Galerinha do CONFHIC – São José – textos sobre Estudos Africanos

 

Texto 1: Cultura Africana: histórias e estereótipos:

http://www.recantodasletras.com.br/ensaios/1634680

 

Texto 2 – Um Brasil, muitas Áfricas.

Iorubás e ambundos foram importantes na formação do Brasil, mas apenas parte de um grande coro, composto de gente de quase toda a África subsaariana.

Alberto da Costa e Silva

 

1/3/2012

 

O tráfico transatlântico trouxe para o Brasil escravos provenientes de mais de uma centena de povos africanos. Acima, casais de Senegal, Benim e Congo, em gravuras de Grasset de Saint-Sauveur.

De que África teria saudades um africano no Brasil? De sua aldeia, certamente, ou do bairro da cidade onde passou sua infância. No Brasil, deixara de ser conhecido por sua terra natal, pelo seu clã, pelo nome que o seu povo dava a si mesmo ou recebia dos vizinhos. Exceto para ele e para os conterrâneos ou vizinhos que encontrava no exílio, não era mais um iaca, auori ou gun: passara a ser chamado angola, nagô ou mina, e africano, e negro. Na fazenda ou na cidade onde penava, podia haver quem falasse o seu idioma ou outro próximo, e até quem fosse de seu vilarejo e seu malungo, ou companheiro de barco na travessia do Atlântico. Por toda parte, porém, encontrava gente estranha, de outras Áfricas que não a sua, com tradições, crenças, valores, costumes, saberes e técnicas diferentes. Este, em sua terra, andava de camisolão até os pés e gorro na cabeça, aquele não tinha mais do que um pano entre as pernas, amarrado na cintura. Aqui, as mulheres entrançavam os cabelos com contas e conchas; ali, cobriam a cabeça com véu ou turbante; acolá, raspavam o crânio. Umas vestiam-se apenas com miçangas, outras com bubus, ou envolviam o corpo com panos coloridos, e todas exibiam muitos colares e argolas nos braços e nos tornozelos.

Cada um de nós não domina mais do que uma pequena parcela de sua cultura. Nem todos os sossos da Guiné e outros africanos que produziam ferro de alta qualidade sabiam operar um forno ou uma forja, mas alguns poucos, sim. No Brasil, os que já eram ferreiros ou apenas conheciam rudimentos do ofício construíram fornos conforme o modelo predominante em sua terra. Isso explica o fato de terem existido fornos tão diferentes em Minas Gerais, às vezes a pouca distância uns dos outros.

Os africanos não se restringiram a ser os pioneiros da metalurgia de ferro no Brasil. Desde muito acostumados à cata do ouro  do qual, durante séculos, algumas regiões como o Rio Falemé, o Alto Níger, o país acã e o planalto de Zimbábue foram os principais fornecedores da Europa e do mundo muçulmano , trouxeram com eles as técnicas da bateia e de escavação de minas. Alguns eram bons ourives, que criavam, na África, joias de grande beleza, como as dos axantes, e passaram a fazê-las com novos modelos no Brasil.

Sabiam como criar o gado fora dos estábulos, solto no campo, e o foram multiplicando e espalhando savanas afora, savanas muito semelhantes às que haviam deixado na África. Pouco valiam no Brasil as lições dos campinos do Ribatejo, e muito as dos fulas (ou fulanis) e hauçás (ou haussás). Como as práticas agrícolas portuguesas lhes foram impostas, só puderam plantar do modo a que estavam acostumados em suas pequenas roças e nos quilombos. Apesar disso, aqui e ali aplicaram os seus saberes, como os balantas e outros negros da Alta Guiné no cultivo do arroz no Maranhão. E trouxeram para o país muitos vegetais, como o dendê, a malagueta, o maxixe e o quiabo, básicos na cozinha brasileira, que enriqueceram com novas comidas. Assim como ocorria na África, as mulheres iam vendê-las nas ruas. E continuam a fazê-lo até hoje, em Salvador como em Lagos, e a fritar o acarajé num fogareiro, diante do freguês.

