O mito da democracia racial no Brasil – Fonte Carta Capital

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Racismo

O mito da democracia racial no Brasil

Enquanto os efeitos colaterais do racismos institucional aumentam, práticas que transgridem leis e violam direitos humanos parecem não causar indignação

por Joseh Silva — publicado 29/08/2014 14:06

 

 

O goleiro Aranha, do Santos, foi chamado de macaco pela torcida do Grêmio

 

É falso afirmar que o Brasil não é um país racista. Viver nesta afirmação não se trata somente de “tapar o Sol com a peneira”, mas de continuar permitindo um quadro social que favorece uma população de elite e branca, ou, pelo menos, de pessoas que se identificam com isso.

Não é necessário nem citar dados para concluir que o racismo está estampado em nossa bandeira: basta ver a situação dos negros a revelar que o racismo é institucional e estruturante da nossa sociedade. A partir disso, não podemos usar uma pontualidade como fato principal. Apesar de gravíssima, a atitude da torcedora do Grêmio, que foi flagrada pelas câmeras de tevê chamando o jogador Aranha, goleiro do Santos, de macaco, que deve ser responsabilizada, nada mais é do que um efeito colateral.

Negros são maioria no país e, em disparada, a maior população carcerária. São vítimas de um genocídio perene e banalizado. Vivem em favelas e periferias em condições subumanas. O acesso ao serviço público é ruim. Diariamente, são agredidos pelo Estado de farda e por uma mídia fascista.

Negros e negras sofrem com ataques racistas há gerações. Já passou do momento de acontecer, no mínimo, uma reparação integral. A estigmatização é uma arma muito poderosa, pois fortalece o preconceito, baixa a auto-estima de um povo e minimiza os efeitos de uma diáspora.

O racismo é uma prática institucional exposta nesta pátria amada. A primeira cena que presenciei foi ainda muito cedo, acredito que tinha por volta de 12 anos. Eu, meu irmão e um amigo. Saímos de casa com trajes para uma partida de futebol na quadra de uma escola. Para chegar até lá, tínhamos de ir até a outra ponta da favela. No meio do caminho, nos deparamos com quatro policias que apontavam suas armas em direção a cada beco e viela.

Quando eles nos viram, falaram baixinho para pararmos. Assutados, congelamos. Um policial pediu para meu irmão e eu, que temos o tom de pele mais claro, sairmos e seguraram nosso amigo, que foi agredido física e verbalmente.

Esse tipo de prática seletiva acontece todos os dias dentro das favelas, e o País segue na farsa do “ninguém sabe, ninguém viu”. Mesmo com casos explícitos que tomam o cenário nacional, como Cláudia Ferreira, mulher negra, pobre e moradora do subúrbio do Rio, que depois de baleada, foi arrastada por uma viatura da Policia Militar, num ano de Copa do Mundo, momento em que o País é vitrine e as forças amardas mandam um recado para a população negra e pobre. Cena que remete à captura de um escravo por capitães do mato.

Enquanto os efeitos colaterais do racismos institucional aumentam, práticas que transgridem leis e violam direitos humanos parecem não causar indignação e colocam em questão a atuação da justiça quando se trata de negro e pobre. Racistas não prendem racistas a não ser para salvar o próprio racismo.

Conflitos no Oriente Médio: políticas isoladas ou estratégia combinada? Fonte: Caros Amigos

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ARTIGOS E DEBATES

O que há em comum nos conflitos no Oriente Médio?

 

Conflitos no Oriente Médio: políticas isoladas ou estratégia combinada?

Por Lara Sartorio

“Recente divulgação de documentos do wikileaks comprova relação dos estadunidenses e seus principais aliados no oriente médio, como Arábia Saudita, Qatar e Israel, com o armamento e alocação de lideranças do Estado Islâmico (ISIS)”

Qualquer análise pontual no Oriente Médio pode cair na superficialidade se considerada de maneira isolada da totalidade. As políticas que agitam o mundo árabe com cenários de destruição e massacre estão combinadas e tem objetivo estratégico do agente estadunidense. O mundo vem assistindo sentado a um espetáculo de extermínio dirigido pelos Estados Unidos e seus tradicionais aliados.

Ucrânia, Síria, Líbia, Líbano, Iraque e Palestina

Desde os primeiros dias de julho deste ano Israel, armado e financiado pelos Estados Unidos, vem bombardeado a Faixa de Gaza demarcando um dos mais brutais genocídios promovidos pelos países desde o início da ocupação militar de Israel na Palestina. Já são 2300 mártires, dentre eles crianças, adolescentes e mulheres que foram silenciados em seu grito por vida.

