Vestibular – sugestão de leitura – crescimento da extrema-direita na Europa.

História – Prof. Paulo Leite

pauloleitehistoria@gmail.com

https://ospyciu.wordpress.com

Leitura sugerida: Crescimento da extrema direita na Europa.

03 de Janeiro de 2011
REGIMES POLÍTICOS / EUROPA
A direita radicaliza
As ditaduras de Franco e Mussolini são os embriões da extrema direita   que cresce hoje na Espanha e na Itália. Apoiados na recente ofensiva da hierarquia   católica, esses partidos têm um discurso conservador baseado na unidade   nacional e na preservação dos “bons costumes”
por Laurent Bonelli, Raffaele Laudani
Construir a história da extrema   direita não implica apenas em procurar características intrínsecas de um   partido, de um movimento, mas avaliar também as condições necessárias para   arquitetar as alianças mais ou menos plausíveis, as continuidades mais ou   menos possíveis, observáveis nacional ou localmente.Por exemplo, no caso francês, não   foram apenas divergências ideológicas que impediram os dirigentes do   Rassemblement pour la République (Reunião em prol da República – RPR) de se   aliar ao Front Nacional (de extrema direita), mas também as chagas que os   enfrentamentos – inclusive físicos – da guerra da Argélia haviam aberto entre   os seus militantes respectivos.1

A questão é particularmente premente   para a Espanha e   a Itália; dois   Estados nos quais a extrema direita exerceu o poder de maneira duradoura, com   as ditaduras do general Francisco   Franco (1939-1975) e de Benito Mussolini (1922-19432).

ESPANHA

Na Espanha, a transição democrática   deixou espaços reduzidos para os partidos que reivindicavam sua filiação ao   franquismo. É verdade, eles conservaram uma influência nas forças de   segurança, ensaiando até mesmo uma tentativa de golpe de Estado militar em 23   de fevereiro de 1981. Mas eles nunca poderão exercer qualquer influência de   peso no plano eleitoral, em razão, entre outras, da absorção de um bom número   dos seus militantes – e das suas temáticas – pela principal agremiação de direita, a Aliança   Popular (AP – Alianza Popular). Liderada por Manuel Fraga, antigo   ministro do turismo e da informação de Franco, a AP logo se tornaria a   principal força de oposição ao Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE),   no poder de 1982 a 1996.

Rebatizada   em 1989 de Partido Popular (PP – Partido Popular) e dirigida por   José Maria Aznar, esta   agremiação reúne eleitores que vão desde a direita democrata-cristã até os   setores mais nostálgicos do franquismo. Seu governo foi variando de   características em função das alianças que precisou contrair. Antes com um   perfil liberal, na coalizão de governo que ele dirigiu entre 1996 e 2000   (privatizações e redução das despesas sociais), o PP optou por uma guinada   mais conservadora uma vez reeleito em 2000, desta vez com a maioria absoluta.

O   PP envolveu-se de maneira deciciva na “guerra global contra o   terrorismo”, primeiro no Afeganistão e depois no Iraque, fez votar uma lei restritiva   sobre a entrada e a permanência dos estrangeiros e obteve a proibição   do Batasuna, uma agremiação da esquerda nacionalista basca. Ele também impôs   uma reforma educacional, restabelecendo a educação religiosa e moral católica   no ensino primário e secundário.

O seu retorno à oposição, em março de   2004, deu início a um período de tensões entre os que queriam fazer do PP um   partido liberal tradicional, como o prefeito de Madri, Alberto Ruiz   Gallardón, e os partidários de uma linha mais dura. A escolha de Mariano   Rajoy para o cargo de secretário-geral traduziu a busca de um equilíbrio, mas   foi nas fileiras dos seus eleitores mais radicais que o PP passou a procurar   apoios. É neste sentido que deve ser entendida a sua oposição radical nos   debates sobre a guerra civil, quando Ignacio González, vice-presidente da   comunidade autônoma de Madri, declara: “Alguns grupos querem recuperar os   antigos fantasmas de um passado que já foi superado”; ou a oposição à remoção   dos monumentos fascistas, como foi a retirada da estátua equestre de Franco   de Nuevos Ministérios, em Madri, em 2005, considerada por dirigentes locais   “o ato mais radical da história democrática”.