Aos africanos deve-se também que se tenham produzido, sobretudo nas grandes propriedades rurais, e ao arrepio das proibições régias, tecidos para uso dos escravos, em teares extremamente simples, horizontais ou verticais, conforme a região de origem do tecelão ou da tecelã. Repetiu-se aqui o que sucedera no arquipélago de Cabo Verde, grande exportador de panos, onde os portugueses esqueceram os teares europeus em favor dos africanos.

A cabana em que vivia esse tecelão era construída como na África: as paredes de sopapo e o teto de folhas de palmeira ou de capim. Ainda que competindo com o mocambo de palha de tradição ameríndia, a morada do pobre no Brasil seria, durante muito tempo, de sopapo, à africana, e não de taipa de pilão ou de pedra, como em Portugal. Não prosperaram aqui as cabanas cônicas; impôs-se a de planta quadrada, com teto em duas águas, que, no Brasil, ganhou janela. Já a casa dos ricos, trazida de Portugal, recebeu da África do Oeste, e talvez também da Índia, o alpendre na frente ou nos fundos, e nele, lá como cá, passava-se boa parte da vida.

Nessas varandas, as crianças ouviam os relatos fantásticos de diferentes nações africanas, cujos personagens e enredos se mesclavam entre si e com os ameríndios e europeus, de tal modo que se tornava difícil separar o Curupira dos tupis do moatiadosaxantes, pois ambos, do tamanho de anões, tinham os pés virados para trás e eram os senhores dos animais selvagens. Vindos da África, bichos-papões, jogos e brinquedos desembarcaram no Brasil. E lembranças de desfiles de reis, com seus enormes guarda-sóis coloridos, que, no Brasil, se reproduziram nos maracatus, nas congadas e nos reisados.

Nesses desfiles reais, ouviam-se tambores, agogôs, pífanos e numerosos outros instrumentos que eram deles e são nossos. Esses instrumentos animavam as festas nos dois lados do Atlântico, com ritmos e melodias que se foram transformando, ao se entrelaçarem com as europeias, na nossa música.

Não se dançava na África apenas pela alegria do convívio. Dançava-se também para reverenciar os deuses e recebê-los na alma. Foram muitas as religiões que atravessaram o oceano, pois cada povo tinha a sua. Algumas absorveram outras crenças ou foram por elas absorvidas, gerando novos sistemas religiosos, como a umbanda. Outras não deixaram vestígios. Mas, uma das religiões trazidas da África, a dos orixás, converteram-se em grande número, principalmente no Brasil e em Cuba, pessoas de outras origens, e o que era a religião dos iorubás tornou-se uma religião universal.

Por iorubás passaram a ser designados, desde a metade do século XIX, diferentes grupos que, na atual Nigéria, na República do Benim e no Togo, falam a mesma língua, embora com variações dialetais, possuem culturas semelhantes e se aglutinavam em torno de cidades-estado, compartilhando muitas tradições, ainda que em alguns casos pudessem ser diferentes e até mesmo conflitantes. Tidos como iorubás (e, no Brasil, também nagôs), sabiam-se oiós, ifés, egbas, auoris, quetos, ijexás, ijebus, equitis, ondos, igbominas ou de outras nações. Assim também os falantes de quimbundo, os ambundos de Angola, compreendiam vários grupos com dialetos e culturas diferenciados, entre os quais andongos, dembos, hungos, quissamas, songos, libolos e bângalas.

Os vários grupos iorubás e, ainda mais, os ambundos tiveram grande importância na formação do Brasil. Mas foram apenas parte de um grande coro, composto de gente de quase toda a África subsaariana. De certas regiões vieram números enormes; de outras, pouquíssimos. Houve quem fosse obrigado a longuíssimas viagens, do centro do continente até os portos litorâneos, e se conhecem casos de cativos feitos a oeste do Rio Cuanza e embarcados em Moçambique.

