Ela tinha um estilo inconfundível…minha vizinha de barriga.

Eu sou gêmeo. Minha irmã, Sio (corruptela de seu primeiro nome), nasceu primeiro e, também primeiro desencarnou. Aos 21 anos, acometida de Lúpus,  doença pouco conhecida àquela época.

Ainda que as últimas etapas de sua vida encarnada tenham sido recheadas de sofrimento, para ela, em especial e, em segundo plano, para nossa baixinha Diva, exemplo incondicional de dedicação e amor de mãe, Sio (nascida Siomara Regina) deixou marcas inconfundíveis. Hoje acordei pensando nisso. E deu vontade de compartilhar com os amigos e as amigas de OSPYCIU.

Extrovertida, PIRRACENTA, espertíssima, alegre como poucas, valente, muito valente. Não necessariamente nessa ordem, algumas situações vieram à memória…

…como na época de escola em que ela escondia o boletim (vermelhinho, vermelhinho) ao chegar em casa e me prometia mundos e fundos se eu não contasse a nosso pai. E durante o jantar, lá vem a pergunta que, arrisco dizer, era a mais temida por ela: diz o velho, “Como foi na escola, saiu o boletim?”. E ela se fingia de surda, morta até se fosse preciso. A cara dela denunciava o desastre.

…quando morávamos no Retiro, antes de 1977, brincando na rua em uma espécie de velotrol para gêmeos, quase fomos atropelados por um caminhão. Ela percebeu e me puxou. O motorista disse não ter visto, no que acreditamos, mas, ele caiu na asneira de dizer que “vou trazer um novo quando eu voltar de São Paulo”. Cada dia que ele passava perto de nossa casa, ela resmungava…”olha ele alí, nosso velotrol nunca vem”. E pelo olhar que dirigia ao moço, não sei como ele nunca caiu fulminado. Mas, ela estava certa, velotrol que é bom….

…por volta de 1977/78 morávamos em Brotas. A escola era perto, mas uma moça nos buscava fim de tarde. Sio laragava a mão da moça, atravessava a rua e da outra calçada ficava provocando..”eu vou sozinhaaa, vc vai levar carão de minha mãe”. E quando à casa chegava, ela era a primeira a avisar, “mãe, a moça me deixou vim(sic) sem dar a mão”. Irritantemente pirracenta, mas, como não rir??!!

…também de Brotas vem a lembrança de quando ela queria subir ao play para brincar de bicicleta, não tinha elevador e implorava para que eu carregasse a sua. Eu quase sempre o fazia. E era só chegar lá em cima, olha ela cantando: “ele é meu empregadoooo”. Ô raiva!!!

…uma certa feita, ela perdeu o ano na escola, motivo que eu usava pra dar o troco toda vez que ela aprontava contra mim. Quando eu dizia que ela era repetente (hoje eu seria acusado de bullying), a minha vizinha de barriga largava em público um ‘segredo’: sou mesmo, mas pelo menos não tenho medo de formiga igual a você”. Uma coisa não tinha relação com a outra , mas, ela tinha que sacanear e sabia fazer como ninguém. Sim, eu tinha medo de formiga. Tinha.

…nascemos a 31 de dezembro, portanto, capricornianos, massss, ela me fez acreditar durante muito tempo que nosso signo era GÊMEOS. E eu acreditei.

Sem comentários.

…e por falar em aniversário, quem era que colava papel na porta que ficava de frente para a escada, escrito: “Só entra com presente”? Eu morria de vergonha. Sem contar que ela se invocava com a data, dizendo que “nosso aniversário demora mais do que o de todo mundo pra chegar, agora vamos ter que esperar o ano todinho!!”. É mole?!

…quando a doença foi diagnosticada, seu tratamento principal se deu no Hospital das Clínicas, no Canela. Um dia eu fui visitá-la e ao chegar com nossa mãe, a notícia, dada pela enfermeira, era: “D. Diva, Sio hoje aprontou: entrou na enfermaria e pegou um item da merenda de cada paciente”. E nem parecia que tinha feito arte, assumia com um cinismo imbatível. Mas, ao mesmo tempo, era muito querida pelos profissionais que carinhosamente cuidaram dela.

…admirável era sua valentia. Frequentar escola passava a ser coisa rara, às vezes tinha mais meses de hospital do que de estudos, mas isso não a impedia de criar amigas e amigos nas poucas idas ao Manoel Devoto, sua última escola. Mesmo tendo que usar uma espécie de lenço na cabeça para disfarçar os ralos cabelos, fruto dos medicamentos fortes. Nem isso a abalava.

…certa feita, mesmo sem poder se expor ao sol, foi à praia com parentes. Na barraca que ficou, arregimentou cerca de 8 a 10 pessoas e conversa vai, conversa vem, aterrissou no sítio onde morávamos com um carro cheio, avisando pra minha mãe: “trouxe meus amigos para almoçarem”. Era assim, desprovida de qualquer preocupação, sem qualquer melindre se a comida satisfaria ou algo do tipo. Era, sim, comunicativa ao extremo, sem preconceitos, sem disfarces.

Nos últimos tempos de vida encarnada, não ficava mais no hospital; em casa foi montada uma estrutura para mantê-la próxima de nós.

Até o dia 23 de janeiro de 1988. Eu saía para o trabalho, passei em seu quarto para dar-lhe um beijo. Ela pegou em minha mão e me disse algo impossíveil de esquecer:

“Olhe, a gente veio junto. Mas, não vamos juntos não”. No meio da manhã, minha chefe atende ao telefone e me chama…

Esta É Sio…

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7 pensamentos sobre “Ela tinha um estilo inconfundível…minha vizinha de barriga.

  1. Vc tá de brincadeira, né professor? Morri com esse texto. Puta merda! Vc fala no Face sobre o blog, eu entro super despretensiosa…aff!
    Desculpe, tô muito sensível… Achei incrível.

  2. Cada pessoa que passa em nossa vida, passa sozinha, é porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra! Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha e não nos deixa só porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso…….

    Beijos em vc e nas quatro vidas.

  3. Paulo, na vida nada acontece por acaso… tudo tem uma razão de ser…
    Seu texto fez-me pensar nas belas palavras de Chico Xavier: “A sabedoria superior tolera, a inferior julga; a superior perdoa, a inferior condena. Tem coisas que o coração só fala para quem sabe escutar!”
    Que espírito iluminado teve, e tem, sua vizinha de barriga… Feliz de quem conviveu com ela nesse plano. Não sei por as essas características : “Extrovertida, PIRRACENTA, espertíssima, alegre como poucas, valente, muito valente”, lembra alguém que conheço…

  4. Paulo,
    Que saudade!! Seu texto me lembrou de uma época em que o terminal era Barroquinha ou Aquidabã e o caminho era o Dique do Tororó.
    Senti Saudade. Não havia assalto no ônibus, era o único meio para o cinema, para o shopping, para o médico…
    Adoro Narrativas de Bisu

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