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Entrevista – Paul Lovejoy

“Escravidão por todos os lados”

Bruno Garcia e Rodrigo Elias

1/3/2012
  • Ele não exime ninguém. Quando o assunto é escravidão, o mundo inteiro entra em pauta. Professor da Universidade de York, em Ontário, no Canadá, e referência certa nas pesquisas sobre a escravidão no próprio continente africano, antes da chegada dos europeus no século XV, Lovejoy vai direto ao ponto: “A história dos descendentes africanos não é somente deles. É a de todo mundo”.

    Naturalizado canadense, Lovejoy nasceu nos Estados Unidos. E foi ainda jovem que ele se envolveu com a História. Com o tempo, chegou à América Latina, mas se apaixonou mesmo foi pela África. “Quando percebi o quanto o continente era fascinante e o quanto as pessoas eram incríveis… isso simplesmente dominou minha vida”, diz ele, feliz por estar hoje celebrando o surgimento de uma geração de historiadores capacitados para tratar a África “de um modo científico”.

    Em recente visita ao Brasil, Lovejoy conversou com a equipe daRevista de História na residência de Alberto da Costa e Silva, especialista na História da África, e falou sobre a escravidão do passado e suas implicações no presente. O Canadá vem à tona vez ou outra, seja como liderança no cenário multicultural atual ou como porto seguro para escravos fugidos dos EUA em meados do século XIX. Lovejoy tratou das diferentes etnias africanas que atravessaram os mares e do quanto os senhores estavam conscientes das características, origens e habilidades de seus escravos. E terminou nossa conversa com um alerta: “Um escravo é antes um indivíduo com uma personalidade, desejos e heranças”. 

    REVISTA DE HISTÓRIA Como um canadense acabou virando especialista em História da África?

    PAUL LOVEJOY Eu me envolvi com a História quando ainda era jovem e lutava contra o imperialismo norte-americano. A tentativa de entender as forças políticas e sociais em jogo no final dos anos 50 e 60 me levou, inevitavelmente, a uma forte crítica aos Estados Unidos. E isso me trouxe para a História porque eu queria entender como os Estados Unidos se tornaram um país tão racista e imperialista, mas poderoso. Depois de um bom tempo, comecei a ficar muito mais interessado em outras partes do mundo. Primeiro a América Latina e depois a África. Eu me apaixonei pela África. Quando percebi o quanto o continente era fascinante e o quanto as pessoas eram incríveis… isso simplesmente dominou minha vida.

    RH Como vê os últimos 20 anos de pesquisa sobre a História do continente africano?

    PL Houve uma verdadeira revolução nesse período. E o que vemos hoje é a consolidação de uma geração inteira de pesquisadores que foram profissionalmente treinados para tratar a África de um modo científico. E esse treinamento, do qual eu penso que fiz parte, nos levaria a um sistema de investigação de qualidade que trataria todas as partes do mundo igualmente. Acho que nessas duas décadas vimos os resultados desse investimento. É um verdadeiro fenômeno tudo o que foi produzido nessas décadas, seja em termos quantitativos ou qualitativos. Não é mais possível para uma única pessoaestudar todos os ramos de pesquisa sobre a África. Era o que acontecia nos final dos anos 60, quando comecei a me interessar pelo continente. Não é mais possível fazer isso. É demais. Hoje nós temos 80 universidades e muitos pesquisadores. E olhe que ainda existe muito material a ser investigado. Esta, aliás, foi uma das surpresas que tive quando me interessei pela África.

    RH Você achava que o material era escasso?

    PL Sim. Eu acreditava que era precisotrabalhar a História da África justamente porque as informações eram muito limitadas. Estava redondamente enganado. A quantidade de fontes existentes na Europa é enorme. E eram documentos que demandavam todos os tipos de técnica. Todo arquivo no Brasil tem alguma relação com a História da África. Todos. E você sabe de uma coisa? Dá-se o mesmo nos Estados Unidos. Cada condado, cidade ou biblioteca local tem material relacionado às pessoas que descendem de africanos. Eles estão no centro do desenvolvimento da América. De todas as partes da América, incluindo o Canadá! O primeiro africano chegou ao Canadá em 1604.

    RH Os estudos sobre a escravidão também estimularam uma maior aproximação com a África?

    PL Com certeza. A escravidão é um problema para todo mundo. Às vezes ela é percebida como um problema para os povos da África ou para os que são percebidos como descendentes africanos, mas, na verdade, a escravidão está por todos os lados. Um pequeno fazendeiro canadense do século XVIII produzia coisas que eram automaticamente vendidas no Caribe para sustentar o sistema escravista. Então, todo mundo tem sua parte. Essa é a verdade. A história dos descendentes africanos não é somente deles. É a história de todo mundo.

