chuva de referências para esferas como economia e ciência”, diz Usarski.

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ORIXÁS
Ex-liderança evangélica, Garcia largou os cultos cristãos (abaixo) para se tornar pai de santo

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Segundo o escritor Pinto, que também é professor de antropologia da religião na Universidade Federal Fluminense, o islã permite aos adeptos uma inserção e compreensão sobre questões atuais, como, por exemplo, a Palestina, a Guerra do Iraque e segurança internacional, para as quais outros sistemas religiosos talvez não deem respostas. “Se a adoção do cristianismo em contextos não europeus do século XIX pôde ser definida com uma conversão à modernidade, a entrada de brasileiros no islã pode ser vista como uma conversão à globalização”, escreve ele, em seu livro.

É cada vez mais comum, no País, fiéis rezando com a cartilha da autonomia religiosa. Esse chega para lá na fé institucionalizada tem conferido características mutantes na relação do brasileiro com o sagrado, defende a professora Sandra, de ciências sociais e religião da Umesp. “Deus é constituído de multiplicidade simbólica, é híbrido, pouco ortodoxo, redesenhado a lápis, cujos contornos podem ser apagados e refeitos de acordo com a novidade da próxima experiência.” Agora é o fiel quem quer empunhar a escrita de sua própria fé.

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Fonte: http://istoe.com.br/152980_O+NOVO+RETRATO+DA+FE+NO+BRASIL/

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Texto 02 – Evangelização à brasileira

Ao se adaptar às necessidades locais da sociedade brasileira, as religiões evangélicas vem conquistando cada vez mais espaço no país. Em dezembro, a Revista de História aborda em artigos e reportagem aspectos da ‘fé que seduz o Brasil’

Nashla Dahás

30/11/2012

  • Primeiros evangélicos da Assembleia de Deus de Goiânia. 1936.Primeiros evangélicos da Assembleia de Deus de Goiânia. 1936.

     

    Neste mês, a Revista de História aborda, em profundidade, a trajetória dos evangélicos no país.Abaixo, a pesquisadora Nasha Dahás, organizadora do dossiê “Evangélicos, a fé que seduz o Brasil”, apresenta um pouco da história dos fiéis nestas terras e dá pistas do que o leitor vai encontrar na edição.

    Colonizado e cristão, miscigenado e avesso a Revoluções, o Brasil evangélico adapta a crença em seus mitos fundadores e difunde um protestantismo que pretende conquistar o mundo.

    Ao final dos anos de 1950, Nelson Rodrigues tornou conhecida a expressão “complexo de vira-latas” para falar da suposta inferioridade a que o brasileiro se colocava diante do mundo. Tratava-se, naquela ocasião, de uma crônica sobre futebol, mas funcionaria durante muito tempo como um deboche do atraso brasileiro, o país do eterno futuro, cheio de potencialidades naturais e de “cordialidade”, mas incapaz de resolver seus problemas mais antigos como o analfabetismo e a fome.

    Coincidência ou não, entre os anos 50 e 70, a população evangélica daria uma salto de quase 70% em relação ao período anterior, acompanhada pela modernização conservadora durante a ditadura militar, e pela explosão mundial de movimentos sociais em defesa da liberdade de expressão, dos direitos das minorias e da negação da guerra. Um por um, os temas da agenda social brasileira e mundial foram gradualmente incorporados à pregação protestante tradicional: o pastor abre as portas da Igreja como as de sua própria casa, possui a autoridade de um pai ao acolher o cidadão mais desamparado pelo Estado e pela sociedade; oferece-lhe uma família para pertencer, eventualmente emprego e orgulho próprio, e um objetivo de vida, uma missão: mostrar ao mundo o caminho da salvação.

    Podia ter dado certo ou não, como ocorre igualmente nos processos históricos e na vida, mas em fins da década de 1980, a redemocratização no Brasil e a vitória do capitalismo no mundo, contribuíram com importantes ferramentas: a legítima liberdade de crença religiosa, o livre acesso aos meios de comunicação e a consolidação do modelo liberal de sociedade de massa: cada um por si e pelos seus.

