Menos apartheid, mais aprendizagem

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Há pouco me perguntaram se, a exemplo de outras datas, eu não iria escrever algo sobre o 13 de maio de 1888 na história. Aquele dia que a história oficial escolheu para “fazer a ABOLIÇÃO”. Respondi que NÃO, pois historicamente não reconheço essa data. Depois, pensei melhor. SIM, o 13 de maio não pode ser simplesmente ignorado, basta que se fale da OUTRA ABOLIÇÃO. A abolição anunciada pela elite da época não aconteceu. Foi um ato político que convinha às elites naquele contexto.

A verdadeira abolição é construída diariamente, desde que a 1ª Diáspora Africana se deu, desde que negros e negras resistiram à sua desumanização por parte dos escravistas, desde que suas identidades foram atingidas, suas crenças negadas, desde que sua ‘inferioridade’ foi proclamada pela Santa Igreja.

A verdadeira abolição ainda não aconteceu, porque diária e infindável nesse país onde mulheres ganham menos que homens, e mulheres negras menos ainda, onde a população carcerária é majoritariamente negra, onde um apresentador de televisão não tem vergonha de dizer que confundiu a Senadora negra com a “tia do cafezinho” e nada acontece com ele.

A verdadeira abolição ainda não aconteceu em um país onde Caetano e Gil muito bem disseram que “pretos, pobres e mulatos, e quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados”. Em um país onde seguranças de shoppings, muito(a)s dele(a)s negros e negras, ‘acompanham’ os passos de ‘gente de cor’ para ver se são potenciais marginais. E muito(a)s policiais, muito(a)s dele(a)s negros e negras, ‘selecionam’ quem tem perfil de bandido pela cor da pele.

A verdadeira abolição ainda não aconteceu em um país onde os cabelos diferentes de uma criança negra são vistos como motivo para o racismo se revelar, e o mais grave, entre crianças. Em um país onde é necessário ressaltar a cor da pele de um Ministro do STF, antes de anunciar a sua ascensão por competência e méritos à mais alta Corte do país.

A verdadeira abolição ainda não aconteceu em um país onde foi necessário criar e sancionar leis que OBRIGAM o ensino da história da África, dos afro brasileiros e dos índios nas escolas, simultaneamente aos conteúdos escolares já estudados há séculos. E que em muitas destas, mesmo assim, ignora-se sob os argumentos vis de que “há material didático insuficiente”, quando no fundo são posturas religiosas fundamentalistas que criam obstáculos ao ensino. As mesmas escolas nas quais a prioridade continua sendo a visão eurocêntrica, branca, sem os devidos e necessários contrapontos.

A verdadeira abolição ainda não aconteceu em um país onde foi necessário implantar sistemas de reservas de vagas para negros e negras, e também indigenadescendentes, para acesso a universidades, concursos públicos, produções televisivas e afins.

A verdadeira abolição ainda não aconteceu em um país onde a ‘cor das salas de aulas’ nas escolas e faculdades privadas é quase monocromática. E não aconteceu também em um país onde o racismo é crime previsto em lei, mas, “ninguém é racista”, porém, faz piadas envolvendo negros e negras e ainda diz que “neste país tudo virou racismo”. Quando não se é negro ou negra, realmente, é só uma piada.

A verdadeira abolição ainda não aconteceu em um país onde muitos consideram que a ‘democracia racial’ existe, pois, “olha só, as leis são extensivas a negros e negras também”. É, há leis e leis, bem sabemos.

A verdadeira abolição ainda não aconteceu em um país onde o IBGE continua identificando as pessoas no Censo pela cor da pele. Em um país onde, por outro lado, as ditas minorias étnicas necessitam ainda gritar para serem ouvidas e atendidas em seus direitos mais básicos.

A verdadeira abolição ainda não aconteceu em um país onde, muitas vezes, alguns representantes das etnias excluídas historicamente se utilizam de discursos e práticas tão intolerantes e discriminatórios quanto aqueles que combatem. Muitas vezes acertam no conteúdo, mas pecam na forma. A reflexão e a autocrítica também são necessárias.

A verdadeira abolição NÃO EXISTE! Eu não acredito, nem espero a verdadeira abolição. Só se a humanidade for reinventada.

Eu espero e acredito em uma sociedade onde ser diferente não seja motivo de apartheid, mas de aprendizagem.

Aquele abraço!

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