A Síria enfrenta, desde 2011, um demarcado extermínio promovido pelo governo de Bashar Al-Assad e também por sua oposição, caracterizada pelos mercenários apoiados pelos Estados Unidos.

Também em julho deste ano o conflito no Iraque se acirra com o fortalecimento do grupo jihadista sunita Isis (Estado Islâmico da Síria e do Iraque), fundado como resistência armada à ocupação militar dos Estados Unidos no Iraque. Com o fim da invasão, o principal alvo passou a ser os xiitas que, segundo eles, tornaram-se porta-vozes do Ocidente ao levarem a cabo o acordo de Sykes-Picot[1], acordo entre França e Inglaterra após a Primeira Guerra Mundial que delimitou a fronteira comum entre Síria e Iraque. O objetivo dos fundamentalistas é reconfigurar o território no formato que antecede ao tratado colonialista e estabelecer um califado na região. O grupo avançou conquistando territórios primeiramente na Síria; depois, em julho, tomou cidades no Iraque e em agosto ocupou parte do Líbano.

Recente divulgação de documentos do wikileaks[2] comprova relação dos estadunidenses e seus principais aliados no oriente médio, como Arábia Saudita, Qatar e Israel, com o armamento e alocação de lideranças do Estado Islâmico (Isis), que realiza uma resistência armada em oposição aos governos sírio e iraquiano e já massacrou brutalmente milhares de pessoas. As últimas notícias do Iraque reportam as dezenas de milhares de refugiados em função do avanço do grupo jihadista e o número de mulheres vendidas como escravas em mercados e mantidas em cativeiros pelo grupo, onde são estupradas e violentadas de tantas outras formas.

 

No Iraque, a manobra dos EUA se realiza de maneira complexa. A saber, o país é composto por cerca de 70% da população xiita, de forte minoria sunita e de curdos que, desde a década de 1960, lutam pela independência do Curdistão. Como forma de gerar certo grau de estabilidade política, os Estados Unidos garantem que lideranças xiitas que prometam levar à frente sua cartilha de “democracia” e “governo amplo” ocupem o cargo de primeiro-ministro, reservando a presidência para seus tradicionais aliados, os curdos (importantes apoiadores da invasão do Iraque em 2003). Dessa forma, os EUA traçam um jogo de interesses peculiar para o cenário político internacional ao manipular taticamente os três grupos antagônicos do Iraque: curdos, sunitas e xiitas. Como objetivo estratégico, o clássico jargão de “dividir para conquistar” segue funcionando para o imperialismo e a perspectiva de uma “intervenção e controle humanitário” da estimada segunda maior reserva de petróleo do mundo faz-se justificada.

Estados Unidos

O jogo de dupla moral realizado pelos EUA consiste em uma brutal limpeza étnica da região onde o país tem profundos interesses financeiros, tendo em vista que todos os países-alvos do imperialismo são fontes de hidrocarbonetos com investimento de grandes empresas de petróleo ou mesmo que abrigam rota estratégica de circulação de capital.

Em um contexto mundial de disputa ideológica demarcada pela Guerra Fria, a religião foi um recurso estrategicamente utilizado em especial no Oriente Médio durante as décadas de 1960 e 70. A ascensão de movimentos pan-arabista seculares com orientação de esquerda, como o Nasserismo, significou uma grande ameaça ao controle dos Estados Unidos da região rica do ouro moderno: o petróleo. Os movimentos levantavam a bandeira nacionalista de restringir o petróleo do Oriente Médio para seus próprios propósitos regionais. Diante disso, a solução pareceu óbvia para os imperialistas: fundar e financiar grupos religiosos fundamentalistas na religião como forma de conter os “desvios” à esquerda. O plano pareceu funcionar perfeitamente quando, depois dos anos 1970, a mudança em nível global das condições sociais e econômicas, combinadas ao desmantelamento de estados que corporificavam tendências progressistas, passaram a configurar um vácuo político. Foi criado, portanto, o terreno fértil para a ascensão da religião, recurso ideológico à altura de corresponder ao ressentimento em massa que se criava e capaz de elevar à transcendência o debate de seus argumentos irrefutáveis.