    Contudo, o Espírito Santo, ou para os mais céticos, o senso de realidade e de oportunidade de alguns pastores e igrejas escapou à observação restrita às fronteiras e à conjuntura, e enxergou o impacto da fragmentação global. Conflitos étnicos, desemprego generalizado e a desarticulação da família tradicional não desfrutam mais da opção dos projetos revolucionários, o Estado tornou-se autoridade menos capaz com o aprofundamento da globalização, e a política é hoje um terreno cada vez mais desacreditado pelos jovens. Nascidas no dia a dia da batalha que cada fiel pentecostal trava com a realidade brasileira, explicada pela demonização de seus mais diversos reversos, as igrejas evangélicas oferecem à América Latina, Ásia e África uma nova utopia. Sem revoluções, imposição ou violência, elas agem pela conversão e crescem sempre de baixo para cima, raramente seduzem as elites nos primeiros encontros, misturam com alguma facilidade a sua fé aos aspectos mais tradicionais das igrejas predominantes, e transformam a religião em uma identidade conquistada e vencedora, pois que escolhida para levar a palavra de Deus aos incrédulos.

     

    Evangélicos de raiz / Clique na imagem para ampliar o infográficoEvangélicos de raiz / Clique na imagem para ampliar o infográfico

     

    África e America Latina

    Na África e na América Latina, as proximidades da língua parecem ajudar no crescimento das igrejas brasileiras, sempre associadas a outros elementos, específicos em cada país. Pesquisadores apontam que nessas regiões os cultos são realizados em proporção de 40% na língua local, e 60% em português, atraindo também os grupos de imigrantes brasileiros.

    Na Argentina, é possível que as sucessivas crises econômicas, somadas ao desgaste no orgulho das classes médias, contribuam para uma aceitação das igrejas bem maior do que no Chile, onde o catolicismo ainda é profundamente identificado com uma distinção de classe. Bolívia, Peru e México apresentam um índice de crescimento pentecostal marcadamente entre as populações indígenas, para as quais há um trabalho direcionado por parte de algumas igrejas, e minuciosamente acompanhado pela SEPAL (Servindo aos pastores e líderes), missão internacional que avalia e difunde o crescimento evangélico no Brasil há mais de 30 anos. No site da instituição/Rede é possível ter acesso às chamadas “missões transculturais”, cujos objetivos variam de acordo com as regiões de destino e a formação dos missionários. Estes, são atualmente cerca de 600 e incluem teólogos, professores, antropólogos, administradores, entre muitos outros espalhados por quase 70 países do globo.

    A motivação mais comum a levar essas pessoas para lugares tão distantes de suas raízes é a “batalha espiritual”: cada povo não cristão seria vitima de um tipo de demônio como a pobreza, a violência, a exclusão, o neocolonialismo, o desemprego, a solidão, etc. Mas entre os horrores contemporâneos, existe ainda uma hierarquia que alça ao seu topo o islamismo e as religiões orientais. Daí a existência da chamada “Janela 10-40”; segundo a qual a maior concentração de pessoas do globo terrestre que ainda não “encontrou Jesus” localiza-se no retângulo que se estende da África ocidental através da Ásia, entre os graus 10 e 40 a norte do equador, incluindo o bloco muçulmano e o bloco budista, ou seja, bilhões de pessoas à espera da conversão.

    Ao que é possível obter de informações nos sites das igrejas como a Universal do Reino de Deus, e em pesquisas acadêmicas variadas, as missões são estudadas com bastante antecedência por uma comissão que visita o país ou região de destino e elabora uma espécie de dossiê avaliando as probabilidades de sucesso, a legislação local, os trâmites relacionados à existência jurídica da Igreja e, sobretudo, a cultura local. Contexto nacional, linguagem apropriada, classes e modos de vida específicos, localização ideal dos templos com vias de acesso e sem concorrências, compra ou preferencialmente o aluguel de um imóvel com as proporções adequadas, arrecadamento estimado dos dízimos… A fé evangélica é também uma empresa de porte multinacional, embora esteja longe de se reduzir a isso.