    RH Qual foi o impacto da escravidão sobre a economia e a política interna da África?

    PL A escravidão cobra um preço terrível em qualquer lugar. Havia muita violência e destruição. Tanto foi construído e destruído… E esse tipo de coisa é muito dura para a população. Uma das consequências da escravidão nas sociedades africanas modernas foi o estabelecimento de regimes de força. A escravidão foi substituída pelo colonialismo, que era uma forma de ditadura. E como foram os colonizadores que criaram as bases dos exércitos africanos, após a independência instalaram-se novas ditaduras.
    Isso é algo complexo, mas que começou com a escravidão. Não é que a África tenha se tornado mais corrupta do que qualquer outro lugar. Mas os recursos eram mais escassos; portanto, o impacto foi mais severo.

    RH Como pode ser explicada a continuidade da escravidão na África mesmo depois que a demanda externa se extinguiu?

    PL Nós podemos usar o modelo econômico de oferta e demanda. Se o fator demanda desaparece na América, o que acontece com a oferta? Ela não desaparece simplesmente. O que acontece com o preço? Ele cai. O preço caindo, qual é a alternativa? Você usa o mais barato possível. O escravo fica muito barato. Esse é um modelo econômico simples. A escravidão, na verdade, se expandiu na África no século XIX. Para você ter uma ideia, no norte da Nigéria ainda havia escravos no final dos anos 1930. O que é surpreendente é como isso pode ter continuado se passou a ser ilegal. No passado, os países fizeram isso legalmente. Cometeram toda sorte de crimes contra a humanidade sem descumprir nenhuma lei. Mas agora há uma lei. Em qualquer lugar que se descubra que isso é feito, você vai para a cadeia. E as pessoas continuam fazendo. Isso é muito impressionante.

    RH Como o Canadá se posiciona na história dos descendentes africanos?

    PL Eu acho que o Canadá é uma liderança nas questões históricas relacionadas ao multiculturalismo e à manutenção da paz internacional. Pra mim, um exemplo forte disso é o fato de alunos da escola secundária terem muitas opções para o futuro. Eles vão além-mar, trabalham fora do Canadá, em ONGs ou nos mais variados projetos. Isso faz parte da experiência de crescer no Canadá. O que é bem diferente do que acontece nos Estados Unidos. E isto se relaciona ao fato de que há muitos imigrantes no Canadá. Na minha universidade, é possível ouvir oito línguas no campus. Quer dizer, nós temos asiáticos, africanos, caribenhos, latino-americanos… E isso é maravilhoso. É o lado bom do multiculturalismo. O lado ruim, basicamente no Canadá, é que não falamos uns com os outros. Todos os coreanos falam com outros coreanos, todos os chineses falam com os outros chineses, os jamaicanos falam com os jamaicanos.

    RH E as comunidades negras que se instalaram no Canadá no século XIX?

    PL O Canadá, principalmente quando avançou para o oeste, tornou-se uma área segura para africanos americanos. Isso se intensificou por volta de 1850, quando os Estados Unidos passaram pelo que chamamos de guerra escravista. E, na verdade, desde 1844, quando o Canadá passou a fazer parte do Império Britânico, a escravidão estava abolida. Em Ontário, já no começo dos anos 1790, não era mais permitido ter escravos. Ir para o Canadá se tornou uma das formas de escapar da escravidão. As pessoas que escapavam eram chamadas de “passageiros”.  E eles vinham de olho na Estrela do Norte. Porque, geograficamente, é muito fácil localizar o Canadá na América do Norte. Você só precisa saber onde está a Estrela do Norte e seguir em frente. É uma estrela muito proeminente no céu que permanece estática e conectada com o BigDipper.

    RH E foram muitos os fugitivos?

    PL Veja só: há uma informação de que 20.000 escravos americanos estavam vivendo em Ontário por volta de 1850. Havia comunidades inteiras de negros como as dos maroons, os palenques… Eu trabalhei com uma comunidade em Ontário que foi fundada no final dos anos 1840. E os descendentes dessa comunidade criaram um museu que tem um espaço histórico nacional. É um exemplo maravilhoso. Afinal, essa história, que produziu tantos impactos negativos ao longo dos séculos, teve certa continuidade. O mesmo não ocorre em outras partes, como nos países islâmicos.