“O genocídio ocorrido em Gaza faz parte do projeto de busca por recursos de petróleo, mas com peso político fundamental para centrar atenções em seu mais forte aliado do oriente, Israel, que rouba a cena em atrocidades que lograram furar o bloqueio midiático”

A estratégia estadunidense de fomento desses grupos fundamentalistas, apoiando inclusive o Talibã a chegar ao poder no Afeganistão em 1996, guarda suas próprias contradições reveladas ao passo que os fundamentalistas se tornam também canal de resistência contra o imperialismo estadunidense. Após o “ataque de 11 de setembro” esses grupos são declarados oficialmente inimigos dos EUA e verbalizados como terroristas. Apesar disso, foram mantidos os financiamentos e armamentos enviados aos grupos do “eixo do mal” pelo país[3], sustentando conflitos internos, com o controle de sua intensidade e duração, e forjando desculpas para invasões “humanitárias”.

A subsequente invasão dos Estados Unidos no Iraque em 2003 demarca a origem de grupos de resistência. Como dissidência do Al-Qaeda, surge o Isis, grupo sunita jihadista. Nesse momento, passou a ser interessante para os Estados Unidos armar o Isis na oposição do governo sírio, fortemente articulado com a Rússia, e na contenção de grupos mais radicais xiitas no Iraque, que passaram a fazer oposição ao governo iraquiano, também xiita, por sua política “branda” na contenção da minoria sunita.  A saída das tropas do Iraque em 2011 foi política e economicamente pensada pelo país: com a crise financeira que os Estados Unidos vinham enfrentando e como perfeita plataforma política de diferenciação, a campanha do Obama foi alavancada pela promessa de fim da guerra no Iraque. A retirada oficial, entretanto, não significou o fim da intervenção do país, que segue nomeando os líderes políticos xiitas da estrutura de poder iraquiana, ao passo que armam e organizam[4] os jihadistas do Isis, da minoria sunita e apoiam as bandeiras e exército Peshmerga dos curdos, como confirmada há poucas semanas pelo Departamento de Estado norte-americano[5].

Para fechar o ciclo de contradições políticas, nesta semana o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou em pronunciamento que “Hamas é Isis. Isis é Hamas”. Não bastasse terem encontrado armas com munição de Israel nas mãos do Isis recentemente e o comprovado financiamento dos Estados Unidos e de Israel ao grupo, o primeiro-ministro ainda promove descaradamente a cruel associação entre os grupos. A resistência palestina, por outro lado, se posiciona contrariamente ao grupo desde sua maior visibilidade na oposição ao governo sírio. Membros da Frente Popular de Libertação da Palestina inclusive não hesitaram em identificar similaridades do grupo com a ideologia sionista: “ambas promovem extermínio étnico e religioso e ambas estão a serviço do imperialismo”, afirmou o militante Farid.

O que os EUA querem então?

A última escalada de ações do país alcançou um nível esquizofrênico: armou o Isis; bombardeou o Isis quando chegavam ao limite fronteiriço do Curdistão; armou os Peshmergas (exército curdo); trocou o primeiro-ministro xiita; discordou do referendo de independência do Curdistão. Documentos divulgados esta semana pelo WikiLeaks provaram a relação entre o líder do Isis, Abu Bakr al-Baghdadi, e o Mossad (serviço secreto israelenses) e a CIA[6]. Os documentos apontaram o líder como fantoche do imperialismo. Poucos dias depois, o Serviço Aéreo Especial do Exército Britânico (SAS) e as unidades de missões especial e antiterroristas dos EUA (Seal Tem e Delta Force) declararam estar treinando soldados para um duro golpe contra o Isis com o “objetivo prioritário de capturar o líder da organização, o Baghdadi”[7]. Essa política de “bate e assopra” tem por perspectiva política livrar-se de culpas e funcionar como catalisador do já latente conflito étnico e religioso da região. O que podemos tirar como certeza da situação neste momento é que no centro dos interesses financeiros de grandes corporações, seres humanos são o que menos importa e já são corriqueiramente chamados de “danos colaterais” pelos estados genocidas estadunidenses e israelenses.

O risco para o Iraque é de terminar fragmentado em três partes. Apesar dos pronunciamentos públicos recentes dos EUA argumentarem que sua política é “prioritariamente para manter o Iraque unido”, sabemos que no fim de 2007 foi votado favoravelmente no Congresso norte americano a proposta de fragmentação do Iraque em três territórios[8]. Dividido ou não, definitivamente será garantido o resguardo da região curda, rica em petróleo e que mantém acordos bilionários do recurso com Israel, além da nova rota de trânsito de petróleo definida em junho deste ano. Além disso, a lealdade entre Curdistão e Estados Unidos, estendida também a Israel, que teve início com a aliança contra Saddam Husseim, faz com que a região esteja fortemente vinculada com esses países como estratégia política de sua luta pela independência, declaradamente apoiada pelo premier israelense e pelos Estados Unidos.