    Movidas especialmente pela adesão global de populações pobres, com baixos graus de instrução, não-brancas, jovens, e mulheres, tudo indica que essas igrejas buscam e produzem fieis cada vez mais diferentes entre si, marcados por histórias nacionais e individuais muito particulares, parecidos com a sociedade em que vivem mas, ao mesmo tempo, sensíveis a um discurso que universaliza sentimentos velhos conhecidos do povo brasileiro.

    Desde a síndrome de vira latas criada por Nelson Rodrigues, até a opressão sentida pelas tribos indígenas latino-americanas, agora fortalecidas pelo poder eleitoral dos evangélicos, a exclusão social, no caso dos imigrantes nos Estados Unidos, e a diversidade, marca de nossa identidade histórica e cultural, agora oferecida aos russos, aos chineses, e aos países muçulmanos mais radicais… Não sem algum custo, é claro.

    Para conhecer o discurso, o impacto cultural e religioso, e as estratégias utilizadas pelas igrejas evangélicas no Brasil e no mundo, leia o dossiê “Evangélicos, a fé que seduz o Brasil”, capa da Revista de História do mês de dezembro.

    • Fonte: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/evangelizacao-a-brasileira
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Texto 03 – Mercados da fé

Ao analisar a trajetória das religiões evangélicas no Brasil, a historiadora Karina Bellotti, da UFPR, afirma que o crescimento do mercado gospel influencia também o consumo atrelado a outras religiões, como a católica

Alice Melo

7/12/2012

 

  • Neste mês, a Revista de História aborda, em profundidade, a trajetória dos evangélicos no Brasil. Autora de texto que explica a ‘Imagem da capa’ desta edição e fonte da reportagem ‘No ritmo de Jesus’, a historiadora Karina Kosicki Bellotti, professora da UFPR e autora de “Delas é o reino dos céus: mídia evangélica infantil na cultura pós-moderna do Brasil (1950-2000)”, explica o crescimento das religiões evangélicas nas últimas décadas. Em entrevista, a pesquisadora destrincha o surgimento da cultura gospel e indica de que maneira ela está sendo assimilada pela cultura brasileira, em suas múltiplas formas e códigos.

     

  • Revista de História da Biblioteca Nacional: Diante do crescimento das igrejas evangélicas nas últimas décadas, poderia explicar as semelhanças e singularidades entre as religiões que vemos hoje?

    Karina Bellotti: Observamos um crescimento evangélico, predominantemente pentecostal, desde os anos 1980, mais acentuadamente a partir dos anos 1990.  Uma das principais razões é o empenho de algumas igrejas e de fiéis na evangelização por diferentes maneiras – seja entre seus pares, seja pelos meios de comunicação (uso de rádio, TV, mídia impressa), seja pela estratégia de atração de fiéis em cultos, shows, celebrações, campanhas.

    Os chamados protestantes históricos são os luteranos, presbiterianos, metodistas, anglicanos, episcopais, congregacionalistas – igrejas criadas no século XVI, herdeiras diretas e indiretas da Reforma, e que vieram para o Brasil no século XIX, com imigrantes europeus e missionários norte-americanos. Ao final do século XIX, esse grupo teve algum crescimento na trilha do café e em algumas cidades com núcleos republicanos liberais, que viam nos protestantes uma forma de trazer o progresso – e o embranquecimento – ao Brasil. Foram os primeiros a investir em meios de comunicação para evangelização.