Enriquece o quadro saber-se que havia ligações preferenciais entre portos brasileiros e africanos. O Rio de Janeiro, por exemplo, vinculava-se, sobretudo aos portos de Angola, Congo e Moçambique, e recebia, por isso, não só pessoas dos diferentes grupos ambundos, mas também, entre muitos outros, congos, sossos, iacas, vilis, huambos, lubas, galangues, bailundos, luenas, macuas e tongas. Salvador comerciava intensamente com o golfo do Benim, e em seus portos embarcavam fons, iorubás, mahis, ibos, ijós e efiques, além de indivíduos das savanas mais ao norte, hauçás, nupes (ou tapas), baribas e bornus. De São Luís do Maranhão ia-se com facilidade à Alta Guiné, e de Cacheu e Bissau lhe chegaram mandingas, banhuns, pepeis, felupes, balantas, nalus e bijagós.

Para o Brasil foram trazidos africanos de mais de uma centena de povos diferentes. Muitos deles já se conheciam na África, por serem vizinhos ou terem comércio entre si. Um gã se entendia com os evés, os acuamus e os auoris, que viviam na mesma região e tinham costumes parecidos, e talvez até mesmo com os hauçás que se aproximavam do litoral para comerciar, pois era comum que um africano falasse mais de um idioma: o seu e outro ou outros que aprendera no convívio do mercado ou com as esposas de seu pai, algumas delas estrangeiras. E as diferenças eram compensadas pelas semelhanças, em processos contínuos de mestiçagem física e cultural. Algumas vezes, dois ou mais povos se entrelaçavam e criavam um novo, como fizeram os africanos que foram coformadores do Brasil.

Alberto da Costa e Silva é membro da Academia Brasileira e Letras e autor de Um rio chamado Atlântico (Nova Fronteira, 2003).

 

Fonte – http://www.revistadehistoria.com.br/secao/dossie-imigracao-italiana/um-brasil-muitas-africas

 

 

Texto 3 – Batalhas e batalhas…

Rituais tradicionais trazidos da África pelos escravos ganham novo significado com santos católicos

Marina de Mello e Souza

Sangamentos e congadas são representações de batalhas. Fazem parte dos festejos em homenagem aos santos protetores das comunidades negras  no Brasil, no caso das congadas, e demonstram o poder dos chefes do Congo, de Matamba e de Angola nos séculos XVII e XVIII, no caso dos sangamentos. Esses ritos, realizados nas duas margens do Atlântico em contextos completamente diferentes, como formas africanas de exaltar o poder dos governantes e ligá-los ao mundo espiritual, também serviram para reverenciar os que se destacavam no interior de comunidades formadas por descendentes de escravizados que aderiram ao catolicismo e os santos de sua devoção.

Em 1624, o então governador de Angola, Fernão de Sousa, escreveu longa carta ao rei de Portugal, na qual se referiu às estreitas relações entre os chefes do Congo e os holandeses, com quem comerciavam apesar das recomendações contrárias dos portugueses, que se julgavam seus senhores. Ameaçado de ser atacado pelo exército de João Corrêa de Sousa, o governador lusitano anterior, o manicongo, ou rei do Congo, Garcia I, escreveu aos holandeses pedindo ajuda militar. Ao saber da chegada de uma armada na costa, o mani de Bamba, indicado na carta como sendo a segunda pessoa do reino do Congo, festejara muito e “sangara, que é festejar esgrimindo com espadas nuas”.

De acordo com o missionário capuchinho Girolamo da Montesarchio, em 1652, antes de assumir o governo de Sundi, uma chefatura do Congo, D. Rafael Vale das Lágrimas e seu séquito travaram uma batalha fingida com o quitome (ou kitome), sacerdote que atendia toda a região e era responsável pelos ritos dos espíritos territoriais. Com a vitória de D. Rafael, que também usava o título de duque, o quitome cedeu-lhe os direitos à terra e à água.

