Galerinha do CONFHIC – SÃO JOSÉ 2015 – Memórias da Inquisição

Memórias da Inquisição

Inaugurado em Belo Horizonte, museu conta a história da Inquisição no Brasil. Instituição dedica uma das salas às vítimas dos tribunais religiosos no país

Gabriela Nogueira Cunha

6/9/2012

  • Tudo começou com um casamento. Instaurada na Espanha desde 1478, a Inquisição moderna só chegou a Portugal em 1496, quando o rei D. Manuel I casou-se com a viúva castelhana Maria de Aragão. Pressionado pelas cláusulas do matrimônio, ele teceu o primeiro golpe: ordenou a expulsão dos judeus que se recusassem a conversão ao catolicismo. A consolidação das leis, do Santo Ofício e dos autos-de-fé, porém, veio apenas em 1536 – como consequência de uma série de difíceis negociações desencadeadas pelo sucessor do trono D. João III – alastrando-se por todo o Império.  A partir disto, o Brasil tornou-se palco da imigração de milhares de portugueses, entre judeus e outros considerados hereges que fugiam de perseguições, torturas e execuções. Para contar parte desta história, a Associação Brasileira dos Descendentes de Judeus da Inquisição (Abradjim) inaugurou, no último 21 de agosto, o primeiro Museu da História da Inquisição do Brasil, em Belo Horizonte (MG).

    Ao contrário do que aconteceu na América espanhola – em colônias como México, Peru e Colômbia – e na Índia portuguesa, não existiu no Brasil um oficial tribunal da Inquisição. Como se tratava do início da colonização e a população era pequena, apenas tribunais itinerantes foram criados durante as famosas visitas do Santo Ofício, em fins do século XVI e começo do XVII, para tratar das acusações mais leves. Aqui, a Inquisição teve seu marco inicial em 1591, com a visita do inquisidor português Heitor Furtado de Mendonça [o assunto é amplamente discutido na edição “Inquisição à brasileira” da Revista de História].

    Homenagem atemporal
    Para o historiador Daniel Rebouças, a construção do museu aparece como peça fundamental na história do povo judeu, que viu na colônia recém-criada de outrora uma válvula de escape, e elogia a iniciativa. “A fundação de um museu desta natureza é fundamental, quer para a história do povo judeu, quer para o conhecimento da história do Brasil colonial. Ao resgatar parte da história dos judeus no Brasil, em especial no seu momento de maior perseguição e intolerância religiosa, um público mais ampliado toma conhecimento do sofrimento e principalmente da luta desses indivíduos ante uma realidade adversa. Iniciativas como essa coroam os esforços de décadas  de pesquisadores e descendentes dos judeus no Brasil”. Num momento inicial, todos os judeus foram obrigados a se converter ao catolicismo, sendo conhecidos como “cristãos-novos”. Temendo à morte por não seguirem a fé católica, muitos deles fugiram para cá.

    Apesar de contar uma história antiga, o Museu da Inquisição pode ser fonte de debates atuais acerca de tolerância e diversidade religiosa, comenta o pesquisador: “Ainda hoje, se assiste a uma série de discursos de demonização e ações violentas contra grupos religiosos de matrizes africanas, principalmente por parte de determinados grupos cristãos. Resgatar essa memória histórica de perseguição, feita pela Inquisição aos judeus, é contribuir para o fim de da intolerância, preservando a livre expressão de fé. É nesse sentido que o Museu da Inquisição pode atrair e ter significado para além daqueles ligados ou interessados na História”.

    O acervo e o “Memorial dos Nomes”
    As linhas da Inquisição são pouco a pouco desenroladas no museu através de painéis, gravuras e pinturas de artistas como o espanhol Francisco Goya e o francês Bernard Picart, além da exposição de documentos, livros e objetos antigos do século XVI ao XIX e réplicas de alguns equipamentos de tortura em tamanho real como o polé, o pôtro e o garrote.

    Uma sala especial do museu foi dedicada aos brasileiros vítimas da Inquisição. No chamado “Memorial dos Nomes” contam os nomes completos e os números dos processos de condenação das vítimas da intolerância religiosa que marcou o país.

  • http://www.revistadehistoria.com.br/secao/reportagem/por-tras-da-inquisicao
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s