    Já os pentecostais surgem de um ramo evangélico americano do início do século XX nos EUA, em cultos que reproduziam o Pentecostes, a passagem bíblica de Atos dos Apóstolos em que o Espírito Santo manifesta-se em forma de glossolalia, dons de cura e profecia, no movimento de avivamento da Rua Azusa, em Los Angeles, em 1906. A partir de 1910  já havia pentecostais no Brasil – primeiro com Luigi Fancescon, fundador da Congregação Cristã no Brasil, e depois em 1911 com Gunnar Vingren e Daniel Berg, fundadores da Assembleia de Deus. Esse pentecostalismo se diversifica principalmente a partir dos anos 1950 e 1960, com o maior uso dos meios de comunicação, até chegarmos ao tal famoso neopentecostalismo, caracterizado pela Teologia da Prosperidade, pela liberalização dos usos e costumes e pela guerra ao diabo, presentes em maior ou menor grau em igrejas como a Universal do Reino de Deus, Renascer em Cristo, Igreja do Poder Mundial de Deus, dentre outras.

    E ainda há uma diversidade de igrejas independentes, comunidades cristãs, casas de oração, devido ao caráter fragmentário do protestantismo. As ideias de livre interpretação das Escrituras e do sacerdócio universal dos santos, trazidas por Lutero, retiraram a autoridade da Igreja Católica na devoção e no controle dos rituais, da “comunicação” entre o fiel e a divindade, permitindo que qualquer pessoa pudesse sentir o chamado para servir a Deus – e abrir sua igreja. Esses elementos também são responsáveis pela atuação dos evangélicos – muitos que se convertem querem testemunhar a transformação que Deus fez em suas vidas, fazendo uma “evangelização informal”, no dia a dia – usando inclusive produtos do chamado “mercado evangélico”, camisetas, folhetos, cartões, marca páginas e presentes com mensagens evangelísticas, músicas, dentre várias opções de produtos que existem atualmente.

    RHBN:  É possível afirmar que há uma identidade evangélica brasileira?

    KB: Acho arriscado afirmar que existe uma identidade evangélica brasileira – os historiadores devem procurar as diferenças dentro da diferença, parafraseando Joan Scott. Da mesma forma que não é possível falar de uma identidade católica brasileira, pois há vários catolicismos dentro do catolicismo. O que ocorre é que vivemos desde os anos 1950/1960 um período de competição religiosa, que tem acentuado determinadas tendências, como o carismatismo, além do próprio crescimento do mercado evangélico, que cria determinadas padronizações de produtos para o público evangélico – livros de autoajuda e de vida cristã, música “gospel”, vestuário, e até material escolar  – que tem sido consumido por evangélicos das mais diferentes tendências. Porém, há diferenças profundas que precisam ser consideradas.

    RHBN: O que diferencia as manifestações culturais evangélicas no Brasil do resto do mundo?

    KB:De maneira geral, o protestantismo e o pentecostalismo brasileiro possuem uma forte ligação cultural com matrizes norte-americanas, mesmo que muitas igrejas atuais sejam nacionalizadas há gerações. A cultura evangélica norte-americana, que nunca foi homogênea, transita pelo mercado editorial, pelo mercado fonográfico, pelo circuito de palestras de pastores e pregadores no Brasil, e pela circulação de pastores e lideranças brasileiras por universidades e igrejas americanas. Vejo semelhanças, como o crescente investimento em estratégias empresariais de gestão de igrejas e de formação de lideranças; mas também vejo diferenças, como o maior crescimento pentecostal no Brasil – algo que nunca ocorreu de forma significativa dos Estados Unidos.

    Nos Estados Unidos, a chamada “Igreja Eletrônica” era um entidade autônoma – existem ministérios de comunicação em que uma liderança vive de seu trabalho na mídia, em diversos meios. Já no Brasil, a comunicação é tanto usada para atrair pessoas para as igrejas, como também é a missão, o ministério de alguns evangélicos. Porém, é marcante o fato de o protestantismo sempre ter sido uma religião “de minoria”, vista por boa parte da sociedade brasileira como culturalmente estranha ao cenário afro-católico-espírita; é com essa realidade que os protestantes no Brasil sempre dialogaram, enquanto que nos Estados Unidos o protestantismo é a religião eleita como parte integrante da identidade nacional.