Em 1660, Jinga (Njinga ou Nzinga), rainha de Matamba, estado vizinho do Congo e de Angola, recebeu, por meio dos missionários capuchinhos, uma carta do papa Alexandre VII, em resposta à missiva que lhe endereçara anos antes. O padre João Antônio Cavazzi de Montecuccolo descreveu as cerimônias com que se celebrou o recebimento dessa carta. Um cortejo formado por guardas armados, escravos pintados, chefes “enfeitados com o melhor que tinham”, músicos, damas que carregavam arcos, cestos, vasos e um estandarte, acompanhou a rainha à igreja, onde foi celebrada uma missa. Ela estava “ricamente ataviada com adereços de ouro e muitas jóias, e com um elegante elmo coberto com penas”. Após a missa, permeada de discursos sobre a carta, que Jinga trazia numa bolsa de brocado pendurada ao pescoço, foram distribuídos títulos, honras e presentes, e se libertaram escravos. Fechando as celebrações, “à tardinha, na praça real, enquanto estrepitavam os instrumentos guerreiros, as donzelas da rainha, à maneira das amazonas, fingiam uma batalha”, da qual também participou Jinga, que, apesar dos seus cerca de 80 anos, impressionou Cavazzi pela agilidade com que manejou as flechas, o arco e a azagaia.

Batalhas rituais também foram por ele presenciadas nas cerimônias fúnebres da rainha, que morreu em 1663, depois de receber a extrema-unção do missionário. Por cinco dias, de manhã, ao meio-dia e à tarde, sucederam-se representações de guerras, com assaltos, ciladas, perseguição dos inimigos, enfrentamento de esquadrões, “num arremedo de peleja em que uns fingiam ceder o lugar, outros defendê-lo e outros reconquistá-lo.” Alguns se faziam de mortos, outros se rendiam prisioneiros, uns fugiam e depois se recompunham, outros venciam e descansavam, e era tão intensa a batalha fingida “que qualquer pessoa teria julgado verdadeira”.

A tela a óleo de Jasper Beckx, de 1643, retrata um enviado do rei do Congo, provavelmente D. Miguel de Castro.

Um século depois, os capuchinhos ainda estavam dedicados a salvar almas naquelas terras, e um deles registrou a representação de uma batalha ritual no Congo. Em manuscrito anônimo de meados do século XVIII, atribuído a Bernardino d’Asti, em meio a uma série de aquarelas, há uma que representa uma batalha ritual, na qual um grupo dança, ao som de um tambor e uma marimba, empunhando espadas e escudos. Diz o início da legenda: “O missionário dá sua bênção ao mani para seus jogos de armas, o que significa que o chefe da aldeia, que mostra ostensivamente sinal de grande respeito para com o pai missionário, recebe, de joelhos, a bênção para lutar; é uma espécie de jogo, no qual, com o povo reunido, se fazem movimentos de armas, como mostrado aqui”.

No contexto da presença holandesa na região e das disputas entre o Congo e Sônio (Sonho ou Soyo) – uma província que clamava por autonomia política –, o manicongo D. Garcia II enviou em 1643 uma embaixada a Mauricio de Nassau, em Recife, buscando exclusividade de comércio e apoio político. Gaspar Barleus fez uma descrição das danças que os embaixadores congoleses executaram diante das autoridades flamengas, com saltos e “temíveis floreios de espadas, o cintilar dos olhos simulando ira contra o inimigo”.

Essas danças que simulavam batalhas e embates entre guerreiros chegaram ao Brasil não só com essa embaixada congolesa, mas também pelas mãos dos escravizados. Estes, ao inventarem novas formas de convívio social e de exercício da religiosidade no seio da sociedade brasileira escravista, recriaram as batalhas rituais, inserindo-as no interior das irmandades religiosas de homens leigos, que eram permitidas e mesmo estimuladas pelos senhores e administradores coloniais. No início do século XIX, elas passaram a ser chamadas de congadas e estavam disseminadas por várias regiões do Brasil, associadas aos festejos relacionados à coroação de um rei congo e à afirmação de uma identidade reconstruída neste lado do oceano, mas na qual ressoava o catolicismo adotado por africanos quando ainda estavam em sua terra natal. Travadas em torno das figuras de um rei, de seu séquito e exército, essas batalhas rituais, ou congadas, também estavam ligadas às formas de organização do poder no interior das comunidades que as realizavam.

