A TATUAGEM NA HISTÓRIA DAS CULTURAS

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A tatuagem na história das culturas

Muito se sabe sobre tatuagem aqui e ali, alguns estilos mais populares, estilos que vem surgindo, etc. Pois bem, existem várias histórias e mitos sobre tatuagem por toda área do planeta terra, e a proposta deste texto é abordar a tatuagem na história da humanidade.

Uma das hipóteses sobre o surgimento/uso das tatuagens é sobre marcas e cicatrizes de guerra, que representaria força e a capacidade de ser vitorioso em situações adversas. Acredita-se que foi a partir da crença do reconhecimento do poder que o homem passou então a marcar o corpo voluntariamente com tatuagens, usando tintas vegetais e espinhos de plantas para fazerem a arte.

Em 1991, por meio de estudos arqueológicos feitos com carbono 14, foi possível saber que no período Neolítico, pré-história ou idade da pedra polida, que durou até por volta do décimo milênio antes de Cristo, foi encontrado um homem que teve tatuagens por toda a coluna – 57 no total. Só foi possível contabilizar porque ele estava perfeitamente congelado nos Alpes. Posteriormente, encontraram, no Egito, 3 múmias de mulheres que tinham tatuagem por todo o corpo.

mumias tatuadas

No século III, o historiador romano Herodes registrou que os homens tatuavam seus corpos com artes de temas diversos envolvendo animais e natureza e não se vestiam para deixar à mostra. Nativos de várias partes tatuavam seus corpos por motivos ligados a crenças e rituais religiosos. Todos os povos que viviam em terras cercadas pelo Oceano Pacífico e os mares do Sul tinham a tatuagem como tradição.

Foi na Inglaterra, em 1769, no período das grandes navegações, que a palavra “Tattoo” surgiu pela primeira vez, graças ao capitão inglês James Cook. Ele registou em seu diário como “tattoow”, pois era o som emitido enquanto se tatuava – neste período usava-se ossos finos como agulhas e uma espécie de martelinho para permitir a entrada da tinta na pele. Cook descobriu esta arte em uma viagem ao Taiti, ao se deparar com a população coberta de imagens no corpo no lugar de roupas.

No Japão, a tatuagem também foi conhecida através de navegações, através com contato de japoneses com a cultura da Polinésia. No período feudal, a tatuagem no Japão servia como forma de punição à criminalidade, e nesse período a tatuagem era considerada pior que a morte. Porém, em um período de grande repressão, ser criminoso representava certa resistência ao que era imposto à população, e assim a tatuagem tornou-se símbolo dessa resistência. Acredita-se que até então o Japão foi o país que mais aprimorou esta arte, a partir de bambus e rica matéria-prima para pigmentação extraída da fauna.

Mas não foi só nisso que os japoneses aprimoraram a tatuagem: eles também criaram técnicas e estilos próprios, que até então era a tradicional ou tribal. O “tebori” era uma forma de tatuar com um tipo de pincel formado por agulhas feitas a partir do bambu. O trabalho demandava força manual para inserir o pigmento. Eles inovaram também em relação ao uso das cores, para criar efeitos tridimensionais, e colocaram toda a sua cultura nesta arte.

tebori

Na China, as “mulheres Li” fazem parte de uma antiga tradição cultural que tem resistido ao tempo, porém com cada vez menos adeptas. A população habita uma área montanhosa no sul da ilha Hainan, e o lugar, apelidado de “A cauda do dragão”, é considerado um tanto misterioso. O povo dessa região tem uma ligação íntima com sua religião e acredita ser guiado espiritualmente por xamãs. Dentre suas tradições, o desenho na pele, feito principalmente em mulheres, está entre as mais fortes. Os desenhos se diferenciam de acordo com a tribo e a família. A tatuagem na mulher faz parte de um ritual: a primeira, feita aos 13 ou 14 anos, serve para mostrar que a jovem já pode casar. A arte é admirada dentre as Li e, de acordo com a crença, os desenhos permitem que a pessoa as pessoas sejam reconhecida pelos seus ancestrais após a morte.

Na Índia, foi desenvolvida uma técnica para tatuagens temporária chamadas “Mehndi”, uma pintura corporal feita com hena a partir de pigmentos naturais. A técnica foi desenvolvida para fins decorativos em festas, e, no geral, levam temas românticos e muito rico em detalhes. A arte fica na pele por aproximadamente uma semana. Além de linda, esta arte é carregada de significados espirituais e terapêuticos, para atrair saúde, sorte, prosperidade, felicidade e amor.

técnica mehndi

Por toda América, de norte a sul, existem registros de povos tatuados desde os primórdios. Dentre as tribos norte-americanas, a Sioux se destaca, com tatuagens que faziam parte de rituais mágicos e religiosos. Maias, Incas e Astecas usavam a tatuagem a fim de mostrar a posição social. No Brasil, Tupinambás usavam tatuagens nos rituais antropofágicos e de passagem de idade, os Kadiwéus representam as mais belas tatuagens da região com belas artes ornamentais e os Carajás tatuavam desenhos circulares no rosto.