    RH Como os países islâmicos lidam com a memória da escravidão?

    PL Eles têm muita dificuldade. Nós só precisamos olhar para o time de futebol da Arábia Saudita. Não é todo mundo nesse time que se considera africano ou negro, ainda que eles pareçam mais negros ou africanos do que eu. Porque eles são sauditas, árabes. Há, então, uma manipulação dessas características físicas e da memória da escravidão. Contudo, há um clima de debate que não existia há dez anos. E há muita pesquisa. Eu estive envolvido em vários congressos. Organizei um evento que aconteceu no Marrocos e tratava do assunto. Havia um grande movimento na Líbia neste sentido. O governo líbio sob Kadhafi investiu em temas relacionados à diáspora africana e à escravidão africana. Agora, a escravidão permanece sendo uma importante instituição no Islã.

    RH Por quê?

    PL A escravidão se deu de maneira diferente por lá. Em todas as sociedades europeias, o status da criança segue o da mãe. Então, se a mãe é escrava, a criança também é. No Islã, não. O status a ser seguido é o do pai. Se o pai é livre, a criança também é. Estamos falando de uma atitude completamente diferente. E eu digo que esta instituição permanece porque ela faz parte de uma certa ideologia. É como se a escravidão pudesse ser explicada em determinados termos, especialmente religiosos. É um componente de uma sociedade hierárquica.

    RH E a escravidão para além do mundo atlântico e islâmico?

    PL Bem, toda sociedade, em algum ponto, teve escravidão. Ela não é um fenômeno específico e unicamente africano. Já se argumentou que a escravidão foi o primeiro fenômeno de propriedade privada. Até mesmo anterior à propriedade privada de animais. E, na verdade, a habilidade de controlar um outro indivíduo, mesmo que não possamos provar isso, mesmo que não seja verdade, é uma relação de poder.

    RH O que acha do termo african-american usado nos Estados Unidos?

    PL African-american é um conceito usado pelos racistas norte-americanos. Eles costumam conceber a História como a fenomenologia da mudança dos povos, e eles tentaram justificar o que emerge como um sistema de duas castas. Todo mundo que é percebido de algum modo como descendente de africanos pertence a uma dessas castas. E todo o resto é branco. Uma só gota de sangue africano, e você é negro. Passar a ser branco se torna um conceito. Isto jamais faria sentido em um país com a história do Brasil.

    RH Por quê?

    PL Eu vou pegar um ano arbitrário: 1800. Nesse ano, havia no Brasil mais descendentes do Congo do que de Portugal. Nesse tempo, as pessoas eram seguramente mais semelhantes às mulheres do Congo do que às europeias. Muito mais. E, mais tarde, quando começamos a olhar através das gerações que nasceram aqui, quem são as mães? Do Congo ou da Europa?

    RH Essas identidades permaneceram?

    PL Até certo ponto. É o modo como os grupos imigrantes operavam. Você sabe, há uma grande imigração de italianos e alemães para o Brasil. E isso levou quantas gerações até que esses tipos fizessem diferença? Os chineses levaram muito tempo para se integrarem totalmente. Mas acontece. E não é verdade que os brancos não foram para a África. Na África Ocidental há muitos brancos. Depois de gerações, eles parecem negros como todo mundo. Surpresa! Como aconteceu aqui no Brasil, estamos falando de uma situação colonial. Os europeus tinham o poder, controlavam todos os recursos e a própria língua. Veja bem: quantas gerações foram necessárias até que várias das línguas desaparecessem? Quanto de reforço foi preciso? Esse era o jogo que estava sendo jogado: o deslocamento da população por meio da escravidão. E eles eram de diferentes tribos e culturas.

    RH Os donos de escravos estavam conscientes dessas diferenças?

    PL Eles estavam conscientes e tentavam manipulá-las. Em muitas partes do Caribe, os senhores estavam bem mais conscientes dessas distinções étnicas do que muitas das gerações posteriores. De algum modo, os senhores entendiam as diferenças étnicas, sem saber nada de história africana. Eles sabiam que algumas pessoas vinham de áreas prósperas e tinham habilidade para a administração de estoques, por exemplo. Os senhores discutiam as habilidades e características dos escravos e chegavam até a construir certos estereótipos. Havia escravos que cometiam suicídio. Outros eram mais resistentes. Estes estereótipos, como todo estereótipo, tinha uma pouco de verdade e muito nonsense. O historiador precisa ter cuidado quando depara com essas descrições feitas pelos senhores.

    RH Como fazê-lo?