São muitas as descrições dos cortejos reais e congadas no Brasil do século XIX.  Ao viajar pelo interior de Goiás em 1818, Johan Emanuel Pohl assistiu a uma dessas festas, em homenagem a Santa Ifigênia, na qual uma batalha foi representada. Conforme sua narrativa, respondendo à ordem do rei negro para que os festejos começassem aquele que representava o general, após receber a bênção do rei com seu cetro, com olhar feroz gritou que via à distância um estrangeiro suspeito, “ao que o imperador ordenou que marchassem sobre o inimigo e o enfrentassem, e para tanto pedia a proteção de Santa Ifigênia nesse combate”. Depois de ameaçado de morte por espadas desembainhadas, o estrangeiro esclareceu que era embaixador de um reino distante e que viera participar da solenidade, à qual foi incorporado.

Francis de Castelnau, que esteve em Minas Gerais em 1843, descreveu a dança dramática como um “extravagante carnaval”, que “misturava as reminiscências da costa africana com os costumes brasileiros e cerimônias religiosas”. Na festa que ele presenciou o rei e a rainha, cercados pela corte, acomodaram-se em suas cadeiras “magnificamente vestidos” e com coroas e cetros de prata. Diante deles desfilaram capitães, embaixadores e guerreiros, “com grandes topetes de penas, sabres de cavalaria ao lado, e escudos no braço”. Diálogos, danças e combates simulados ocorreram, com “toda espécie de cambalhotas dignas dos macacos mais exercitados”.

As descrições das congadas brasileiras do século XIX são mais preconceituosas e menos minuciosas do que as descrições das batalhas rituais africanas feitas pelos missionários dos séculos XVII e XVIII, pois, enquanto as primeiras diziam respeito a escravos, as segundas estavam ligadas a chefes centro-africanos, dos quais os missionários dependiam para sobreviver, e que eram o alvo de sua missão catequética. Também os significados dessas batalhas fingidas não eram os mesmos, apesar de guardarem alguma proximidade: no Brasil reforçavam uma identidade católica negra e no Congo e em Matamba reforçavam o poder político do chefe. Mas nos dois lugares ajudavam a definir a identidade do grupo, que se unia em torno de um chefe, real ou simbólico, que, além de governar os homens, fazia a conexão com a esfera dos espíritos, ancestrais ou santos.

 

Marina de Mello e Souzaé professora da Universidade de São Paulo e autora de África e Brasil africano (Ática, 2006).

 

FONTE – http://www.revistadehistoria.com.br/secao/dossie-imigracao-italiana/batalhas-e-batalhas

 

 

Texto 4 – Sinhás pretas

Testamentos e inventários de escravas alforriadas revelam talento para os negócios com base nos ensinamentos que trouxeram da terra natal

Sheila de Castro Faria

1/3/2012

Ana foi escrava de outra mulher, preta forra, ambas da Costa da Mina. Talvez como sua ex-senhora, talvez ensinada por ela, conseguiu se alforriar pagando pela liberdade com recursos de sua “própria indústria e trabalho”, conforme declarou em seu testamento, de 1798. Chamava-se Ana Teixeira Guimarães e tinha mais de 60 anos quando morreu, em Mariana, Minas Gerais.

A documentação relativa ao período escravista do Brasil permite pouca observação sobre a vida material e as escolhas dos escravos em seu cotidiano. Uma das formas de se vislumbrar alguns aspectos é por meio de inventários e testamentos. Geralmente feitos por pessoas com recursos, os documentos eram ditados pelos doentes desenganados. Poucos meses depois do falecimento, realizavam-se os inventários, quase uma fotografia dos bens materiais dos proprietários no momento da morte. Tudo era descrito, até mesmo objetos sem valor.