Como podemos observar, cada região, povo ou tribo fazia o uso dos materiais que tiravam da natureza para tatuar, e esquimós, maoris, samoanos, japoneses, índios dentre outros já se tatuavam há milhares de anos com ossos, bambu, madeira, espinho, tintas de plantas. O problema é que os riscos de infecções eram enormes, além da dor e o tempo para o trabalho ser realizado.

máquina de tatuagem elétrica foi outro grande avanço nesta arte. Alguns afirmam que a criação da máquina divide a história da tatuagem, como se fosse uma nova era. Em 1876, Thomas Edson inventou um aparelho chamado ‘impressora autográfica’, que tinha a finalidade de marcar ou gravar em superfícies duras. O aparelho não fez muito sucesso, mas em 1880 o americano Samuel F. O’Reilly aperfeiçoou o equipamento, adicionando várias agulhas e uma espécie de reservatório de tinta, além de torná-lo mais rápido. Desde então não parou mais: as máquinas ficam a cada dia melhores e mais modernas.

maquina de tattoo

A tatuagem passou por várias transformações, seja por conta das culturas diversas ou as técnicas diferentes e de aperfeiçoamento. Apreciada ou abominada, é uma arte que faz parte da humanidade. Atualmente, cada pessoa que possui tatuagem, seja uma ou muitas, assim como desde os primórdios, busca dar significado para a arte presente em seu corpo. O que de fato vem acontecendo é que ainda existe sim muito preconceito ao falar ou fazer uma tatuagem, mas, assim como há a evolução humana, a tatuagem também passa por este processo constantemente, ganhando espaço social cada vez maior. E esta História nunca acaba!

Fontes: AbrilWikipedia | Soultattoo

http://www.tattootatuagem.com.br/noticias/7361/a-tatuagem-na-historia-das-culturas/

Revolta dos Malês….Jornal A TARDE 06 de outubro 2013

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Revolta malê deixou raiz islâmica na Bahia

Cleidiana Ramos

  • Lúcio Távora | Ag. A TARDE

    O sheikh Ahmad Abdul lidera a oração na mesquita integrada ao Centro Islâmico

Pouca gente sabe, mas na rua Dom Bosco, em Nazaré, funciona uma mesquita. Ela integra o Centro Islâmico da Bahia e recupera as raízes do islamismo na capital baiana, trazido pelos povos africanos e combustível da Revolta dos Malês, ocorrida em 1835.

Malê era o nome usado para identificar  os africanos convertidos ao islamismo que, na Bahia, eram, principalmente,  haussás e fulani, povos vindos da região onde hoje estão a Nigéria e a República do Benim.

O levante assustou o poder e,  após  a supressão da rebelião, instalou-se uma perseguição implacável, mesmo a africanos libertos.

Até quem não tinha culpa passou a ser mal visto e suspeito. Outro efeito colateral foi um silêncio que torna  essa história pouca conhecida, mas como diz o sheikh Ahmad Abdul, líder da comunidade islâmica na Bahia, a história tem sua dinâmica própria.

“História é história e não tem como você apagar. Quando eu cheguei aqui, em 1992, fui encontrando marcas dos malês até na arquitetura de igrejas, como a da Lapinha”.

A chegada do líder religioso está fortemente ligada a essa resistência da história malê, recuperada em pesquisas acadêmicas, como a do historiador  João Reis, e nas ações dos movimentos negros.

Em 1991, um grupo, que envolvia religiosos do Islã vindos de são Paulo e estudantes africanos, organizaram um seminário no Centro de Estudos Afro Orientais da Universidade Federal da Bahia (Ceao/Ufba).

Logo em seguida, o grupo convidou o  sheik, que é nigeriano,  para assumir a mesquita. “Imagine que cheguei no Carnaval. Foi um choque”, relata.

Mas logo o reconhecimento começou a acontecer. “A cor das pessoas, o jeito de andar, de cumprimentar,  lembrava muito as pessoas da minha terra”, diz o religioso.

Um dos esforços do sheikh Abdul tem sido combater preconceitos contra o  Islã. “A nossa religião é de integração e para a paz. É triste quando as pessoas desvirtuam tudo”.

O sheikh explica que o islamismo é baseado em cinco pilares: a declaração de fé no Deus único (Alah); a oração; a prática da caridade;  o jejum e uma visita a Meca em algum momento da vida.

“Quando se vai a Meca acontece o encontro com pessoas de todas as cores e de vários lugares do mundo. Isso nos lembra que somos todos iguais e estamos ali, com todas as nossas diferenças, para o mesmo fim, que é  rezar”, completa o sheikh.

Comunidade

Na Bahia, segundo o último censo do IBGE,  443 pessoas declararam o islamismo como religião. Destas, 215 estão em Salvador.

A segunda cidade com maior número de adeptos da religião é Ubatã, no sul da Bahia com 43, seguida de Barreiras (35) e Lauro de Freitas (28).

Em Salvador, a mesquita é frequentada por baianos e também estrangeiros que vêm morar na cidade, como nigerianos e senegaleses.

Dentre os baianos, o contato com a religião acaba revelando raízes familiares. “Eu conheci o Islã em uma aula de história e me apaixonei. Aos poucos vim descobrindo as marcas na minha família”, conta Hassan Abdel Rahman, 58 anos. Este é o nome sagrado dele.

Rahman descobriu que descende de malês. “Pelas coisas que ouvia em casa fui estabelecendo as conexões, inclusive como a repressão foi motivo para o silêncio sobre isso na família”, afirma.