Mapa oriente médio Lara 1Com um olhar mais atento, é possível notar que a preocupação com o avanço do Isis ao território curdo embasa também um dos fatores de motivação do atual bombardeio genocida em Gaza. Em dezembro de 2010 foi descoberto o então revelado “mais proeminente terreno de gás natural já encontrado na Bacia do Leste Mediterrâneo” e estaria localizado “nas costas de Israel”, impulsionando o país a se tornar um grande exportador de gás e petróleo[9]. A estimativa de 1,7 bilhão de barris abriu os olhos de muitos países, em especial aqueles que estão na disputa de reivindicar sua parte em termos de abrangência em território marítimo. Israel e Líbano, que oficialmente permanecem em guerra, já começaram a trocar faíscas na disputa da reserva. A Síria já fechou contratos prévios com a Rússia para a exploração dos recursos, o que preocupa os Estados Unidos em seu apoio indiscriminado a Israel para que mantenham o controle do petróleo e gás do Oriente Médio. Os 30 trilhões de metros cúbicos de gás serviriam para abalar o controle majoritário da exportação russa na Europa. O problema é que, como demonstra o mapa abaixo, as bases encontradas estão situadas na região correspondente a Gaza. Algumas teorias defendem[10], inclusive, que mesmo o genocídio de Israel contra Gaza em 2008, “Operação Chumbo Fundido”, e o recente bombardeio serve como reafirmação que as ofensivas são de guerras energéticas. Embora a questão não se reduza a isso, dentre os inúmeros fatores, esse certamente é um deles.

mapa oriente medio lara 2Dentre especulações ainda não confirmadas, sonda-se inclusive que Israel iniciou um plano sionista de compra de terras no Curdistão com o objetivo de implementar um novo tipo de ocupação militar com o apoio dos curdos judeus. Se a especulação se confirmar, fará bastante sentido já, uma vez que a região será estratégica para Israel na exploração e no escoamento dos hidrocarbonetos da Bacia Leviathan.

Já a Ucrânia, em conflito desde 2013 com os protestos regulares de oposição ao governo que ganharam um caráter fascista preocupante, também é peça importante nos planos dos Estados Unidos de afastar a Rússia do cenário político e econômico abrindo espaço para suas intervenções de protagonismo no Oriente Médio. O genocídio ocorrido em Gaza faz parte do projeto de busca por recursos de petróleo, mas com peso político fundamental para centrar atenções em seu mais forte aliado do Oriente, Israel, que rouba a cena em atrocidades que lograram furar o bloqueio midiático. Imagens de crianças mutiladas pelo estado sionista israelense sensibilizaram a opinião pública de forma a incentivar julgamentos contrários à ação e ganhando centralidade no tema midiático do Oriente Médio. O genocídio de Israel contra a Palestina sempre dividiu a opinião pública de forma desproporcional devido aos escandalosos investimentos em propaganda midiática contra a Palestina que mobilizam o holocausto como carta na manga para acusar qualquer um em desacordo com a política de Israel de “anti-semita”. O conflito que perdura por mais de 65 anos é apenas atualizado pelo brutal extermínio atual, abafando a repercussão das políticas articuladas no entorno por todo o mundo árabe.

A tática dos Estados Unidos, combinada à tática do estado sionista de Israel, faz o jogo de destruição sem sujar as mãos: armam grupos inimigos do Oriente Médio, falsificam lideranças e assistem de longe aos massacres levarem à frente seus planos de dominação. Contudo, revoltas são multifacetadas e seus objetivos seguem sendo próprios e autônomos, apesar da intervenção imperialista. É aí que se faz necessário uma intervenção oficial do mais avançado armamento do mundo. A novidade agora é esse distanciamento dos americanos, que fazem do mundo árabe seu vídeo game particular tomando a distância necessária para ações friamente calculadas, cada vez mais marcados por ataques aéreos e bombardeios, especialmente através do uso de “drones” (aviões automatizados controlados diretamente dos EUA). A guerra passa a ser um cálculo que dá certo sem mãos sujas de sangue.

Poderíamos analisar a questão em torno do Oriente Médio através de um enfoque em conflitos que giram em torno do petróleo. Seríamos, entretanto, levianos se o fizéssemos. A questão central e radical, no sentido daquilo que vai à raiz, não se encerra na superficialidade de uma das commodities mundiais. A raiz desses conflitos é a relação de um mundo estruturado pelo capitalismo e os interesses que nele são criados e sustentados em detrimento de qualquer que seja o obstáculo.