    Carla Ribas, apresentadora de programa de TV da Assembleia de Deus / Acervo: Centro de Estudos do Movimento PentecostalCarla Ribas, apresentadora de programa de TV da Assembleia de Deus / Acervo: Centro de Estudos do Movimento Pentecostal

    RHBN: Com a fragmentação de identidades na sociedade atual, o que entendemos por cultura brasileira está mudando. Neste movimento, o que ela estaria incorporando destas religiões que tradicionalmente não fazem parte da ‘matriz religiosa’ brasileira? E o contrário?KB:Não acredito que exista uma só cultura brasileira – existem práticas e crenças mais identificáveis com a nossa história, mas não há como falar em algo genuíno deste ou daquele lugar, como se não houvesse um mínimo de hibridismo. Porém, para dar um exemplo bem conhecido, o caso das sessões de descarrego da Igreja Universal são uma forma de hibridismo de uma prática não muito comum do cristianismo – o exorcismo, a expulsão de demônios – e o descarrego feito na umbanda, mas com um outro sentido. Na Universal, espíritos conhecidos na umbanda e no candomblé são demonizados  – coisa que não ocorre nas religiões afro – e são exorcizados como forma de limpeza e libertação espiritual.

    Sobre a via contrária: a questão da influência do protestantismo na cultura brasileira é uma preocupação de lideranças e até de intelectuais do meio. A atuação das igrejas chamadas “neopentecostais” têm mudado a dinâmica religiosa no Brasil, imprimindo uma competitividade que mobilizou a Igreja Católica a investir mais ostensivamente na evangelização e nos meios de comunicação, além da maior presença do carismatismo tanto no pentecostalismo como na Renovação Carismática Católica. Em algumas emissoras católicas, por exemplo, vemos a venda de produtos abençoados, livros, vídeos e CDs e DVDs, tal como em alguns programas evangélicos. O crescimento evangélico tem diminuído o número de terreiros em alguns lugares do Brasil, pela conversão de muitas mães e pais de santo. E também vemos uma pentecostalização do campo evangélico, com a incorporação de dons de cura e profecia, e até descarrego e cultos de libertação e ideias de prosperidade em igrejas que historicamente não o faziam, como algumas Assembleias de Deus. Agora, se isso trará uma mudança em termos de “ética protestante” – se é que podemos pensar dessa forma -, não vejo como medir em termos nacionais.

    RHBN: Num tempo em que a felicidade é vendida como objeto de consumo, por que uma ‘mercantilização da fé’ é tão mal vista pela parte não-crente da sociedade?

    KB:Porque no Brasil a religião sempre teve uma relação mais dissimulada com o dinheiro. Durante a Colônia e o Império, o catolicismo era a religião oficial, não necessitando do sustento direto dos fiéis, pois também contavam com recursos externos. Já as igrejas protestantes sempre foram autônomas e dependeram dos seus próprios recursos, incluindo o dízimo – que também faz parte das práticas católicas. Isso é um ponto – a ideia de que religião e dinheiro não se misturariam, um macularia o outro.

    Quem de fato introduz um mercado de produtos cristãos são os evangélicos, inspirados no modelo americano, a partir dos anos 1980. Antes disso, a mídia impressa foi a maior produtora de bens culturais religiosos consumidos. Além disso, um incipiente mercado fonográfico surge a partir dos anos 1960 e 1970, desenvolvendo-se em gigantes como a MK, a Line Records, e até selos cristãos em gravadoras seculares, como a Som Livre e a Sony Music.