O conjunto de dezenas desses inventários permite entrever padrões de certos grupos sociais, como o das pretas forras, mulheres que conseguiram libertar-se da escravidão e acumular bens.

Ana teve inventário porque possuía bens, e bens significativos. Era dona das casas de sobrado onde morava, em frente à Capela da Ordem Terceira de São Francisco, avaliadas em 310 mil réis, valor pelo qual poderia  comprar pelo menos três jovens escravos recém-chegados da África. Tinha cinco escravos: quatro mulheres e um homem da nação Angola. Uma delas era Juliana, da Costa da Mina como ela, para quem deixou, divididos em quatro partes, 76.800 réis pelo tempo de seis anos a contar do dia de seu falecimento. Em seis anos, vivendo de seu próprio trabalho, Juliana tinha de completar o valor estipulado.

Ana deixou como herdeira de seus bens a “cria” de sua escrava Juliana, sua afilhada Francisca, de dois anos, liberta no batismo. Deixou de “esmola” a Juliana uma morada de  casas cobertas de telhas.

Ser proprietária de casas e escravos era uma situação já bastante confortável para essas mulheres. Mas Ana possuía outros bens: braceletes, brincos, anéis, laços e botões de ouro adornados com pedras preciosas, como diamantes e topázios, e colheres e garfos de prata, num valor suficiente para a compra de dois escravos jovens: 197.200 réis.

Também era dona de outros bens requintados e restritos a poucos afortunados, de mercadorias importadas, provavelmente destinadas ao comércio, não sendo necessariamente para seu próprio uso. Uma delas era uma imagem em marfim de Santa Rita, objeto raro até mesmo entre os mais ricos da região. De seu inventário constam ainda fronhas e lençóis de linho, colchas e toalhas de algodão, saias de veludo carmesim e preto e de seda branca, muitas camisas de linho e de algodão, vestimentas de cambraia, de lemiste (tecido fino de lã inglês), chapéus elegantes, uma variedade incrível de lenços de diversos tecidos, pintados com flores ou aves na Ásia ou na Europa. Saias de veludo carmesim e preto não eram pouca coisa: o valor das duas saias somava 30 mil réis, um terço do preço de um escravo jovem.

Até os objetos feitos com materiais do Brasil eram dos melhores: sete catres – um tipo simples de cama –, dois espelhos, mesas grandes e pequenas de jacarandá, muitas com pés torneados, gavetas e fechaduras.

Mesmo sabendo que certas palavras da época não tinham o mesmo significado de hoje, algumas eram de difícil entendimento. Ana tinha três “pratos de pó de pedra”.  Segundo Luís Frederico Antunes, a louça europeia imitando padrões decorativos orientais era denominada de “louça de pó de pedra”. Mais interessante ainda era “prato de guardanapo da Índia”. Ana tinha oito deles. Esses pratos constam de vários inventários de mulheres forras de Mariana e figuram nas cargas de naus da Carreira da Índia.  Eram pratos finos, talvez de porcelana, usados nas refeições. Por serem trazidos em navios da Carreira das Índias, eram considerados como da Índia, embora feitos na China.

Mercadorias importadas da Ásia ou da Europa eram bens consumidos pelas elites. Mas, em meio a este grupo social, devem ser considerados outros estratos da população, como o formado por essas pretas forras, nascidas na África e transferidas para o Brasil em idade suficiente para terem adquirido a cultura de seus povos de origem. Podiam não ter prestígio social na sociedade escravista, mas tinham riqueza. Também compunham uma elite.

Suas escravas eram quase sempre mulheres nascidas na África. Em suas casas, era comum que só houvesse mulheres: as “sinhás pretas” viviam com suas escravas. A maioria não tinha filhos. Deixavam seus bens em herança para ex-escravas ou para as “crias”, ou crianças nascidas em suas casas, filhas de suas escravas.