Referências

[3] Financiaram o Mujahideen, grupo fundamentalista islâmico contra a União Soviética no Afeganistão. Apoiaram e financiaram o general Muhammad Zia-ul-Haq no Paquistão; fundaram a Irmandade Muçulmana nos mais variados países do Oriente Médio, dente outros exemplos.

[10] http://actualidad.rt.com/actualidad/view/134065-israel-gaza-guerra-energia


 Lara Sartorio é cientista política e escreve diretamente da Cisjordânia para Caros Amigos

Sobre a vinda da Corte portuguesa para o Brasil

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A única saída

Entre ser derrotado por Napoleão ou ver o Brasil invadido pela Inglaterra, D. João VI escapou dos dois.

Marieta Pinheiro de Carvalho

7/1/2008 

 
  • O poderoso exército napoleônico às portas da fronteira. Espreitando o porto de Lisboa, navios ingleses prontos para atacar. Do outro lado do oceano, a enorme e rica colônia brasileira exposta a uma possível invasão. Pressionado por duas potências rivais, a escolha de Portugal era das mais difíceis. Fosse qual fosse a decisão, o castigo do inimigo era certo.
     
    Pois naquele fim de 1807, o que se viu foi uma fuga. Uma fuga em massa de nobres que se apinharam no porto em busca de lugares nas naus que rumariam para o Brasil. Vários atropelos aconteceram: bagagens ficaram em terra, pertences de pessoas que não viajariam foram parar nos navios, parentes foram separados durante a viagem.

    Mas a impressão de retirada covarde e atabalhoada não se justifica. Historiadores do século XX demonstram que a transferência da Corte não foi nada improvisada. Cogitada em diversas outras ocasiões (veja o conteúdo complementar no fim deste texto), a mudança deve ser entendida de acordo com a política externa lusitana do período. O reino optava pela neutralidade nos conflitos diplomáticos para evitar choques maiores com as duas principais potências políticas e militares da época: França e Inglaterra. A primeira desfrutava de poderio terrestre, enquanto a segunda gozava de supremacia marítima. Muitas vezes, entretanto, era impossível manter a neutralidade – daí a necessidade de eleger uma aliança mais sólida.

    Havia aqueles que defendiam a opção pela França. Um dos principais expoentes desta idéia era Antônio de Araújo de Azevedo (1754-1817), futuro conde da Barca, ministro dos Negócios Estrangeiros e da Guerra entre 1804 e 1807. Ele defendia a aproximação com o regime napoleônico, o que se tornou insustentável em 1807, quando se intensificaram as ameaças inglesas e francesas.

    A coligação com a Inglaterra é explicada basicamente pelo temor de um ataque às colônias (principalmente o Brasil), diante do forte poderio naval britânico. O receio não era infundado, afinal o primeiro-ministro da Inglaterra, William Pitt (1759-1806), em discurso no Parlamento, defendera que convinha à “Grã-Bretanha fazer assentar o trono do império português” na América, onde d. João reconquistaria seu reino e ditaria “as leis à Europa, e com o cetro de ferro poderia castigar a França dos seus crimes, e a Espanha [aliada da França] da sua perfídia”. O primeiro-ministro inglês defendia abertamente, em hipótese de uma aliança luso-francesa, a invasão do Brasil.

    Os portugueses foram obrigados a agir rapidamente. D. Rodrigo de Souza Coutinho (1755-1812), político experiente que estava há quatro anos afastado do governo, foi chamado em 1807 a reintegrar o gabinete de d. João como conselheiro de Estado. Ele defendia a tese de que Portugal dependia inteiramente do Brasil. Desde 1803, aliás, alertava para a necessidade de defesa contra os franceses. Os domínios portugueses corriam o risco de serem dilacerados entre França e Inglaterra, caso uma postura pró-britânica não fosse assumida. D. Rodrigo destacava a relevância da América portuguesa como a “mais essencial parte da monarquia”. Em hipótese de invasão francesa, existiria “a certeza de ir em qualquer caso V.A.R. [Vossa Alteza Real] criar no Brasil um grande império, e segurar para o futuro a reintegração completa da monarquia em todas as suas partes”. A transferência da Corte, para o futuro conde de Linhares, aparece como último recurso e associada à necessidade de defesa da soberania real. A opinião era compartilhada por outros estadistas que em períodos de maior iminência de invasão francesa enunciavam tal idéia. Foi o caso do marquês de Alorna (1754-1813), que em 1801 propôs ao príncipe: “V.A.R. tem um grande Império no Brasil, e o mesmo inimigo que ataca agora com tanta vantagem, talvez que trema e mude de projeto, se V.A.R. o ameaçar de que se dispõe a ir ser Imperador naquele vasto território”.