    PL Bem, infelizmente, esse é o trabalho dos historiadores (risos). Nós temos que ter treinamento para fazê-lo. Lidamos com a informação disponível e tentamos interpretá-la, preencher as lacunas. Os historiadores são muito espertos ao usar os registros criminais onde há, frequentemente, os testemunhos. É claro que nem todos os testemunhos e registros criminais podem ser confiáveis. Se você matou alguém, não vai admitir. Nos registros criminais você encontra pessoas que foram acusadas por crimes que não cometeram, e as pessoas mentem. Nosso papel é tentar descobrir o que estava acontecendo, identificar o nível de verdade que você pode depositar num documento. Em geral, nesses materiais produzidos por escravos há uma voz forte. Então, é possível capturar, de algum modo, esses níveis de verdade e mentira.

    RH Como as histórias individuais podem ajudar os estudos da diáspora africana?

    PL Meu trabalho é justamente sobre histórias individuais. Eu fiquei cada vez mais interessado em biografias. A biografia é realmente maravilhosa. Ela nos faz perceber que estamos lidando com um indivíduo. Nós não podemos usar a palavra escravo no sentido nuclear de escravidão. Um escravo é antes um indivíduo com uma personalidade, desejos e heranças. Ele tinha uma personalidade, veio de algum lugar, buscava objetivos. O indivíduo começou vivendo uma vida livre. A escravidão é apenas uma parte de sua vida. Então, o que nós realmente vemos e reconhecemos é que, quando um indivíduo está em uma condição de escravidão, ele não perde a sua individualidade. Dentro de uma situação de vitimização econômica, política e legal, eles vão tentar maximizar e descobrir como sobreviver, como levar as relações, como ter religião… É por isso que eu acho que o indivíduo é importante. Talvez esta preocupação com a dimensão individual seja até mais interessante quando pensamos nos descendentes dos escravos.

    RH Por quê?

    PL Qualquer descendente de africanos no Brasil tem um passado na escravidão. Esse conhecimento, essa informação e o modo como ela é interpretada são realmente cruciais na base individual. O que acontece quando uma criança aprende que um ou mais dos seus ascendentes eram chamados de escravos? E para as outras crianças na classe, que não têm essa ascendência? Isso se dá hoje em dia nas idades de seis, dez e 12. Qual a diferença que isso faz? Nós precisamos saber isso. É curioso como percebemos que ninguém quer falar sobre o assunto. Ninguém se diz descendente de criminosos, prostitutas ou escravos. Você sabe, toda família limpa sua história. E um resultado possível é um grave e profundo problema social.

    RH Quais são os documentos usados para a construção dessas histórias individuais?

    PL São muitos. Nós trabalhamos, por exemplo, com algumas autobiografias. Posso citar uma, de um homem que estava aqui mesmo no Rio de Janeiro. O nome dele era Mahommah Baquaqua.  Ele veio do interior do que agora é a República do Benim, na África Ocidental. Era um escravo em 1845 e sua cidade natal era Djubo, no norte de Benim. Ele foi vendido em Pernambuco, comprado por um padeiro que vivia em Olinda. Ele não foi usado na produção de pão, mas na construção, especialmente no corte e no carregamento de pedras. Mahommah tentou matar seu senhor algumas vezes. Também tentou o suicídio duas vezes, fugiu e foi pego. Conclusão? O senhor o vendeu (risos). Mahommah acabou sendo comprado pelo capitão de um navio aqui, em 1847. O capitão do navio mostrou que não era muito esperto. Ele o levou em uma viagem para a cidade de Nova York.

    RH Mas em Nova York a escravidão já havia sido abolida em 1845, não é?

    PL Pois é. Então o nosso homem foi, felizmente, colocado para fora do navio e acabou numa prisão. Alguns amigos o tiraram de lá e o levaram para Boston, onde permaneceu escondido por dois anos. Depois foi cursar o ensino secundário. Mahommah foi um dos primeiros africanos a se formar e ir para o que chamamos de college nos EUA. E ele escreveu toda a sua biografia no Canadá em 1854. O que é bom para mim que seja alguém do Canadá. Três anos depois, foi para a Inglaterra. Não sabemos mais nada. O fio se perdeu. Sabemos somente que Mahommah queria voltar para a África, como muçulmano. Ele sempre quis retornar à África. É uma história maravilhosa… Uma história atlântica. Ele veio da África Ocidental, chegou ao Brasil, foi para os Estados Unidos, Canadá, Inglaterra. Como um canadense (risos).

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