Essas escolhas eram delas ou imposições da sociedade? Não tinham filhos porque foi impossível ou porque não quiseram? Eram proprietárias de mulheres em vez de homens porque eram mais baratas? Por que investiam seus recursos em joias, roupas caras e louças importadas? Cada vez tenho mais certeza de que eram escolhas próprias e pautadas por suas culturas de origem.

Em várias formações africanas havia uma rígida divisão sexual do trabalho. As mulheres eram responsáveis pelo preparo das comidas e pelo comércio de produtos agrícolas, de alimentos e das mais variadas mercadorias. Mulheres comerciantes predominavam nos mercados e feiras das aldeias e cidades em muitas regiões que tiveram contato com os europeus. A pimenta era um dos produtos mais procurados por eles na costa da África desde os primeiros tempos da expansão marítima, e eram as mulheres que monopolizavam seu comércio. Conclusão: ficaram ricas. Com o tempo, incorporaram novos produtos, provenientes de outras praças mercantis.

Interceptavam comerciantes, a fim de comprar barato e revender com lucro suas mercadorias; participavam do comércio de longa distância, inclusive por meio de procuradores, e intermediavam os produtos do tráfico de escravos português, como a cachaça, o tabaco e os panos das Índias. Um exemplo foi Madame Tinubu, que atuou em Badagry e Lagos, no golfo de Benim, na segunda metade do século XIX, onde negociava sal e tabaco, e era intermediária dos comerciantes de escravos do Brasil. Juntou grande fortuna, era dona de muitos escravos e ficou conhecida por seus opositores como “o terror de Lagos”.

Nem sempre tão poderosas como Tinubu, mas com redes comerciais importantes, foram as mulheres que dinamizaram a economia de muitas regiões da África e continuaram a fazer a mesma coisa nas Américas.

Explica-se a escolha de escravas, e não de escravos, por parte das pretas forras no Brasil: as cativas atuariam no comércio ao lado ou a mando delas. Não tinham filhos porque não queriam procriar na diáspora. Ana, como muitas outras, deixou herança para uma afilhada, Francisca, e uma casa para a mãe da menina, certamente para que cuidasse dela e lhe transmitisse ensinamentos. Juliana provavelmente se transformaria em uma nova Ana ao usufruir os recursos. Ana tinha entre seus bens trempes e fogareiros, tachos e apetrechos de cozinha, utilizados na preparação e na venda de alimentos. A quantidade de catres sugere que sua casa pode ter sido uma hospedaria, incluindo o fornecimento de comida.

A entrada de novas mercadorias nesse comércio não assustava as comerciantes: incorporavam as novidades às suas transações. Os objetos nos quais decidiram investir seus recursos eram luxuosos no Brasil: joias, tecidos e louças importados do Oriente. Era parte de um comércio de longuíssima distância. Uma delas entregou tecidos a um comerciante para que lhe trouxesse uma escrava da África.

São impressionantes a capacidade de adaptação e o desempenho de mulheres como Ana Teixeira de Guimarães. Chegaram ao Brasil à força, nas condições mais adversas e no pior lugar social possível. Essas “Anas” conseguiram resultados que fariam inveja à maioria dos homens que nunca foram escravos, que se mudaram para a América por iniciativa própria, em busca de enriquecimento, e tiveram as expectativas frustradas.

 

Sheila de Castro Faria é professora da Universidade Federal Fluminense e autora do artigo “Francisca Maria Teresa e as Sinhás Pretas no Brasil colonial”. In VAINFAS, Ronaldo; SANTOS, Georgina Silva dos; NEVES, Guilherme Pereira das (orgs.).Retratos do Império. Trajetórias individuais no mundo português nos séculos XVI a XIX. Niterói: Ed. UFF, 2006.

 

Fonte – http://www.revistadehistoria.com.br/secao/dossie-imigracao-italiana/sinhas-pretas

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