    Outro elemento que surge e circula pelos meios de comunicação é a chamada “Nova Era”, um conjunto de práticas e crenças que alia tradições orientais e ocidentais, esoterismo e misticismo, e que se difunde por livrarias, oficinas, cursos, programas de Tv e rádio, vídeos, apontando para uma religiosidade mais fluida e individualizada. Mas, quando os produtos em questão são vistos de alguma forma como “portadores de cultura”, parecem não carregar uma aparência de “mercadoria”. Agora, o outro lado do conceito de “mercantilização da fé” estaria na venda de bens religiosos, de promessas de salvação ou de libertação de males físicos, emocionais, ou de carências materiais, disponíveis pela lógica da Teologia da Prosperidade, em que o fiel deve dar uma oferta em dinheiro em troca deste bem. Pois bem, isso também ocorre nas religiões afro – vemos aqui a ideia da troca do fiel com a divindade, para receber um benefício na terra.

    Por isso, é importante que os historiadores que estudam religiões no tempo presente possam problematizar esses preconceitos e sensos comuns sobre as religiões no geral, pois há uma grande diversidade de práticas e crenças, atendendo a diferentes necessidades, sentimentos e vontades, e que se transformam ao longo do tempo e no contato diário entre crentes, e não-crentes. Saber olhar para o que é dinâmico é tão importante quanto reconhecer as permanências dentro dos fenômenos religiosos.

  • Fonte:http://www.revistadehistoria.com.br/secao/entrevista/mercados-da-fe

Sobre questões étnico raciais e religiões de matriz africana

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Vídeos:

Racismo e Injúria racial

– https://www.youtube.com/watch?v=ywTyIv8XcnI&spfreload=10

Sistema de Cotas
O Mito da Democracia Racial
Por uma infância sem racismo – Vídeo do UNICEF com Lázaro Ramos
Onde você guarda o seu Racismo?
JC debate sobre a polêmica das cotas raciais
Nossa Identidade Africana
Documentário Candomblé
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Texto 01 – Só existe uma raça, e ela surgiu na África.

05 de maio de 2015.

Nem branca, nem negra, amarela ou vermelha. Na face da Terra existe uma única raça: a humana. Todos nós fazemos parte dela.

Há alguns anos o racismo voltou a assombrar o mundo e a encontrar expressão política, justamente na Europa, onde não se imaginaria que poderia ressurgir. Na França, as ideias racistas professadas pela Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen e sua filha, Marine Le Pen, atraíram parcela considerável do eleitorado. Em vários outros países europeus, partidos da direita, e até mesmo de movimentos neofascistas conquistaram numerosas cadeiras nos parlamentos. Na mesma medida em que aumenta o número de refugiados e de imigrantes vindos de nações do Terceiro Mundo, aumenta o sentimento de ancestral xenofobia de muitos europeus, que rapidamente encontra seus canais de expressão política.

É interessante se observar como, ao longo da história, as políticas racistas nunca deixaram de pedir à ciência que legitimasse sua hierarquização social, seus preconceitos e exclusões. Muitos foram os cientistas que prontamente se puseram a conceber teorias, instrumentos de medição, critérios e teses que supostamente definiam as características das diferentes “raças” humanas e formulavam a base de sustentação de uma série de eventos que marcaram a história do homem, da expansão colonial europeia ao apartheid sul-africano, do segregacionismo norte-americano ao nazismo.

Nos últimos anos, a palavra raça, aliás, desapareceu discretamente dos livros escolares e as antigas classificações foram desacreditadas. Isso aconteceu graças às descobertas da paleontologia, da genética, da etnologia. Mesmo assim, ainda existem alguns pesquisadores isolados que professam a existência de raças. Quando, em 1994, os psicólogos Charles Murray e Richard Herrnstein publicaram nos Estados Unidos The bell curve, com 800 páginas de gráficos e análises que “demonstravam” que o QI de negros era inferior ao dos brancos, a obsessão racista que inspirou o livro não deixou margem para dúvidas. Seu objetivo político foi claramente percebido: abolir os programas sociais, colocados em prática há 30 anos por Washington, em favor dos mais pobres.

O que se pergunta, nos dias de hoje, é se um cientista pode se interessar por “raças” humanas sem procurar demonstrar sua desigualdade. Na verdade, cada um de nós tem sua própria definição do termo, assim como os ideólogos do racismo sempre encontram defensores para proclamar que o “politicamente correto” é cientificamente incorreto.