    De qualquer forma, estava claro que, na iminência de um ataque, a mudança seria a melhor opção para preservar o trono português, independentemente de que lado se fizesse a aliança. Mas era hora de decidir. O conflito na Europa se agravava, e o debate político em Portugal buscava uma definição: afinal, a quem se aliar? Em julho de 1807, Napoleão Bonaparte (1769-1821), imperador da França, insistiu que o governo português prendesse e seqüestrasse os bens dos súditos britânicos, fornecesse dinheiro para sustentação da guerra e reunisse suas forças navais às franco-espanholas. E deu como prazo-limite 1o de setembro. A Inglaterra, por sua vez, estacionou navios na frente de Lisboa, sufocando o comércio e ameaçando uma intervenção militar.

    As reuniões no Conselho de Estado português se intensificaram. D. João de Almeida de Melo e Castro (1756-1814) perguntava: valeria a pena “os terríveis golpes” ao comércio, “o retardo da correspondência com nossas colônias, […] para saciar a ambição e animosidade da França”. Melo e Castro, que havia sido embaixador de Portugal em Londres, observava a necessidade de o príncipe regente retirar-se para o Brasil, de forma a preservar a monarquia.

    Chegou-se a preparar uma frota para a transferência do filho de D. João, o príncipe da Beira, d. Pedro de Alcântara (1798-1834), futuro imperador d. Pedro I do Brasil. O príncipe, que tinha apenas 9 anos, deveria ser acompanhado ao Rio de Janeiro por d. Fernando José de Portugal, que governou a Bahia e foi vice-rei do Brasil. Tal medida chegou a ser informada à França, mas segundo o historiador Enéas Martins Filho era apenas uma cortina de fumaça para ocultar a trama secretamente organizada: a mudança de toda a família real.

    Longe de ter sido uma fuga impensada, a transferência da sede do governo português para seus domínios americanos possibilitou a permanência do trono de Portugal nas mãos da Casa de Bragança. Do outro lado do Atlântico, inaugurou um novo momento na história do Brasil.

    Conteúdo complementar: Uma idéia fixa

    Marieta Pinheiro de Carvalho é doutoranda em História Política pela UERJ e autora da dissertação Uma idéia de cidade ilustrada: as transformações urbanas da nova corte portuguesa (1808-1821), defendida nessa mesma universidade em 2003.

    Saiba Mais:

    MANCHESTER, Alan K. “A transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro”.In.: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional, 1968, vol. 277, pp.3-44.

    MARTINS FILHO, Enéas. O conselho de estado português e a transmigração da família real em 1807. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1968. (deixar)

    LIMA, Oliveira. D. João VI no Brasil. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996.
    LYRA, Maria de Lourdes Viana A utopia do poderoso Império. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1994.

Fonte: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/a-unica-saida

Sobre a Independência do Brasil

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Nem as margens ouviram

O Grito do Ipiranga não teve qualquer repercussão na época.

Lucia Bastos

16/9/2009

 
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    “Independência ou Morte!” Consagrado pela História, o Grito do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, quase não causou repercussão entre seus contemporâneos. Na imprensa do Rio de Janeiro, somente o número de 20 de setembro do jornal O Espelho exaltou “o grito acorde de todos os brasileiros”. Na prática, a Independência estava longe de chegar.

    Três séculos depois do descobrimento, o Brasil não passava de cinco regiões distintas, que compartilhavam a mesma língua, a mesma religião e, sobretudo, a aversão ou o desprezo pelos naturais do reino, como definiu o historiador Capistrano de Abreu. Em 1808, os ventos começaram a mudar. A vinda da Corte e a presença inédita de um soberano em terras americanas motivaram novas esperanças entre a elite intelectual luso-brasileira. Àquela altura, ninguém vislumbrava a ideia de uma separação, mas esperava-se ao menos que a metrópole deixasse de ser tão centralizadora em suas políticas. Vã ilusão: o império instalado no Rio de Janeiro simplesmente copiou as principais estruturas administrativas de Portugal, o que contribuiu para reforçar o lugar central da metrópole, agora na América, não só em relação às demais capitanias do Brasil, mas até ao próprio território europeu.