O   PP também iria apoiar as ofensivas da hierarquia católica contra o casamento   homossexual, com argumentos como o de Mariano Rajoy, que considerou que este tipo   de união “desnaturaliza a instituição de base do casamento”; se posicionou também contra a   instauração de uma educação cívica na escola, alegando que “por meio   dela a esquerda pretende orientar a vontade das crianças e modelar suas   consciências”, como declarou Alicia Delibes, a vice-conselheira para a   educação da comunidade de Madri; ou ainda, contra a extensão da duração legal   do período que antecede o aborto, sob o argumento de que este foi “o pior   retrocesso democrático em 30 anos de democracia, pois, pela primeira vez, foi   estabelecido que um grupo de pessoas, o das que não nasceram, pode ser   eliminado de maneira terrível e sem direito à defesa alguma”, vituperou David   Pérez, porta-voz do grupo popular na Assembleia de Madri.

O   PP também iria reativar a ideologia franquista da unidade nacional, ou seja,   a da desconfiança para com as autonomias regionais. Em 2006, Eduardo   Zaplana, porta-voz do PP, declarou que no governo de José Luis Zapatero   “vencem aqueles que querem destruir a Espanha”. Na mesma ordem de ideias, ele passou a se preocupar com   a questão da imigração, apoiando em 2010 certas municipalidades que recusaram   aos migrantes irregulares o acesso aos serviços de saúde e educação.

Esse endurecimento conservador do PP   espanhol contrasta de modo bastante claro com as evoluções observadas na   Itália.

ITÁLIA

Uma das consequências mais notáveis   da “anomalia” berlusconiana   concretizou-se na afirmação de duas “almas” aparentemente bastante distintas   da direita: a “pós-fascista”, encarnada pelo atual presidente da Câmara dos   Deputados, Gianfranco Fini, e a “separatista”, da Liga do Norte, liderada por   Umberto Bossi.

Será uma coincidência? Na certa, não:   o partido que surgiu das cinzas do fascismo do pós-guerra – o Movimento   Social Italiano (MSI) – escapou do gueto no qual a Primeira República o   confinara, no momento exato em que Silvio Berlusconi entrou na arena. O   demorado flerte entre esses dois partidos atingiu seu ápice com a fundação do   Povo da Liberdade (PDL), único partido de centro-direita. Ora, este último,   tal como uma fada madrinha, promoveu o nascimento e o batismo, em 1994, da   jovem Aliança Nacional, sob o nome da qual o partido de Giorgio Almirante   trocou de pele, abandonando suas antigas roupas ideológicas3,   em particular os preconceitos antijudeus e pró-árabes, típicos da direita da   península.

Aquele foi o prelúdio para a   construção, inédita na história italiana, de um partido de direita “à   europeia”, inspirado tanto na tradição popular alemã quanto naquela da França   do general De Gaulle e, paradoxalmente, disposto a assumir posições, às vezes   mais “progressistas” do que as do Partido Democrata (PD) em matéria de   direitos civis (o que inclui desde a fecundação assistida até o   reconhecimento dos casais de fato, e até mesmo o direito de voto para   imigrantes legais)…

A etapa decisiva dessa transição vem   ocorrendo a alguns meses na forma de uma confrontação direta com o   “Cavaliere”, isto é, Berlusconi, de quem Gianfranco Fini, hoje, parece ter se   tornado o principal adversário. De fato, enquanto este último explorou por   muito tempo sua relação privilegiada com o presidente do Conselho, correndo   com isso o risco de endossar parte dos seus erros e excessos pessoais, o   advento de um partido único de centro-direita – qualificado posteriormente de   “erro4” pelo chefe da AN – retirou dos trânsfugas deste   partido toda e qualquer margem de manobra autônoma.

Isso explica por que Gianfrancesco   Fini acabou colidindo com a figura incômoda da Sua Eminência, atolada em   escândalos sexuais e judiciários dignos do Baixo Império. Com a deserção da   União do Centro (UDC), um dos produtos da decomposição da “baleia branca”   democrata-cristã, e frente à inação do PDL, reduzido a inventar obstáculos   contra a “ferocidade” da magistratura com o presidente do Conselho, o centro   de gravidade do governo deu uma guinada rumo à Liga do Norte. Por sua vez,   esta última, diferentemente da AN, preferiu aliar-se ao Cavaliere sem,   contudo, fundir-se no PDL – lembrando que o poderoso “superministro” da   economia, Guido Tremonti, formalmente um representante do PDL, faz as vezes   de spin doctor para a Liga.