Uma só espécie
Dizer, hoje em dia, que existem raças humanas, implica em demonstrar a existência de grupos distintos, possuidores de traços “comuns” entre si e de particularidades que não se encontraram em nenhum outro grupo. É claro que entre um senegalês, um cambojano e um italiano existem, evidentemente, diferenças físicas visíveis: cor da pele e dos olhos, tamanho, textura dos cabelos etc. Mas hoje em dia já sabemos que o patrimônio genético dos três é extremamente próximo. A descoberta dos grupos sanguíneos, da variação das enzimas, das sequências de DNA, dos anticorpos e tantas outras, puseram em evidencia o parentesco dos homens entre si, assim como sua extraordinária diversidade. Uma combinação de genes, frequente numa população e rara em outra, é, assim mesmo, potencialmente presente em toda parte.

A comprovação se deu em 2002, quando uma equipe de sete pesquisadores dos Estados Unidos, França e Rússia comparou 377 partes do DNA de 1056 pessoas originárias de 52 populações de todos os continentes. O resultado mostrou que entre 93% e 95% da diferença genética entre os humanos é encontrada nos indivíduos de um mesmo grupo e a diversidade entre as populações é responsável por 3% a 5%. Ou seja, dependendo do caso, o genoma de um africano pode ter mais semelhanças com o de um norueguês do que com alguém de sua própria cidade na África! O estudo também mostrou que não existem genes exclusivos de uma população, nem grupos em que todos os membros tenham a mesma variação genética.

Muitas diferenças

Na sua longa evolução até atingir a sua forma humana final, nosso ancestral foi se adaptando fisicamente às condições ambientais. Perdeu os pelos do corpo, provavelmente há pouco menos de 2 milhões anos, por que começou a fazer longas caminhadas e precisava esfriar o corpo. Sem pelo, ficou com o corpo exposto e as células que produziam melanina se espalharam por toda a pele. A mudança na coloração da pele foi descoberta em 1991pela antropóloga Nina Joblonski, da Academia de Ciências da Califórnia, Estados Unidos, ao encontrar estudos que mostravam que pessoas de pele clara expostas à forte luz solar tinham níveis muito baixos de folato. Como a deficiência dessa substância em mulheres grávidas pode levar a graves problemas de coluna em seus filhos, e como o folato é essencial em atividades que envolvam a proliferação rápida de células, tais como a produção de espermatozóides, a antropóloga concluiu que nos ambientes próximos à linha do Equador, a pele negra era uma boa forma de manter o nível de folato no corpo, garantindo assim a descendência sadia. Para provar suas teorias a respeito de cor da pele, Nina Joblonski usou um satélite da NASA e criou um mapa de padrões de radiação ultravioleta em nosso planeta, mostrando que o homem evoluiu com diferentes cores de pele para se adaptar aos diferentes meio-ambientes.

Assim, o homem saiu da África e chegou à Ásia, e de lá foi para a Oceania, a Europa e por fim para a América. Nas regiões menos ensolaradas, a pele negra começou a bloquear demais os raios ultravioleta, sabidamente nocivos, mas essencial para a formação da vitamina D, necessária para manter o sistema imunológico e desenvolver os ossos. Por isso, as populações que migraram para regiões menos ensolaradas desenvolveram uma pele mais clara para aumentar a absorção de raios ultravioleta. Portanto, a diferença de coloração da pele, da mais clara até a mais escura, indicaria simplesmente que a evolução do homem procurou encontrar uma forma de regular nutrientes.

Claude Blanckaert, historiador da ciência no Museu Nacional de História Natural, Paris, acredita que “a teoria das raças demonstra que a ciência jamais é neutra. A tese da grande corrente tornou-se, com o tempo, uma escala rígida de raças, dominada pelos europeus.”