    O auge do questionamento das práticas do Antigo Regime aconteceu em 24 de agosto de 1820, quando estourou a Revolução Liberal do Porto. Clamava-se por uma Constituição baseada nas liberdades e direitos do liberalismo nascente. A revolução teve importante eco no Brasil, por meio de uma espantosa quantidade de jornais e folhetos políticos. Durante todo o ano de 1821, porém, não surgiu nesses impressos qualquer proposta favorável à emancipação.

    Até o início de 1822, ninguém falava de Brasil. Ao partir para as Cortes de Lisboa, para a discussão da Constituição do Reino, os deputados americanos pensavam apenas em suas “pátrias locais”, ou seja, em suas províncias. Só os paulistas demonstraram alguma preocupação em construir uma proposta para o conjunto da América portuguesa. Nem por isso abriam mão da integridade do Reino Unido: sugeriam o Brasil como sede da monarquia, ou então a alternância da residência do rei entre um lado e outro do Atlântico. “Independência” significava, antes de mais nada, autonomia.

    Ao longo daquele ano, porém, o discurso se radicalizou. A insatisfação com a metrópole crescia, pois das Cortes vinham propostas para retomar algumas das antigas restrições políticas e econômicas que tinham limitado a autonomia do Brasil no passado. Junto com o projeto constitucionalista surgia a ideia separatista, embora ainda não direcionada a toda a América portuguesa.

    Considerada na época como a data que oficializou a separação do Brasil de sua antiga metrópole, a aclamação de Pedro I como imperador, em 12 de outubro de 1822, não significou a unidade política do novo Império. A proposta foi aceita pelas Câmaras Municipais de Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Pernambuco titubeou durante algum tempo. Por causa das dificuldades de comunicação, Goiás e Mato Grosso só prestaram juramento de fidelidade ao Império em janeiro de 1823. Enquanto isso, Pará, Maranhão, Piauí e Ceará, além de parte da Bahia e da província Cisplatina, permaneceram leais a Portugal, refratárias ao governo do Rio de Janeiro. Foram tempos de guerra. No início de 1823, enquanto várias províncias já escolhiam seus deputados para a Assembleia Legislativa e Constituinte do Rio de Janeiro, o Maranhão elegia deputados para as Cortes ordinárias de Portugal.

    Enfim, apesar dos horrores da guerra e das tensões que não desapareceram, esboçou-se pela força a unidade territorial do Brasil. Mas o rompimento total e definitivo mantinha-se sub judice. Afinal, o imperador era português e sucessor do trono dos Bragança. Capaz, portanto, de reunir novamente, após a morte do pai, os dois territórios que o Atlântico separava.

    Somente em 1825, depois de demoradas negociações, D. João VI reconheceu a Independência, em troca de indenizações. Mesmo assim, o gesto veio sob a forma de concessão, transferindo a soberania do reino português, que ele detinha, para o reino do Brasil, sob a autoridade de seu filho. E D. João foi além: reservou para si o título de imperador do novo país, registrado nos documentos que assinou até sua morte, em 1826.

    Os laços de sangue faziam da Independência um processo ambíguo e parcial. Foi preciso esperar outra data, a da abdicação de D. Pedro I, em 7 de abril de 1831, para que se rompesse definitivamente qualquer vínculo do Brasil com Portugal. Assumia o poder um soberano-menino, também ele um Bragança, mas nascido e criado no Brasil. No linguajar dos exaltados do período regencial, acabava-se “a farsa da independência Ipiranga”.

    Lucia Bastos Pereira das Neves é professora titular de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e autora de Corcundas e constitucionais: a cultura política da Independência (1808-1822) (Revan, 2003).

  • Fonte: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/nem-as-margens-ouviram

Sobre a Maçonaria na História

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A maçonaria no século XXI

Da mais importante instituição do ideário moderno à consolidação das atividades solidárias: as transformações das lojas maçônicas ao longo dos séculos

José Rodorval Ramalho

1/8/2014

 
  • Um banquete maçônico, na França, em 1840 / Fonte: Wikimedia-cc

    Um banquete maçônico, na França, em 1840 / Fonte: Wikimedia-cc

    A chegada da Maçonaria ao Brasil, no final do século XVIII, pode ser entendida como um dos sinais do processo de modernização do país. A instituição foi o mais importante espaço de divulgação do ideário moderno (mesmo que mesclado com um mais tradicional) e conseguiu atrair uma parcela significativa da elite para dialogar, à sua maneira, com os ideais iluministas emergentes no período.