Daí a ambição declarada de   Gianfrancesco Fini de se tornar califa no lugar do califa em 2013 – e a   exposição excessiva da sua “diferença”. Assim fazendo, ele ressuscitou dois   princípios característicos da direita tradicional que haviam sido sacrificados   durante os anos de namoro com o berlusconismo: a legalidade e o culto do   Estado, pilares da jovem agremiação Futuro e Liberdade (FLI). Fundado em   novembro de 2010, como uma reação contra a expulsão do chefe da AN do PDL,   este partido desponta como uma alternativa “moderada”, “constitucional” e   “social” ao berlusconismo.

Embora o seu percurso pareça menos   tortuoso, a Liga do Norte não depende menos dos desdobramentos das aventuras   da Sua Eminência. Aliado com a Forza Italia para constituir o primeiro governo   Berlusconi, este movimento “antissistema”, que preconizou a “secessão” e   depois a “federação”, constituindo-se como porta-voz das instâncias mais   agressivas dos meios patronais, também conheceu uma profunda mutação ao longo   dos últimos anos.

Transformado em partido de governo,   ele consolidou seus poderes locais participando nas instituições nacionais.   Nas eleições regionais de 2010, a Liga obteve nas “suas” oito regiões-chave   19,77% dos votos – e até mesmo 35,15% na província de Veneza. Ainda que eles   se incluam entre os seus simpatizantes, alguns comentaristas se perguntam “se   a Liga ainda é federalista” ou se ela traiu seus ideais em troca da sua   presença na “sala dos comandos5”.

As suas práticas provocam profunda   contradição entre o “pragmatismo” e a linguagem “mitológica” da Padania – uma   entidade de origens duvidosas, que pretende supostamente unir a cultura e as   tradições de todos os povos da Itália setentrional, herdeira da civilização   celta e depositária das raízes cristãs da Europa. Mais que a sua iniciativa   de denunciar “Roma, a ladra”, que lhe serve apenas para mobilizar suas bases,   é a sua participação nas instituições que favorece atualmente a tutela dos   interesses (egoístas) do Norte, região da qual a Liga afirma ser porta-voz.

Enquanto o berlusconismo se   caracteriza por um laisser-faire sem liberalismo6, a Liga,   ao contrário, encampa um liberalismo sem laisser-faire: dele ela assume   apenas as dimensões antissocial e xenófoba – lançando mão, por exemplo, da   triste invenção das “rondas cidadãs” de autodefesa contra a “criminalidade   extracomunitária”. Mas a polêmica em torno da imigração clandestina serve   como teste para um ataque mais vasto contra as regras do mercado do trabalho,   de modo a “libertar” este último dos “obstáculos” sociais, e, em primeiro   lugar, sindicais, no quadro de uma tutela clientelista sobre os seus próprios   territórios. Com isso, o partido de Umberto Bossi torna-se o principal   herdeiro do “assistencialismo” que havia sido implantado pela defunta   Democracia Cristã.

As   duas direitas italianas enfatizam suas diferenças entre si, mas elas nada têm   de incompatível. Afinal, o nome dos seus líderes se encontram lado a lado   como os autores da principal medida política adotada pela centro-direita nos   últimos anos – a saber, a tristemente famosa lei Bossi-Fini sobre a imigração   (2002), uma das mais duras do continente europeu.

Alguns observadores insistem na   “sinceridade” da guinada democrática de Gianfrancesco Fini, referindo-se ao   doloroso divórcio da mulher exaltada que ele havia encontrado no tempo da sua   militância fascista.7Mas o seu perfil “moderado” não deixa   de parecer uma mutação, acima de tudo tática, adaptada à visão de grandes   patrões, interessados em manter-se à distância do último ciclo de Berlusconi,   considerando – talvez de maneira demasiadamente otimista – que ele está   encerrando (mal) a sua trajetória.

Em 20 anos, a Cofindustria, a   organização patronal italiana, alternou de maneira oportunista o seu apoio   entre o “moderado” Romano Prodi (que ela prefere) e o “extremista” Berlusconi   (que ela suporta… cada vez menos). Mas, considerando a incapacidade da   esquerda de oferecer uma alternativa dentro de um quadro neoliberal, parece   que as escolhas, daqui para a frente, serão feitas no âmbito da direita.

Laurent Bonelli é integrante do grupo   de análise política da Universidade Paris 10 – Nanterre. Publicou La France a   peur. Une histoire sociale de l’insécurité, Paris, La Découverte, 2008.

Raffaele Laudani

http://diplomatique.uol.com.br

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