A partir de 1860, as ciências naturais e pré-históricas concordam que o homem tem uma história bem mais antiga do que se supunha até então. Mas as teorias se adaptam às ideias darwinistas: ao se admitir que as raças são diferentes quase desde a origem da humanidade, sugere-se que certos povos foram submetidos a uma “interrupção de desenvolvimento”.

No século 20, as mitologias nacionalistas foram dominadas pelos clichês, tudo para justificar as políticas colonialistas. O auge desse pensamento foi a ideologia da raça “ariana”, uma tremenda enganação científica, que justificava a eliminação da “anti-raça”, o judeu.

O século 21 fez sua estreia sob a sombra da divisão entre o bem, simbolizado por povos ocidentais (americanos e europeus) e o mal, personificado pelos povos do oriente. Que as ideias racistas não criem mais nenhuma explicação “científica” para provar mais nada!

forum.jogos.uol.com.br/adaptado.

______________________Texto 02_________________

Leis 10.639/03 e 11.645/08

Lei Federal 10.639/03

Em março de 2003, foi aprovada a Lei Federal nº 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Africana e Afro-Brasileira nas escolas de Ensino Fundamental e Médio. Essa lei altera a LDB (Lei de Diretrizes e Bases) e tem o objetivo de promover uma educação que reconhece e valoriza a diversidade, comprometida com as origens do povo brasileiro.

A escola é o lugar de construção, não só do conhecimento, mas também da identidade, de valores, de afetos, enfim, é onde o ser humano, sem deixar de ser o que é se molda de acordo com sua sociedade. O Brasil, formado a partir das heranças culturais europeias, indígenas e africanas, não contempla, de maneira equilibrada, essas três contribuições no sistema educacional. Por isso, ter como meta a efetiva realização das prerrogativas dessa Lei é essencial para a construção de uma sociedade mais igualitária.
http://www.afroeducacao.com.br/lei-10-639-03

Lei 11.645/08

O ensino da temática indígena é obrigatório nas escolas brasileiras de Ensino Fundamental e Médio, particulares e públicas.

Para estudar esta abordagem foi sancionada pelo presidente da República Luis Inácio da Silva, a Lei 11.645/08, alterando a LDB – Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática ‘História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena. O ensino da História do Brasil levará em conta as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente das matrizes indígena, africana e europeia.

Uma demonstração do esforço recente do governo brasileiro em desenvolver políticas de reparação ao tratamento de exclusão oferecido historicamente, a determinados grupos populacionais que são minorias em nossa sociedade. É uma questão importante sobre a realidade dos povos do Brasil e traz para o debate o perfil indígena em suas diversidades sendo um esforço concentrado para que as escolas tenham a visão do ponto de vista do índio.

Sendo assim, para que não se reproduza equivocadamente a ideia etnocêntrica de que existe apenas um único modelo civilizatório e consequentemente inexistam outras formas de relacionamento do sujeito com o outro, com a natureza no seu entorno enfim, outras possibilidades de estar no mundo, a nova Lei fez-se necessária, uma vez que, o olhar etnocêntrico não só corrobora com a visão unilateral de realidade, como também inferioriza a diferença, ou seja, a crença de que aquele diferente é naturalmente inferior.

A legislação precisa ser bem implementada e interagir com o currículo com conteúdos que conversem com a Lei criando uma esfera de compreensão das futuras gerações fomentando uma mobilização de interesse e de conscientização da sociedade.

A carência de diálogos sobre a formação da sociedade brasileira em nova roupagem se edifica de forma a desfigurar o modelo de sala de aula pragmática que verificamos nas escolas brasileiras.

Há diferenças dos mais diversos campos da cultura indígena e é preciso ser conhecidas tais diferenças pela sociedade que tanto menospreza este individuo. Desta forma, há uma necessidade urgente de prover os professores, de um conjunto de informações sistemáticas e consistentes sobre as sociedades indígenas no Brasil, suas especificidades históricas e sócio-culturais e também a respeito das relações políticas e simbólicas estabelecidas pelo conjunto da sociedade brasileira com estas populações.
Mas quem vai contar esta história?

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