OS ALUNOS DE BACON, OU SOBRE COMO É FÁCIL PRODUZIR MENTIRAS – Prof. Adônis Cairo

   Estamos no limiar do século XXI. Esta é uma primeira mentira. O século XXI não existe, em si. O que existe é uma datação considerada a partir do evento Jesus Cristo. A Ciência acaba de ser sacudida em suas bases por uma notícia, no mínimo, preocupante: parece haver algo mais veloz que a luz. Se, e somente se isso for verdade (em tempo: verdade é aadequação do que se pensa com o que, de fato, ocorre), então, todo o alicerce da cosmologia contemporânea estará sob suspeição. Nas sacristias dos grandes templos da Ciência, o pau tá quebrando, para dizer o mínimo. As reações lembram que ocorreu na Renascença, quando Galileu Galilei ousou afirmar o que alguns já desconfiavam ser verdade: a Terra não estaria fixa no centro do universo finito.

 

Nos institutos de física do mundo inteiro, os professores mais velhos resistem e afirmam que deve estar ocorrendo algum erro de medição. Não descarto a
possibilidade. Tudo é possível, menos nada, por uma questão de lógica. Vamos ver o que nos aguarda. Agora, é esperar para ver! Eu, de minha parte,
como não estou profissionalmente implicado nas consequências do resultado, torço irresponsavelmente para que o tal neutrino (que eu não consigo ter a
mínima ideia do que venha a ser) seja, realmente, mais rápido que a luz (coisa de uns 60 nanosegundos, segundo li, um absurdo de superação do recorde!).
Talvez não seja tão mais rápido assim… uns 20 nanosegundos e as pessoas já saem por aí espalhando todo tipo de boato,eu hein!!

Por mim, não, como diz minha mãe. Frase estranha, difícil de analisar, mas que pode ser traduzida para Português urbano como “a mim, pouco interessa o
resultado”. Ou melhor: interessa sim, sobretudo se for um resultado que provoque muita polêmica… já imagino os físicos pulando das janelas dos
centros de pesquisa, doutores sendo processados, famílias em desespero, um espetáculo!

XXX

Em muitas universidades baianas os alunos (isso mesmo, alunos) são proibidos por alguns mestres (isso mesmo, mestres) de usar a palavra “aluno”
para se referir a… aluno. Parece um trava línguas, mas é a mais pura descrição de uma situação, no mínimo, sui generis. Não conheço a origem do equívoco, mas o fato é que, por algum mal entendido, ou por obra mal intencionada de algum doutor em educação, começou a circular pelo país em geral e pela Bahia em particular, a crença de que a palavra “aluno” carregaria em sua etimologia uma negação da luz aos estudantes.

Segundo os “doutos” divulgadores dessa crença, o “a” de “aluno” seria um prefixo de negação associado à palavra “luno”  que seria uma forma latina do que, em Português traduzimos por luz (aquela que, coitada, parece ter tido seu recorde quebrado pelo tal neutrino que, já disse, não faço ideia do que seja). Tudo muito bem posto, se tudo fosse verdade: a-luno, portanto, seria, literalmente, sem-luz. Ocorre que, quando vamos ao dicionário de Latim, o que encontramos como “luno” é algo que nos remete a curva, arco, tal como os latinos, ou quem por eles, relacionaram as linhas curvas  às curvas (ou à curva) da
lua. Nesse caso, e considerando que o prefixo estivesse correto, o nosso aluno não seria mais um  “sem luz” e, sim, um “sem curvas” (um reto????).

Se continuarmos, teimosos, a bisbilhotar o dicionário de Latim, eis que encontraremos, surpresa das surpresas, a palavra “alumnus” significando: criança de mama, menino, educando, discípulo! O bom senso me leva a derivar a palavra “aluno” do vocábulo “alumnus”, e não da etimologia inventada sabe-se lá por quem e
sabe-se lá com que intenção. O fenômeno, no entanto, é que muitos dos que hoje aceitam a estranha e inverossímil “etimologia” são pessoas afeitas à pesquisa, pessoas que não teriam qualquer dificuldade de ir ao dicionário de Latim para, pelo menos, verificar se a tal origem da palavra era confiável ou não. Porque não o fazem? É aí que entra Francis Bacon. Segundo o filósofo, nós temos a tendência a acreditar no que os eruditos falam (o famoso ÍDOLO DO TEATRO) e nem nos damos ao trabalho de verificar se o que falam é bem fundamentado ou não. Para ser coerente, eu mesmo não recomendo a ninguém aceitar este meu texto sem dar uma boa olhada num bom dicionário de Latim. Já pensou se eu estiver inventando tudo isso?

E é aí que entram os neutrinos: não sei o que são, nunca vi um deles, mas os cientistas não só afirmam que existem como também, agora, que parecem mais
rápidos que a luz. Verdade? Mentira? Queridos, vou dar uma olhada no meu dicionário de Latim. Se lá estiver escrito que neutrino (lá deve estar algo
como “neutrimnus”) significa “nova velocidade”, então saberei com convicção que, sim, o neutrino é mais rápido que a luz.

Vamos à etimologia: “neutrino” vem da conjunção do prefixo grego “neo” que por desgaste de uso chega ao latim como “neu”, mais “trimnus”, que significa, tanto em Grego quanto em Latim, “velocidade” (daí derivam as palavras trenó e, mais tardiamente, trem, meios de transporte que se deslocam em grande…velocidade). Pegaram a ideia? Ora, se “neutrino” significa originalmente “nova velocidade”, isso indica que os antigos já sabiam que as tais partículas
eram mais rápidas que a luz. Pronto: não só acabei de cunhar nova etimologia com ainda fiz uma sensacional descoberta de Arqueologia da Ciência.

Acabei de ler o texto para minha linda esposa Marta (ela sempre gosta do que escrevo…mulher sábia). Ela sugere uma outra brincadeira: imaginemos que a etimologia QUE EU INVENTEI começasse a circular por aí como verdade. E toda vez que um certo professor mal-humorado quisesse dizer que o aluno não tem velocidade mental, o chamasse de… atrino. O aluno, humildemente, perguntaria ao mestre o significado da palavra e ele, erudito, responderia: “o vocábulo atrino deriva da conjunção do prefixo ‘a’, que em Latim significa ‘sem’, mais ‘trino’, que em Latim significa ‘velocidade’. Ou seja, você é um lerdo”. O aluno iria para casa, buscaria a tal etimologia e descobriria que o professor estava “viajando na maionese”. E, então, silente, diria de si para si mesmo: “Ele pode me achar lerdo, mas ele é que é um apedeuta!” (vocês não acham que eu vou dar a etimologia, acham?).

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