    A atividade maçônica formou, a partir do início do século XIX, uma rede de lojas por todo o território brasileiro e organizou o que, provavelmente, foi a primeira atuação política articulada (nacional e internacionalmente) de uma instituição civil de que temos notícia no nosso país. Funcionava como uma espécie de arena para discussões voltadas ao processo de modernização, a Independência, a abdicação de Dom Pedro I, o abolicionismo, a questão religiosa, a separação da Igreja do Estado, o movimento republicano e outros assuntos menos comentados.

    O ambiente maçônico é um lugar que privilegia discussões filosóficas, atividades filantrópicas, debates sobre a realidade sócio-econômica e cultural. Ao mesmo tempo, a maçonaria é uma instituição secreta, iniciática e, consequentemente, aristocrática, na qual só participam homens (pelo menos no “movimento maçônico regular”), alfabetizados, sem defeitos físicos, maiores de idade e com nível de renda suficiente para assumirem os custos da filiação à instituição; instituição na qual a hierarquia está presente em todos os seus procedimentos, desde a estratificação em graus de iniciação, até os vários níveis de luto quando da morte de seus integrantes.

    Ao longo do século XX o adensamento da sociedade civil e a consequente emergência de novos atores no espaço público fizeram com que a maçonaria perdesse aquele protagonismo identificado no século XIX. Mesmo assim a organização está presente em todas as capitais e principais cidades do país. Além disso, estima-se que somente o Grande Oriente do Brasil (GOB), uma das federações maçônicas brasileiras, abrigue em torno de 100 mil maçons, nas suas mais de 2.200 lojas. A taxa de crescimento do número dessas lojas girou em torno de 10% nos últimos dez anos. A maçonaria, portanto, não está se desintegrando, continua em expansão.

    Podemos verificar na solidariedade maçônica um conjunto de atividades que procura apoiar, auxiliar, defender e acompanhar maçons e não-maçons em situações adversas, contingentes ou permanentes. Essas ações que, quase sempre, se desenvolveram por meio das próprias lojas, já se viabilizam a partir de organizações civis criadas especificamente para estes fins.

    A maçonaria também tem participado intensamente de várias campanhas, entre elas, contra o trabalho infantil e contra as drogas. Tais campanhas são encaminhadas conjuntamente com órgãos estatais (como as prefeituras, Polícia Federal, Ministério do Trabalho), instituições internacionais (como a OIT e a Unesco) e várias outras organizações da sociedade civil.

    Outro tipo de ação solidária que também pode ser observada no universo maçônico é aquela que socorre imediatamente cidadãos que se encontram em situação de extrema dificuldade de sobrevivência e envolve arrecadação de alimentos, remédios, roupas, cobertores, como é o caso das campanhas de ajuda aos flagelados da seca no Nordeste e aquelas campanhas que se solidarizam com vítimas de outras catástrofes naturais (cheias, epidemias, desabamentos etc.).

    Muitas ações maçônicas passam despercebidas, não somente pelo fato da instituição primar por certa discrição, mas também porque no imaginário sobre a Ordem sempre se destacaram outros aspectos que giram em torno dos seus segredos rituais, da proibição da participação das mulheres, do seu anticlericalismo, da sua suposta onipresença nos espaços de decisão política e muitas outras representações que foram se fixando ao longo dos tempos e que construíram, muitas vezes, uma imagem distorcida da maçonaria. A pesquisa social, no entanto, tem feito muito pouco para compreender esse tipo de ação da instituição que vem desempenhando um papel importante na formação da nossa cultura associativa, na nossa tradição assistencial e no nosso modelo de voluntariado. Podemos considerar, pelo menos, quatro hipóteses para esse desinteresse: a) a maçonaria se manteve muito fechada ao diálogo com a academia; b) a instituição, de fato, perdeu importância com a expansão do associativismo em geral; c) a maçonaria foi identificada com a ditadura militar em função do seu apoio explícito à contrarrevolução de 64; d) o estudo sobre elites não é o forte da pesquisa social brasileira.

    O percurso da maçonaria não é linear ao longo da história. Nos três séculos de sua existência, viveu muitos momentos de glória, bem como situações extremamente difíceis. Perseguiu e foi perseguida. Em todos esses momentos, os maçons reinventaram suas próprias tradições para continuar seu caminho. Resta saber se essa força e capacidade continuarão a caracterizar a instituição neste século que se inicia.

    José Rodorval Ramalho é professor de Ciências Sociais na Universidade Federal de Sergipe e autor de “Novae sed Antiquae: tradição e modernidade na maçonaria brasileira” (Ed.Ex-libris, 2008).

  • Fonte: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/a-maconaria-no-seculo-xxi